segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Sentimentos que não passam

    Tem sentimentos que não passam, apenas mudam de lugar dentro de nós. O que sinto por você já não precisa da sua presença para existir. Vive em mim como uma lembrança que aprendeu a respirar sozinha, como uma saudade que não pede licença para chegar e, quando chega, encontra sempre um espaço reservado no coração. 
 
    Carrego de você mais do que lembranças. Carrego o jeito como você me fez sentir, as palavras que ficaram ecoando, os silêncios que disseram tanto e aqueles pequenos momentos que, embora tenham durado tão pouco, parecem ter encontrado morada definitiva em minha memória. Creio que seja isso que torna certos sentimentos tão difíceis de explicar: eles não pertencem mais ao tempo em que aconteceram. Pertencem a nós. 
 
    Você passou pela minha vida, mas alguma coisa de você ficou. Ficou no modo como algumas músicas me fazem lembrar, em certas tardes que parecem ter o seu nome, em pensamentos que surgem sem serem convidados. Ficou naquela parte de mim onde o coração guarda aquilo que a razão não consegue apagar. 
 
    E eu sigo. Sigo levando comigo esse sentimento, não como quem espera necessariamente um retorno, mas como quem reconhece que algumas pessoas deixam marcas que o tempo não consegue remover. Há presenças que continuam mesmo depois da ausência. Pode ser que você nunca saiba o tamanho do lugar que ocupa em mim. Talvez nem precise saber. 
 
    Basta-me reconhecer, em silêncio, que entre tantas coisas que a vida levou, existe algo que ela não conseguiu tirar: o sentimento que ficou de você em mim. E é justamente isso o mais bonito e também o mais doloroso: você não está aqui, mas ainda existe um pouco de você em tudo aquilo que sinto. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sobre o que escrevo

    1. Escrevo porque há paisagens dentro de mim que não cabem no silêncio. Cada palavra é uma janela aberta para a alma. 
 
    2. O que escrevo não é apenas texto; é a sombra dos meus sonhos caminhando sobre o papel. 
 
    3. Há segredos que a voz não consegue dizer, mas a escrita revela com a delicadeza de uma chuva sobre a terra seca. 
 
    4. Minhas páginas são espelhos imperfeitos: nelas vejo não quem sou, mas quem estou me tornando. 
 
    5. A alma escreve antes das mãos. A caneta apenas acompanha o caminho. 
 
    6. Cada história que nasce de mim carrega um fragmento das minhas alegrias, dos meus medos e das minhas esperanças. 
 
    7. Escrever é transformar o invisível em presença, a memória em permanência e o sentimento em palavra. 
 
    8. O que escrevo não descreve apenas personagens; descreve as muitas vidas que habitam meu coração. 
 
    9. Entre uma frase e outra, deixo rastros de mim mesmo para que o tempo não apague quem fui. 
 
    10. A escrita é o idioma secreto da alma. Quem lê com atenção encontra, entre as linhas, o autor que nunca se revela por inteiro. 
 
    11. Meus textos são pássaros feitos de lembranças; voam para longe, mas sempre carregam algo de mim em suas asas. 
 
    12. Quando escrevo, não procuro apenas contar histórias. Procuro compreender a geografia misteriosa da minha própria existência. 
 
    13. Cada palavra escolhida é uma pedra colocada na ponte que liga meu mundo interior ao coração dos outros. 
 
    14. Escrever é permitir que a alma deixe sua assinatura sobre a passagem do tempo. 
 
    15. Quem sabe eu nunca consiga explicar quem sou. Por isso escrevo: para que minhas páginas digam aquilo que minha voz desconhece. 
 
Aforismos: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quando meu pensamento caminha até você

    Se o meu pensamento caminha até onde você está, eu não o detenho; deixo que atravesse rios, cidades, campos, o rumor das árvores e o infinito das manhãs. Que ele seja livre como o vento que não pergunta o nome das montanhas, pois todo caminho percorrido pelo afeto amplia também a extensão da alma, e nenhuma distância consegue medir o horizonte de um coração desperto. 
 
    Eu celebro esse invisível viajante que parte de mim sem abandonar-me, que toca sua lembrança e regressa carregando o perfume das horas, como se cada encontro silencioso acrescentasse uma nova estrela ao céu interior. Descubro, então, que amar não é diminuir-se, mas expandir-se, até reconhecer no outro uma continuação do próprio universo. 
 
    Quem poderá separar o pensamento do coração, se ambos bebem da mesma nascente e respiram o mesmo mistério? Quando penso em você, caminho também em direção ao que sou, porque toda afeição verdadeira revela uma parte escondida da existência, e o mundo se torna maior cada vez que um ser humano alcança outro pelo invisível. 
 
