domingo, 15 de fevereiro de 2026

Os pescadores de outro mundo

    Saímos antes do sol nascer, eu e meus dois amigos, com o carro ainda cheirando a café e gasolina. A estrada de terra até o Rio Jauru era um risco pálido cortando o verde, e o silêncio da madrugada só era quebrado pelo sacolejar das tralhas no porta-malas. Pescar sempre teve algo de ritual para nós três — uma tentativa quase infantil de suspender o mundo. 
 
    Quando chegamos, o rio estava acordando. A névoa pairava baixa sobre a água, como se o próprio Jauru respirasse devagar. Descemos em um ponto que conhecíamos bem, isolado o suficiente para não encontrar vivalma. Pelo menos era o que pensávamos. 
 
    Eles já estavam lá. 
 
    Dois homens sentados em pedras lisas, varas armadas, imóveis demais para pescadores. Não ouvi motor, não vi barco, não havia marcas de pneus além das nossas. Troquei um olhar rápido com meus amigos — aquele tipo de olhar que carrega uma pergunta muda. 
 
    — Bom dia — arrisquei. 
 
    Um deles virou o rosto. O movimento foi correto, mas havia algo… ensaiado. Como se tivesse aprendido a virar o pescoço observando alguém. O outro continuou olhando o rio, fixo, como uma estátua vestida de gente. 
 
    Responderam com um aceno quase imperceptível. Não sorriram. Não piscaram. Apenas estavam. 
 
    Montamos nosso equipamento em silêncio constrangido. O som da linha cortando o ar pareceu alto demais. Tentei ignorar a presença deles, mas havia um peso estranho no ambiente, uma sensação elétrica, como antes de uma tempestade. O rio, curiosamente, permanecia calmo. 
 
    O tempo passou sem medida. Nenhum peixe. Nenhuma conversa. Nenhum gesto vindo dos dois desconhecidos. Era como se não pescassem — apenas imitassem o ato de pescar. 
 
    Foi quando notei algo que me gelou por dentro. 
 
    As linhas deles não tocavam a água. 
 
    Pairavam alguns centímetros acima da superfície, retas, desafiando a gravidade com uma naturalidade impossível. Pisquei várias vezes, achando que era truque de luz, cansaço, qualquer coisa que minha mente pudesse aceitar. Chamei meus amigos com um sussurro seco. 
 
    Eles viram. 
 
    E quando viram, o mundo pareceu encolher. 
 
    Um dos homens levantou-se. Não apoiou as mãos, não fez força. Apenas… ergueu-se. O corpo tinha proporções humanas, mas os movimentos eram limpos demais, contínuos demais. Sem o ruído orgânico das articulações. Virou-se para nós. 
 
    Os olhos eram o pior. 
 
    Não eram frios nem ameaçadores. Eram vazios de um jeito que não pertence a nada vivo. Como janelas abertas para lugar nenhum. Senti um medo antigo, primitivo, aquele que não nasce do perigo, mas da impossibilidade. 
 
    O outro também se levantou. 
 
    Nenhuma palavra foi dita. Nenhum som. Ainda assim, algo vibrava em minha cabeça, como uma pressão invisível. Uma impressão que não era pensamento, mas também não era sensação. 
 
    Então aconteceu. 
 
    Sem passos, sem corrida, sem gesto dramático, eles simplesmente deixaram de estar ali. Como reflexos apagados de um espelho. O espaço onde estavam ficou absurdamente comum — pedras, névoa, rio. Nada mais. 
 
    Corremos até o local. 
 
    Nada. 
 
    Nenhuma pegada. Nenhum objeto. Nenhum sinal de existência. 
 
    Ficamos ali, os três, ofegantes, olhando um para o outro com a mesma expressão perdida. O Rio Jauru seguia seu curso, indiferente, como se guardasse em suas águas um segredo que não nos pertencia. 
 
    Nunca mais pescamos naquele ponto. 
 
    E até hoje, quando lembro daquele amanhecer, não me pergunto o que eram. 
 
    Pergunto apenas por que escolheram parecer conosco. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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