O livro foi encontrado sob os escombros da antiga Biblioteca Central, quando já não havia leitores — apenas arqueólogos do fracasso. Suas páginas estavam amareladas não pelo tempo, mas pelo abandono. Nenhuma assinatura, nenhuma data. Apenas um aviso escrito à mão na folha inicial: “Este texto não pretende ensinar. Pretende lembrar.”
Na época em que foi escrito, pensar ainda era permitido, mas já era malvisto. Os que pensavam falavam baixo, como quem confessa um crime. O autor desta crônica parece ter entendido cedo demais que o colapso não viria pelas armas, mas pelo aplauso.
Ele descreve um mundo onde a estupidez não precisava ser imposta — era escolhida. Onde as pessoas entregavam o esforço de compreender em troca do conforto de pertencer. O idiota, escreve ele, não era um inimigo externo, mas uma possibilidade íntima, cultivada com zelo e recompensada com visibilidade.
Segundo o texto, o momento decisivo não foi a queda das instituições, mas o riso diante delas. Quando a ignorância passou a ser celebrada como autenticidade e o desprezo pelo saber ganhou status de virtude moral. A partir daí, o pensamento se tornou suspeito, como se toda reflexão escondesse uma intenção obscura.
O autor fala de líderes que não prometiam futuro, apenas validação. Diz que eles não conduziam multidões — espelhavam-nas. E que, ao se verem refletidas, as massas chamaram aquilo de verdade. Foi assim, escreve ele, que o ruído substituiu o sentido e a repetição tomou o lugar da razão.
Há um trecho especialmente inquietante, riscado e reescrito diversas vezes, como se o próprio autor tivesse hesitado em deixá-lo existir. Nele, afirma-se que a maior vitória da estupidez foi convencer os inteligentes de que resistir era arrogância. O silêncio dos lúcidos, segundo o texto, não foi prudência — foi rendição.
Nas últimas páginas, a crônica abandona qualquer pretensão analítica e assume um tom quase litúrgico. O autor prevê um tempo em que livros não seriam queimados porque já não causariam incômodo. Estariam ali, intactos, ignorados, como relíquias de um culto extinto: o culto ao pensamento.
O colapso, diz ele, não seria lembrado como tragédia, mas como transição. Receberia nomes amenos, slogans otimistas, cores vibrantes. A ruína, afinal, precisava parecer agradável para ser aceita.
O livro termina abruptamente. Não há conclusão, apenas uma última frase, escrita com tinta mais fraca, talvez apressada:
“Quando este texto for lido sem medo, já não haverá nada a ser salvo.”
Os estudiosos discutem por que a obra foi proibida. Alguns dizem que era pessimista demais. Outros, que incitava dúvida. Mas entre os poucos que ainda sabem ler com cuidado, há um consenso silencioso:
o livro não foi censurado por mentir,
mas por ter dito cedo demais aquilo que todos preferiram esquecer.
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

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