    Dessa forma, aceito a vastidão dos dias e a passagem das estações; aceito que alguns encontros aconteçam apenas na geografia da memória, pois nem toda presença exige a proximidade dos corpos para permanecer viva. Há abraços que o espírito conhece antes das mãos, e há silêncios que unem mais profundamente do que muitas palavras. 
 
    Se, afinal, meu pensamento repousa onde você está, que meu coração não reclame o caminho percorrido. Que ele aprenda com os rios, que seguem adiante sem perder a própria fonte; com o céu, que acolhe todas as aves sem aprisionar nenhuma; e comigo, que continuo inteiro justamente porque aprendi a compartilhar o infinito. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 19 de setembro de 2026

O horizonte infinito

    Eu caminho pela terra como quem atravessa um templo sem paredes. Recebo o vento como um antigo companheiro, o sol como um mestre silencioso, a chuva como uma bênção que não escolhe a quem tocar. Não vejo mais você, mas não permito que a ausência diminua a grandeza do mundo. Há continentes de esperança esperando os passos de quem não desiste. Há manhãs que ainda desconhecem o meu nome e, mesmo assim, me aguardam. 
 
    Eu saúdo os rios que nunca recusam seu destino, as árvores que suportam os invernos sem abandonar suas raízes, os pássaros que rasgam o céu sem perguntar onde termina o horizonte. Neles encontro uma antiga lição: viver é seguir adiante. Também sou parte dessa marcha. Também sou uma voz entre milhares de vozes que atravessam os séculos. Também pertenço ao imenso coro da existência. 
 
    Não lamento o amor que não permaneceu ao meu lado. Eu o recolho como quem recolhe uma estrela caída sobre a memória. Nada do que foi verdadeiro desaparece completamente. Transforma-se em seiva, em luz, em silêncio, em coragem para a próxima jornada. O coração amadurece quando compreende que possuir nunca foi a finalidade do amor. 
 
    Eu abraço os desconhecidos que cruzam meu caminho, os trabalhadores que despertam antes do amanhecer, as crianças que inventam futuros, os velhos que carregam bibliotecas invisíveis no olhar. Em cada rosto reconheço uma batalha, uma esperança, um universo inteiro. Nenhum ser humano caminha sozinho quando aprende a enxergar a humanidade no outro. Somos poeira das mesmas estradas e viajantes do mesmo mistério. Somos muitos, e ainda assim compartilhamos o mesmo céu. 
 
    E quando meus passos finalmente se confundirem com a poeira dos caminhos, que não se diga que fui vencido pela ausência. Que se diga apenas que caminhei de peito aberto diante do tempo, que celebrei a beleza mesmo entre as perdas, que acolhi a dor sem transformá-la em prisão. Porque a vida não pertence aos que jamais caem, mas aos que continuam avançando. E enquanto houver um único horizonte diante de mim, seguirei cantando a terra, os homens, o amor e o infinito. Esse será o meu testemunho diante da eternidade. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O escritor e a leitora

    Há noites que terminam quando o sol nasce e há outras que permanecem dentro da gente por muitos anos, como se a madrugada tivesse recusado o amanhecer. A noite em que conheci aquela jovem pertence à segunda espécie. Eu tinha cinquenta anos, idade em que um homem começa a perceber que já viveu histórias suficientes para preencher alguns livros, mas ainda conserva dentro de si uma quantidade inquietante de perguntas. Era escritor havia décadas, embora ainda carregasse a sensação de estar começando. Acredito que todo escritor verdadeiro tenha essa impressão: cada livro publicado encerra uma história, mas abre dez outras portas. Naquela noite, eu caminhava sem destino muito definido pelas ruas antigas da cidade, depois de passar algumas horas escrevendo em um pequeno caderno que costumava levar comigo. Gostava de caminhar depois de escrever. Dizia a mim mesmo que era uma maneira de deixar as palavras descansarem enquanto eu procurava outras. 
 
