O silêncio depois da enchente era o mais assustador.
Cáceres parecia suspensa no tempo — ruas cobertas de lama, postes caídos, janelas quebradas.
O rio dormia outra vez, mas o ar ainda tinha gosto de ferro.
As rádios falavam em tragédia natural.
Os sobreviventes, em castigo divino.
Mas na Praça Barão, onde o chão ainda fumegava, havia quem soubesse que o fim não era apenas físico.
Laura caminhava entre os escombros.
Os pés afundavam na lama espessa, e sob cada passo, sentia algo se mover — como se a terra respirasse.
Ao seu lado, o padre Augusto carregava um crucifixo quebrado, os olhos fundos e febris.
— A cidade dorme — disse ele. — Mas há algo que ainda não descansou.
Laura olhou o horizonte.
O sol nascia vermelho sobre o rio.
— A sétima virá com o dia — respondeu.
O primeiro sibilo veio do cais.
Depois, outro, e mais outro.
Em minutos, o som das víboras tomou a praça.
Elas surgiam de todos os lados — do túnel soterrado, das bocas de bueiro, dos galhos das árvores.
Eram verdes, negras, amarelas — uma dança hipnótica e silenciosa.
Mas não atacavam.
Apenas cercavam.
O padre ajoelhou-se, exausto.
— Que seja feita a vontade Dele.
Laura se aproximou, observando o chão rachar sob seus pés.
E então, do centro da praça, onde antes erguia-se o Marco do Jauru, o solo se abriu.
Um clarão branco, quente e pulsante subiu, iluminando tudo.
Dentro dele, as silhuetas das sete pragas se ergueram — formigas, abelhas, corvos, gafanhotos, vespões, jacarés e víboras — todas unidas num só corpo, feito de sombra e luz.
“Vocês construíram sobre ossos.
Fizeram da dor um alicerce.
Mas nada fica enterrado para sempre.”
A voz soava dentro da mente deles.
Laura caiu de joelhos, lágrimas e terra misturando-se em seu rosto.
— Quem fala comigo? — gritou.
“Os que foram esquecidos.
Os que o Barão silenciou.
Os que guardaram o pacto que agora se desfaz.”
O padre ergueu o crucifixo partido.
— Então é o fim.
“Não. É o recomeço.”
A luz se expandiu, cobrindo toda a praça.
Por um instante, o tempo parou.
As víboras se dissolveram no ar, e o clarão se desfez como neblina.
Quando o dia clareou, a Praça Barão estava vazia.
Nem uma cobra, nem um corpo, nem um vestígio das pragas.
Somente uma nova estátua erguida no centro — ninguém a vira ser colocada ali.
Representava uma mulher segurando um cálice, com o rosto metade humano, metade serpente.
Na base, uma inscrição:
“A terra lembra.”
Os moradores voltaram aos poucos, tentando reconstruir o que restava.
Mas havia um rumor entre os mais antigos — de que, nas madrugadas sem lua, era possível ouvir o sussurro das víboras vindo do rio.
E que, às vezes, quem se aproximava demais do cais jurava ver uma mulher de olhos verdes observando da água, em silêncio, guardando o que restou do pacto.
Seu Adão desapareceu naquela semana.
Alguns diziam que foi levado pela enchente, outros que seguiu o curso do rio até desaparecer no Pantanal.
Mas Laura sabia: ele fora o último guardião.
Na parede de seu antigo quarto, ela encontrou um bilhete úmido, escrito à mão:
“As pragas não vieram para destruir.
Vieram para lembrar.
Que o que é negado volta.
Sempre.”
E, ao longe, quando o vento soprava sobre as águas do Rio Paraguai, o murmúrio das serpentes ainda ecoava —
como uma oração antiga,
como um aviso,
como o último segredo da Praça Barão.
Continua...
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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