Havia noites em Cáceres que cheiravam a jasmim e pólvora. Diziam que era o calor que fazia o perfume evaporar das flores e o suor dos soldados coagular mais rápido; outros afirmavam que era só superstição — porém, ninguém duvidava da proibição que pairava na cidade: mulheres não podiam circular sozinhas após o escurecer. Naquele tempo as leis não estavam escritas em papel, mas em olhares, cassetetes e silêncios.
Rose Morena caminhava mesmo assim.
O salto miúdo ecoava na Rua Direita. Quem a visse diria que nascera para desafiar a noite: pele cor de cobre escurecido pelo sol, vestido vermelho que lembrava pecado, orgulho e ferida ao mesmo tempo. Prostituta — como sussurravam as esposas na fila da igreja — mas havia algo naquela mulher que escapava do insulto. Talvez fosse o modo como fumava devagar, como se cada tragada fosse um pensamento; ou o jeito de encarar o mundo com a altivez de quem já conheceu a humilhação e recusou-se a dobrar.
Naquela noite, o soldado Jarbas a viu primeiro. Jarbas tinha o dever de aplicar a lei, mas toda vez que via Rose Morena sentia a gravidade das ordens perder peso. O capitão ensinara que mulher na rua depois da vesperal era afronta; mas Rose Morena era mais que uma mulher — era um argumento vivo contra a própria cidade.
— Deveria estar recolhida — disse ele, tentando omitir o tremor da voz.
Rose soprou a fumaça em direção ao soldado. Era um gesto simples, mas nele havia uma insolência quase elegante.
— Não sou galinha de terreiro para dormir à ordem do galo — disse.
Jarbas sentiu a frase entrar nele como farpa. O conflito moral começou ali. O dever pedia que a conduzisse até a cadeia; o desejo pedia algo sem nome; e o medo lembrava que o capitão não perdoaria mais uma desobediência.
No cabaré Casa dos Prazeres, onde Rose trabalhava, os homens chegavam tarde e saíam antes do sol com a vergonha dobrada no bolso. Lá, Rose não precisava prover carícias — o que vendia eram conversas, desabafos, fantasias e um tipo de compreensão amarga que os confessionários não ofereciam. Alguns diziam que ela lia almas; outros, que aprendeu esse talento sendo machucada cedo demais.
Por isso era temida.
Uma tarde, o padre Lauro disse à esposa do intendente:
— A pior tentação não é o corpo; é a mulher que escuta. O demônio prefere a confidência à carne.
Ninguém soube ao certo se falava de teologia ou de Rose Morena.
As perseguições começaram discretas: farpas de moral envernizada, conselhos fingidos, convites para se redimir. Rose ria de todos. Mas quando se ri da ordem, a ordem afia suas armas.
O intendente decretou, sem decretar: “quem passar pela rua depois do toque morrerá para a cidade”. Não era uma lei escrita, mas um destino.
Rose continuou a caminhar.
Jarbas a seguiu por semanas, dividido entre protegê-la e capturá-la. Às vezes, inventava rondas para não deixá-la só. Noutras, fingia não vê-la, como se o desejo pudesse ser absolvido pela covardia. Mas o capitão não era homem que tolerasse ambiguidades.
Uma noite, chamou Jarbas ao quartel:
— A cidade tem regras. Mulheres que ignoram regras são perigosas. Se não agir, terei que agir eu mesmo.
Jarbas voltou para casa com o uniforme pesando como ferro molhado. Na madrugada, pensou em desertar. Em outras, em matar o capitão. A moral, percebeu, era só um campo de batalha onde ninguém ganhava.
A queda se deu numa noite de lua cheia. Rose caminhava com o vestido vermelho e os cabelos soltos. Jarbas a encontrou perto da ponte velha.
— Hoje não dá — ele disse, quase suplicando.
Rose parou. Olhou para ele com uma piedade que feria mais que o desprezo:
— Não vim buscar a rua. Vim buscar a mim.
Ele entendeu. A rua era liberdade, e liberdade era proibida às mulheres.
O capitão surgiu com dois soldados. Não houve discurso — apenas golpes, insultos, o zumbido do bastão cortando o ar. Jarbas tentou intervir, mas descobriu o limite da própria coragem.
Rose sangrou, mas não fez o som que eles esperavam. Não implorou, não negociou, não chorou. E esse silêncio fez mais barulho que a violência.
Depois desse dia, Rose Morena sumiu da cidade — e ninguém soube ao certo se foi embora, se morreu, ou se apenas cansou de ser mulher em tempos proibidos.
Anos depois, ainda havia quem a mencionasse. As esposas com medo, as filhas com curiosidade, os homens com nostalgia e culpa. E Jarbas com o remorso de quem descobriu tarde demais que defender a lei pode ser traição à própria alma.
Às vezes, nos finais de tarde, alguém jurava ter visto uma figura vermelha atravessar a Rua Direita antes do pôr do sol enfeitar o Rio Paraguai. Talvez fosse verdade. Talvez fosse delírio. Talvez fosse só a ideia de que toda cidade guarda uma mulher que tentou ser livre antes da hora — e pagou o preço.
Fosse como fosse, Cáceres jamais esqueceu o nome: Rose Morena.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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