    A praça estava quase vazia, iluminada por alguns postes cuja luz amarelada fazia as sombras das árvores parecerem personagens de uma história antiga. Sentei-me em um banco e fiquei observando o movimento distante das pessoas, os ruídos ocasionais dos automóveis e a presença silenciosa do rio, que naquela hora parecia carregar consigo não apenas água, mas também memórias. Foi então que percebi a jovem sentada alguns metros adiante, segurando um livro aberto sobre os joelhos. Ela lia com uma atenção tão absoluta que parecia ter esquecido o lugar onde estava. De vez em quando levantava os olhos, contemplava a praça e voltava às páginas. Havia alguma coisa naquela cena que me chamou atenção. Talvez porque eu sempre tivesse acreditado que um leitor, quando lê verdadeiramente, desaparece por alguns instantes do mundo para viver em outro. E aquela jovem havia desaparecido. Quando finalmente fechou o livro, percebeu que eu a observava e sorriu discretamente. Não foi um sorriso de intimidade, mas de reconhecimento, como se já nos conhecêssemos de algum lugar que nenhum dos dois conseguia recordar. Ela perguntou se eu era escritor. A pergunta me surpreendeu. Respondi que sim, embora imediatamente tenha acrescentado que talvez fosse mais correto dizer que eu tentava ser escritor todos os dias. Ela riu e disse que havia lido algumas coisas minhas. Perguntei quais. Ela mencionou personagens, histórias e lugares que eu mesmo quase havia esquecido. Naquele instante compreendi uma coisa estranha: às vezes escrevemos para guardar nossas lembranças, mas são os leitores que acabam guardando aquilo que nós mesmos abandonamos pelo caminho. 
 
    A conversa daquela noite deveria ter terminado ali. Uma apresentação, algumas palavras sobre livros, uma despedida e cada um seguiria seu caminho. Mas certas histórias começam justamente quando tudo parece estar terminando. A jovem perguntou por que eu estava sozinho na praça tão tarde. Respondi que procurava uma história. Ela fechou o livro e disse que histórias não costumam ser encontradas quando procuradas; geralmente aparecem quando menos esperamos. Achei a observação pretensiosa para alguém tão jovem, mas gostei dela. Perguntei onde havia aprendido aquilo. Ela respondeu que tinha aprendido nos livros. Comecei a rir e perguntei se ela acreditava mesmo que os livros ensinavam tudo. Ela ficou alguns segundos em silêncio antes de responder: “Não. Mas ensinam a fazer perguntas melhores.” Aquela frase ficou comigo. Talvez porque eu tivesse passado cinquenta anos tentando encontrar respostas quando, na verdade, a literatura sempre havia me conduzido na direção contrária. 
 
    Perguntei seu nome. Ela disse apenas que preferia que eu o descobrisse mais tarde, pois alguns nomes, segundo ela, deveriam aparecer somente quando a história estivesse preparada para recebê-los. Pensei que estava diante de uma leitora excessivamente imaginativa. Hoje, olhando para trás, percebo que eu estava diante de alguém que compreendia a literatura de uma maneira que eu havia esquecido. Levantamo-nos do banco e começamos a caminhar pela praça. Não havia qualquer plano. Ela queria conhecer o escritor que havia encontrado por acaso; eu queria compreender por que aquela desconhecida parecia conhecer tanto das minhas histórias. Caminhamos até a parte mais antiga da praça, onde algumas construções preservavam sinais de outras épocas. Ela apontava detalhes que eu nunca havia percebido: uma janela fechada havia décadas, uma inscrição quase apagada em uma parede, uma árvore cuja forma parecia acompanhar a arquitetura de uma casa abandonada. Em determinado momento, parou diante de uma antiga construção e perguntou se eu conhecia a história daquele lugar. Respondi que não. Ela sorriu. “Então nossa primeira aventura começa aqui.” Eu deveria ter percebido naquele instante que aquela noite não seria como as outras. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 13 de setembro de 2026

Pensamentos para você

    Você me faz sonhar sempre. Sua presença habita meus pensamentos com a delicadeza de uma canção que nunca termina, e já não consigo imaginar minha vida sem você. 
 
    Há pessoas que passam por nós como o vento, mas você chegou como quem encontra morada. Desde então, meus dias carregam o seu nome escondido entre os detalhes mais simples, e até o silêncio parece falar de você. 
 
    Às vezes penso que o destino gosta de testar aquilo que consideramos precioso. E confesso que, se por qualquer motivo você tivesse que se ausentar, se a vida nos separasse por uma dessas armadilhas inesperadas do tempo, muitas coisas perderiam a cor e o significado. 
 
    Não porque eu deixaria de existir, mas porque você se tornou parte daquilo que dá sentido aos meus caminhos. Sua ausência seria como um céu sem estrelas, um livro sem palavras, uma estrada sem horizonte. 
 
