terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Rose Morena

    Havia noites em Cáceres que cheiravam a jasmim e pólvora. Diziam que era o calor que fazia o perfume evaporar das flores e o suor dos soldados coagular mais rápido; outros afirmavam que era só superstição — porém, ninguém duvidava da proibição que pairava na cidade: mulheres não podiam circular sozinhas após o escurecer. Naquele tempo as leis não estavam escritas em papel, mas em olhares, cassetetes e silêncios. 
 
    Rose Morena caminhava mesmo assim. 
 
    O salto miúdo ecoava na Rua Direita. Quem a visse diria que nascera para desafiar a noite: pele cor de cobre escurecido pelo sol, vestido vermelho que lembrava pecado, orgulho e ferida ao mesmo tempo. Prostituta — como sussurravam as esposas na fila da igreja — mas havia algo naquela mulher que escapava do insulto. Talvez fosse o modo como fumava devagar, como se cada tragada fosse um pensamento; ou o jeito de encarar o mundo com a altivez de quem já conheceu a humilhação e recusou-se a dobrar. 
 
    Naquela noite, o soldado Jarbas a viu primeiro. Jarbas tinha o dever de aplicar a lei, mas toda vez que via Rose Morena sentia a gravidade das ordens perder peso. O capitão ensinara que mulher na rua depois da vesperal era afronta; mas Rose Morena era mais que uma mulher — era um argumento vivo contra a própria cidade. 
 
    — Deveria estar recolhida — disse ele, tentando omitir o tremor da voz. 
 
    Rose soprou a fumaça em direção ao soldado. Era um gesto simples, mas nele havia uma insolência quase elegante. 
 
    — Não sou galinha de terreiro para dormir à ordem do galo — disse. 
 
    Jarbas sentiu a frase entrar nele como farpa. O conflito moral começou ali. O dever pedia que a conduzisse até a cadeia; o desejo pedia algo sem nome; e o medo lembrava que o capitão não perdoaria mais uma desobediência. 
 
    No cabaré Casa dos Prazeres, onde Rose trabalhava, os homens chegavam tarde e saíam antes do sol com a vergonha dobrada no bolso. Lá, Rose não precisava prover carícias — o que vendia eram conversas, desabafos, fantasias e um tipo de compreensão amarga que os confessionários não ofereciam. Alguns diziam que ela lia almas; outros, que aprendeu esse talento sendo machucada cedo demais. 
 
    Por isso era temida. 
 
    Uma tarde, o padre Lauro disse à esposa do intendente: 
 
    — A pior tentação não é o corpo; é a mulher que escuta. O demônio prefere a confidência à carne. 
 
    Ninguém soube ao certo se falava de teologia ou de Rose Morena. 
 
    As perseguições começaram discretas: farpas de moral envernizada, conselhos fingidos, convites para se redimir. Rose ria de todos. Mas quando se ri da ordem, a ordem afia suas armas. 
 
    O intendente decretou, sem decretar: “quem passar pela rua depois do toque morrerá para a cidade”. Não era uma lei escrita, mas um destino. 
 
    Rose continuou a caminhar. 
 
    Jarbas a seguiu por semanas, dividido entre protegê-la e capturá-la. Às vezes, inventava rondas para não deixá-la só. Noutras, fingia não vê-la, como se o desejo pudesse ser absolvido pela covardia. Mas o capitão não era homem que tolerasse ambiguidades. 
 
    Uma noite, chamou Jarbas ao quartel: 
 
    — A cidade tem regras. Mulheres que ignoram regras são perigosas. Se não agir, terei que agir eu mesmo. 
 
    Jarbas voltou para casa com o uniforme pesando como ferro molhado. Na madrugada, pensou em desertar. Em outras, em matar o capitão. A moral, percebeu, era só um campo de batalha onde ninguém ganhava. 
 
    A queda se deu numa noite de lua cheia. Rose caminhava com o vestido vermelho e os cabelos soltos. Jarbas a encontrou perto da ponte velha. 
 
    — Hoje não dá — ele disse, quase suplicando. 
 
    Rose parou. Olhou para ele com uma piedade que feria mais que o desprezo: 
 
    — Não vim buscar a rua. Vim buscar a mim. 
 
    Ele entendeu. A rua era liberdade, e liberdade era proibida às mulheres. 
 
    O capitão surgiu com dois soldados. Não houve discurso — apenas golpes, insultos, o zumbido do bastão cortando o ar. Jarbas tentou intervir, mas descobriu o limite da própria coragem. 
 
    Rose sangrou, mas não fez o som que eles esperavam. Não implorou, não negociou, não chorou. E esse silêncio fez mais barulho que a violência. 
 
    Depois desse dia, Rose Morena sumiu da cidade — e ninguém soube ao certo se foi embora, se morreu, ou se apenas cansou de ser mulher em tempos proibidos. 
 
    Anos depois, ainda havia quem a mencionasse. As esposas com medo, as filhas com curiosidade, os homens com nostalgia e culpa. E Jarbas com o remorso de quem descobriu tarde demais que defender a lei pode ser traição à própria alma. 
 
    Às vezes, nos finais de tarde, alguém jurava ter visto uma figura vermelha atravessar a Rua Direita antes do pôr do sol enfeitar o Rio Paraguai. Talvez fosse verdade. Talvez fosse delírio. Talvez fosse só a ideia de que toda cidade guarda uma mulher que tentou ser livre antes da hora — e pagou o preço. 
 
    Fosse como fosse, Cáceres jamais esqueceu o nome:  Rose Morena. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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