O salão de cabeleireiro do Romildo ficava numa avenida onde o sol da tarde insistia em bater pelo vidro, iluminando os espelhos, os frascos de spray e as conversas alheias. Era um salão modesto, mas limpo — ou, pelo menos, costumava ser.
Com o tempo, uma curiosa galeria de manchas começou a aparecer na parede atrás da fileira de cadeiras de espera. No começo, apenas sombras amareladas, marcas de braço, suor de quem passava o dia correndo atrás de trabalho, tintas mal secas, gotas de café e o pó invisível da cidade. Era como um mural do cotidiano que ninguém notava, até que o cabeleireiro Romildo começou a reparar.
— Curioso, né? — murmurou ele, enquanto borrifava água num topete rebelde — A parede não mente. Mostra quem a gente atende.
Mas o ápice dessa arqueologia urbana aconteceu numa tarde abafada de quinta-feira, quando entrou um rapaz de uniforme azul-marinho e mãos negras de graxa. Trazia também um sorriso meio tímido, meio satisfeito, daqueles que apenas um carro consertado com sucesso pode produzir.
Sentou-se para esperar a vez. E esperou. Encostou a cabeça na parede, descansou os ombros, coçou o cabelo. Ninguém percebia nada — até que ele levantou.
Romildo congelou no meio de um movimento com a tesoura, olhando para o alto como se tivesse avistado um ovni. Ali, estampada na parede branca como um quadro recém-assinado, estava a maior marca de graxa que o salão já vira. Não era apenas uma mancha: era um auto-retrato em negativo. Ombros, nuca, o formato da cabeça e até um borrão ondulado que denunciava a textura do cabelo. Poderia ter sido enviado para um museu, se algum museu do mundo colecionasse acidentes domésticos.
— Meu Deus... — soltou o cabelereiro, tentando manter a dignidade profissional — Meu amigo, você estava trabalhando em quê? Na caldeira de um vulcão?
O rapaz riu, sem entender direito o tamanho do estrago.
— Mecânica ali da avenida — disse, orgulhoso. — Suspensão. Troquei óleo de caminhão o dia todo.
Romildo respirou fundo, pegou a capa preta e fez sinal para ele sentar. Quando passou a mão no cabelo do rapaz, sentiu algo pastoso, espesso.
— Você tem graxa no cabelo.
— Ah, tenho — respondeu ele, como quem diz que o tempo está nublado. — Caiu um pouco.
“Um pouco” era uma subestimação poética. O pouco que havia caído poderia lubrificar um Fusca até o Apocalipse.
O corte levou o dobro do tempo, o triplo de toalhas e um litro inteiro de shampoo anti-resíduos. Ao final, Romildo concluiu que, embora difícil, a mecânica era mais honesta do que a barbearia: na primeira, a graxa escorria do carro; na segunda, escorria do cliente.
Depois que o rapaz pagou e saiu com o cabelo brilhando — agora por outros motivos — Romildo encarou a parede como quem encara um enigma filosófico.
Tirou um pano, spray, detergente, álcool e água quente. Esfregou até quase ouvir a tinta implorar por misericórdia. A mancha apenas desbotou, como uma lembrança que se recusa a desaparecer.
E ali ficou.
Nos dias que vieram, mais pessoas vieram cortar o cabelo, conversar sobre política, falar mal do Lula, reclamar de casamento ou pedir para “tirar só as pontinhas”. E a marca de graxa, monumental e silenciosa, continuou na parede. Alguns clientes passaram a notar.
— O que é isso aqui? — perguntou uma senhora, apontando com o dedo.
— História — respondeu Romildo, sorrindo de canto. — A parede também corta cabelo.
E ninguém contestou. Afinal, havia paredes por aí com quadros importantes, outras com diplomas, e outras até com poesias. A do Romildo tinha algo melhor: um retrato involuntário da vida como ela é — suja, engraçada e impossível de apagar completamente.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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