    Por isso, enquanto o tempo nos permite caminhar lado a lado, quero guardar cada sorriso, cada conversa e cada instante. Porque amar alguém é também compreender que a felicidade mora na simples bênção de sua presença. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Cáceres em 1865 - Uma crônica de Vila Maria do Paraguai em tempos de guerra

     Em 1865, Vila Maria do Paraguai ainda era uma pequena povoação às margens do grande rio que lhe emprestava o nome, uma dessas localidades onde a vida parecia obedecer ao ritmo lento das águas, ao nascer e ao morrer do sol, ao movimento das embarcações e às conversas demoradas daqueles que tinham aprendido a medir o tempo não pelos relógios, mas pelos acontecimentos. As casas, as ruas, o comércio, os quintais e as pessoas compunham uma paisagem aparentemente distante das grandes decisões tomadas nos palácios, nos quartéis e nas capitais. Entretanto, naquele ano, uma guerra que parecia pertencer a um mundo distante começou a se aproximar da pequena vila. A Guerra do Paraguai havia transformado as fronteiras, os rios e os caminhos em lugares de inquietação. O que antes era apenas uma notícia que chegava com algum viajante agora adquiria o peso de uma ameaça. Corumbá havia sido ocupada pelas forças paraguaias, e a notícia descia e subia pelos caminhos como uma espécie de sombra. Em Vila Maria, talvez muitos ainda tentassem acreditar que a guerra não chegaria até ali, mas bastava olhar para o rio Paraguai para compreender que a distância entre a tranquilidade e o perigo podia ser menor do que se imaginava. 
 
    Naqueles dias, o rio havia adquirido outro significado. Antes da guerra, suas águas eram caminhos abertos para o comércio, trazendo mercadorias, viajantes e notícias de lugares que pareciam muito distantes. O rio era estrada e esperança. Mas agora havia quem o observasse com desconfiança. Cada embarcação que surgia no horizonte despertava curiosidade e, talvez, apreensão. Os homens paravam por alguns instantes o trabalho para observar as águas; os comerciantes perguntavam aos viajantes o que acontecia mais ao sul; os soldados procuravam informações sobre os movimentos das tropas; e as famílias ouviam as conversas dos adultos tentando compreender uma situação que, para elas, devia parecer incompreensível. Não existiam jornais chegando diariamente, não havia rádio para interromper a rotina com um boletim extraordinário, muito menos qualquer tecnologia capaz de transmitir instantaneamente uma notícia. A informação viajava lentamente, mas o medo não. Uma frase dita por um viajante podia atravessar uma rua em poucos minutos e, antes do anoitecer, transformar-se em uma história completamente diferente. “Os paraguaios estão avançando.” “Corumbá caiu.” “Podem subir o rio.” “Talvez cheguem até Vila Maria.” Em tempos de guerra, a verdade costuma viajar acompanhada do rumor, e ninguém consegue dizer exatamente onde termina uma e começa o outro. 
 
    Caminhando pelas ruas de Vila Maria naquele ano, seria possível perceber que a guerra estava presente mesmo onde não havia batalha. Ela estava na mudança das conversas, no movimento dos soldados, nas ordens que circulavam entre as autoridades, na preocupação dos comerciantes e na maneira como as pessoas passaram a observar os viajantes. A pequena vila fazia parte da estrutura de defesa da Província de Mato Grosso, e sua posição às margens do rio Paraguai lhe conferia uma importância que talvez seus moradores percebessem apenas parcialmente. A guerra ensinava, de maneira dolorosa, que a geografia também pode ser destino. Estar perto do rio significava estar perto das oportunidades do comércio, mas também significava estar diante de uma das principais vias de circulação utilizadas no conflito. Por isso, enquanto alguns tentavam manter suas atividades normais, outros se preparavam para aquilo que ninguém queria admitir: a possibilidade de que a guerra pudesse chegar à porta de suas casas. Havia homens encarregados da vigilância, movimentação militar e preocupação com a defesa da localidade. Talvez uma ordem fosse entregue de casa em casa; talvez um soldado fosse visto atravessando rapidamente uma rua; talvez um grupo de homens discutisse sobre a melhor maneira de impedir a passagem de uma embarcação. E, por trás de cada medida de segurança, havia uma pergunta silenciosa: seria suficiente? 
 
    Mas a guerra não chegava apenas através dos soldados. Ela também vinha acompanhada das doenças. A varíola constituía uma ameaça terrível, e a circulação de pessoas em tempos de conflito podia transformar estradas e rios em caminhos por onde não viajavam apenas notícias, mercadorias e tropas, mas também enfermidades. Em uma época sem os recursos médicos de hoje, uma epidemia podia ser tão assustadora quanto um exército. Assim, proteger Vila Maria significava também controlar a circulação de pessoas e impedir que a doença alcançasse a população. Imagine, por um instante, um homem chegando à região depois de uma longa viagem, sendo recebido não apenas com perguntas sobre a guerra, mas também com perguntas sobre sua saúde. De onde vinha? Por onde havia passado? Havia doentes no caminho? Quem o acompanhava? Naquela realidade, uma pessoa aparentemente saudável podia carregar consigo um perigo invisível. A fronteira precisava ser protegida dos homens e das doenças, das armas e dos micróbios, do inimigo que podia ser visto e daquele que não podia. 
 
    E havia ainda o comércio, tão importante para uma vila que dependia das águas do Paraguai. Antes, o movimento das embarcações significava prosperidade, circulação e esperança de dias melhores. Agora, a guerra alterava tudo. As mercadorias podiam atrasar, os caminhos podiam ser interrompidos, as pessoas podiam deixar de viajar e os comerciantes precisavam conviver com uma incerteza que não estava nas contas de seus livros. Talvez algum comerciante tivesse passado parte daquela manhã olhando para o rio e pensando nos produtos que não chegariam. Talvez tivesse feito contas silenciosas sobre quanto tempo conseguiria manter seu negócio funcionando. Talvez tivesse recebido um viajante trazendo uma notícia ruim e percebido, pela primeira vez, que uma guerra travada muito longe poderia atingir diretamente sua mesa, sua família e seu sustento. A história dos grandes conflitos costuma ser contada através de batalhas, generais e tratados, mas existe uma outra história, menos visível, feita de lojas vazias, alimentos mais difíceis de encontrar, viagens adiadas, famílias separadas e pessoas que simplesmente tentavam continuar vivendo enquanto o mundo ao redor se tornava imprevisível. 
 
    Ao cair da tarde, quando o calor diminuía e as sombras começavam a se alongar pelas ruas de Vila Maria, talvez as conversas se tornassem ainda mais intensas. Era nesse momento que os moradores poderiam se reunir, trocar informações e tentar reconstruir, através de relatos fragmentados, aquilo que estava acontecendo. Um viajante contava o que havia visto; outro acrescentava alguma coisa; alguém dizia ter recebido uma carta; outro jurava ter ouvido de um soldado que as tropas paraguaias estavam mais próximas do que todos imaginavam. E assim nascia uma geografia imaginária do medo. Corumbá parecia mais próxima. O rio parecia mais estreito. O inimigo parecia mais forte. A noite parecia mais silenciosa. Talvez uma criança escutasse escondida atrás de uma porta as conversas dos adultos e perguntasse à mãe por que todos falavam tanto dos paraguaios. Talvez ela não entendesse o significado de uma guerra, mas percebesse que havia alguma coisa diferente no comportamento dos adultos. As crianças muitas vezes não compreendem os acontecimentos, mas compreendem perfeitamente o medo dos adultos. 
 
    Quando a noite finalmente chegava, Vila Maria devia recuperar parte de sua tranquilidade, mas não aquela tranquilidade inocente dos tempos anteriores à guerra. Havia agora uma espécie de silêncio atento. As pessoas poderiam fechar suas portas um pouco mais cedo. Os homens encarregados da defesa permaneceriam vigilantes. As famílias poderiam conversar em voz baixa sobre a possibilidade de partir caso a situação piorasse. E, diante da ausência de informações, a imaginação ocupava o espaço deixado pela notícia. Talvez alguém olhasse para o rio antes de dormir, procurando no escuro qualquer sinal de movimento. Talvez uma mãe perguntasse ao marido se realmente havia perigo. Talvez ele respondesse que não, mesmo sem ter certeza, porque algumas vezes o papel de quem protege uma família consiste justamente em esconder o próprio medo. “Não vão chegar até aqui”, poderia dizer. E talvez ele mesmo precisasse acreditar naquelas palavras para conseguir dormir. 
 
    Existe algo profundamente humano nessa imagem de uma pequena comunidade vivendo à espera de uma guerra que talvez nunca chegasse diretamente. Porque a guerra não precisa destruir uma casa para entrar nela. Às vezes basta mudar a maneira como as pessoas olham para a rua. Basta transformar o barulho de uma embarcação em motivo de preocupação, uma carta em acontecimento, um viajante em fonte de informação e o rio em uma possível ameaça. Vila Maria viveu essa tensão em 1865. Não foi palco de uma das grandes batalhas da Guerra do Paraguai, mas estava inserida na região estratégica atingida pelo conflito e fazia parte da estrutura de defesa da província. A guerra estava presente na administração, na circulação militar, nas preocupações sanitárias, na interrupção das atividades econômicas e, principalmente, na consciência de que o território mato-grossense havia se tornado uma das fronteiras de um conflito de enormes proporções. 
 
    E é justamente por isso que a história de Cáceres durante a Guerra do Paraguai merece ser lembrada. Porque quando pensamos em uma guerra, geralmente imaginamos campos de batalha, canhões, soldados e mortes. Mas existe uma guerra que acontece antes da batalha, dentro das casas e das consciências. É a guerra do medo, da espera e da incerteza. Em 1865, os moradores de Vila Maria viveram essa guerra silenciosa. Enquanto em outros lugares soldados marchavam e armas disparavam, ali havia homens olhando o rio, mulheres protegendo suas famílias, comerciantes esperando mercadorias, autoridades preparando a defesa e viajantes trazendo notícias. A grande História havia chegado à pequena vila sem pedir licença. Não havia monumentos para anunciar sua chegada. Não havia música de guerra. Havia apenas uma notícia atravessando a rua e fazendo todos compreenderem que o mundo havia mudado. 
 
    O rio Paraguai, entretanto, continuava correndo. Essa talvez seja a imagem mais bonita e mais triste de todas. Enquanto os homens lutavam por territórios, enquanto governos tomavam decisões e enquanto soldados atravessavam caminhos distantes, as águas continuavam seguindo seu curso diante de Vila Maria. O rio não sabia que carregava a História. Não sabia que suas margens seriam testemunhas de medo, esperança, comércio, abandono e resistência. Para ele, aquele era apenas mais um dia. Para os homens, não. Talvez alguém tenha ficado parado diante das águas naquela tarde de 1865 e pensado no futuro. Talvez tenha imaginado que, depois da guerra, tudo voltaria ao normal. Talvez tenha pensado nos filhos, na casa, na pequena vila e na vida que desejava preservar. Não sabemos quem foi essa pessoa. A documentação registra fatos, ordens, relatórios e acontecimentos, mas raramente registra o pensamento silencioso de um homem diante de um rio. E é justamente nesse silêncio que a memória encontra espaço para imaginar. 
 
    A guerra finalmente se afastaria. As tropas paraguaias seriam expulsas de Mato Grosso, a navegação voltaria a desempenhar papel importante e Vila Maria continuaria sua trajetória histórica. Poucos anos depois, a pequena povoação seria elevada à categoria de cidade e ganharia novas dimensões econômicas e urbanas. O tempo trataria de cobrir muitas das marcas daquele período, novas gerações nasceriam, novas casas seriam construídas, outras histórias seriam contadas e o medo de 1865 se transformaria em memória. Mas o rio permaneceria. E talvez seja por isso que caminhar hoje por Cáceres seja também caminhar sobre muitas camadas do passado. Debaixo das ruas existem histórias que não podemos mais ouvir diretamente; atrás das fachadas existem lembranças de pessoas que já desapareceram; e nas águas do Paraguai permanece a mesma corrente que um dia foi observada com esperança e, em 1865, também com temor. 
 
    Hoje, quando alguém contempla o rio em Cáceres, talvez veja apenas a beleza da paisagem. Mas é possível olhar um pouco mais demoradamente e imaginar Vila Maria naquele ano distante. Imaginar os homens reunidos numa esquina, discutindo as últimas notícias; o comerciante preocupado com a chegada das mercadorias; o soldado atento ao movimento das águas; a mãe tentando tranquilizar os filhos; o viajante chegando com novidades; a autoridade recebendo uma ordem; a população esperando saber se a guerra realmente viria. E então compreender que a história de uma cidade não é feita somente dos acontecimentos que efetivamente aconteceram dentro de seus limites. Ela também é feita daquilo que seus habitantes temeram, esperaram, ouviram e imaginaram. Em 1865, talvez a pergunta mais angustiante de Vila Maria não estivesse escrita em nenhum documento, mas certamente estava presente na consciência de muitos de seus moradores: “Será que a guerra chegará até aqui?” 
 
    Ela chegou. Não como uma grande batalha nas ruas da vila, mas como notícia, medo, vigilância, doença, interrupção do comércio e incerteza. Chegou através do rio e dos caminhos, através das palavras dos viajantes e das ordens dos militares. Chegou lembrando aos moradores que nenhuma cidade de fronteira está completamente distante da História. E quando finalmente passou, deixou atrás de si uma cidade diferente, mais consciente de sua posição, de sua importância e de sua vulnerabilidade. Vila Maria continuou vivendo, crescendo e se transformando até tornar-se a Cáceres que conhecemos. Mas, se pudéssemos voltar àquela manhã de 1865 e caminhar lentamente por suas ruas, talvez percebêssemos que, por trás da aparente normalidade, havia uma cidade inteira escutando o rio. E o rio, como sempre, continuava contando sua história. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 6 de setembro de 2026

Se existe redenção para quem ama

    Nas inquietas e incertas noites de angústia, há um silêncio que não é vazio, é povoado por lembranças que respiram no escuro. Cada pensamento é um passo em falso sobre o passado, e nele tropeço sempre no mesmo instante: o momento em que deixei você partir. 
 
    Carrego a culpa como quem segura água nas mãos, quanto mais tento conter, mais ela escapa pelos dedos, mas ainda assim permanece, fria, insistente. Pergunto-me se foi covardia, distração ou apenas o destino disfarçado de escolha. E essa dúvida, essa névoa, é o que mais fere. 
 
    As horas da noite se alongam como sombras que não querem morrer. E nelas, você reaparece, não como presença, mas como ausência viva. Um eco do que poderia ter sido, um gesto não feito, uma palavra que ficou presa na garganta do tempo. 
 
    Há noites em que penso que amar também é falhar, não por falta de sentimento, mas por não saber sustentá-lo quando ele mais precisa de coragem. E então me vejo ali, parado, enquanto você se afastava, levando consigo não apenas o que éramos, mas tudo aquilo que eu ainda poderia ter sido ao seu lado. 
 
    Se existe redenção para quem ama tarde demais, ela talvez não esteja no esquecimento, mas na permanência dessa dor que ensina. Porque, no fundo, essas noites inquietas não são apenas castigo, são também memória viva de que um dia houve algo tão intenso que ainda arde, mesmo depois de ter se ido. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Uma canção escondida

    Há uma música que nasce no vazio dos quartos silenciosos, onde a ausência aprende a respirar. 
 
    Ela não possui refrão alegre, nem promessas de retorno. É feita de ecos: passos que não vieram, cartas nunca escritas, abraços interrompidos antes mesmo de existirem. 
 
    A solidão, às vezes, não é falta de pessoas, mas excesso de distâncias. Distâncias entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer. Entre o coração que espera e o mundo que passa depressa demais para perceber sua espera. 
 
    Existe uma canção escondida dentro da solidão porque toda alma guarda afetos inacabados. Mãos que nunca se tocaram ainda carregam o peso delicado do possível. Nomes nunca pronunciados com ternura continuam vivendo em silêncio, como estrelas invisíveis durante o dia. 
 
    Pode ser por isso que a tristeza tenha um som tão humano. Ela canta aquilo que não aconteceu, mas poderia ter transformado uma vida inteira. E há uma beleza melancólica nisso: perceber que até os sentimentos não vividos deixam cicatrizes suaves na memória. 
 
    No fundo, a solidão é também uma forma de lembrança. Não daquilo que tivemos, mas daquilo que o coração sonhou antes que o tempo fechasse as portas. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A Consolação da Poesia

    Tem dias em que a alma se torna um deserto. As palavras dos homens já não alcançam, os conselhos parecem distantes e o silêncio pesa mais do que qualquer ruído. É justamente nesses momentos que a poesia se aproxima. Não faz perguntas, não exige respostas e não impõe caminhos. Apenas senta-se ao lado da dor, como um velho amigo que compreende que algumas lágrimas precisam apenas de companhia. 
 
    A poesia não elimina o sofrimento, mas o torna suportável. Ela transforma a angústia em versos, a saudade em memória e a esperança em horizonte. Onde o coração encontra apenas escuridão, um poema acende uma pequena luz, suficiente para mostrar que ainda existe um caminho adiante. 
 
    Escrever é uma forma de conversar consigo mesmo. Cada verso revela sentimentos que muitas vezes permaneciam escondidos até do próprio autor. A caneta torna-se um remédio silencioso, e o papel, um refúgio onde as inquietações encontram abrigo sem serem julgadas. 
 
    Ler poesia também é descobrir que ninguém sofre sozinho. Em algum lugar, alguém já experimentou a mesma perda, a mesma dúvida, o mesmo vazio, e conseguiu transformar tudo isso em beleza. Os poemas nos recordam que a dor é humana, mas também é humana a capacidade de transcendê-la. 
 
    A poesia não cura todas as feridas, mas impede que elas definam quem somos. Ela preserva aquilo que o sofrimento tenta destruir: a sensibilidade. Enquanto houver um verso habitando o coração, haverá espaço para a esperança. 
 
    É por isso que tantos recorrem aos poemas nos dias difíceis. A poesia não promete respostas definitivas, mas oferece algo igualmente precioso: um lugar seguro para repousar a alma cansada. Ela acolhe sem condenar, escuta sem interromper e consola sem fazer promessas impossíveis. 
 
    Há um mistério em cada poema verdadeiro. As palavras são pequenas, mas carregam um universo inteiro de sentimentos. Um único verso pode devolver coragem a quem pensava em desistir, serenidade a quem se encontrava inquieto e esperança a quem acreditava que todas as portas estavam fechadas. 
 
    A poesia é uma espécie de oração escrita pela sensibilidade humana. Mesmo quando não menciona Deus, ela frequentemente conduz o coração para o transcendente, lembrando que existe uma beleza que resiste ao sofrimento e uma esperança que sobrevive às tempestades. 
 
    Quando tudo passa, os poemas permanecem. Eles guardam nossas alegrias, nossas perdas, nossos amores e nossos reencontros. São testemunhas silenciosas daquilo que fomos e sementes daquilo que ainda podemos ser. 
 
    A poesia não muda o mundo imediatamente. Antes disso, ela muda o coração de quem a lê. E um coração consolado sempre encontra forças para recomeçar. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 23 de agosto de 2026

O milagre da poesia

    Quando eu ainda não conhecia todas as palavras, descobri que o silêncio também falava. Mas houve dias em que nem ele bastava. Havia sentimentos grandes demais para caber no peito, dores que recusavam qualquer explicação e alegrias que transbordavam sem encontrar um nome. Foi então que conheci a poesia. 
 
    Ela chegou sem fazer barulho, como quem compreende aquilo que ninguém consegue dizer. Ensinou-me que nem toda verdade precisa ser exata e que, às vezes, um verso alcança lugares onde a razão jamais pisaria. A poesia tornou-se a voz das minhas inquietações e o abrigo dos meus silêncios. 
 
    Hoje compreendo que não foi o domínio das palavras que me fez poeta. Foi justamente a falta delas. Porque, quando o vocabulário terminou, a sensibilidade começou. E, quando o silêncio já não era suficiente, os versos nasceram para traduzir o invisível, transformar lágrimas em metáforas e eternizar instantes que o tempo insistia em levar. 
 
    A poesia não respondeu a todas as minhas perguntas, mas deu beleza às minhas dúvidas. Não apagou minhas saudades, mas fez delas companhia. Não mudou o mundo, mas mudou a maneira como aprendi a contemplá-lo. 
 
    Acredito que seja esse o verdadeiro milagre da poesia: nascer exatamente no espaço onde as palavras faltam e o silêncio já não consegue suportar o peso do coração. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Você prometeu voltar

    Você prometeu voltar para ficar junto de mim. Eu acreditei na promessa como quem acredita no nascer do sol: sem medo, sem dúvidas, apenas esperando o tempo cumprir o seu papel. Mas o tempo passou... e onde está você? 
 
    As estações mudaram, os dias perderam a pressa, e a porta que tantas vezes imaginei se abrindo permaneceu em silêncio. Restaram apenas as lembranças, que insistem em caminhar ao meu lado como sombras de um sonho que se recusam a desaparecer. 
 
    Penso que as promessas sejam frágeis quando o coração muda de direção. Ou talvez a vida tenha escrito um destino diferente daquele que imaginamos. Ainda assim, há perguntas que o vento leva, mas nunca responde: Onde está você? Ainda se lembra de nós? Ainda existe um pedaço de mim em suas lembranças? 
 
    Hoje compreendo que nem toda espera encontra um reencontro. Algumas existem apenas para nos ensinar que o amor pode permanecer, mesmo quando a presença se vai. E, embora você não tenha voltado, a esperança que um dia me fez esperar transformou-se em saudade, uma saudade serena, que já não prende meus passos, mas que ainda sussurra, em alguns instantes de silêncio: "Você prometeu voltar... e eu nunca deixei de acreditar." 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 16 de agosto de 2026

Nenhuma noite é eterna

    Existe uma terra de trevas que antecede toda aurora. Não porque a escuridão seja boa, mas porque ela revela as feridas que a luz ainda não alcançou. 
 
    Os chacinados pelos anjos caídos da modernidade não jazem apenas nos campos de batalha. Caminham pelas ruas, habitam escritórios, escolas e casas. São os esquecidos, os reduzidos a números, os que tiveram seus sonhos esmagados pelas engrenagens da pressa e da indiferença. 
 
    Os anjos caídos da modernidade não possuem asas negras nem espadas de fogo. Vestem-se de consumo sem limites, de vaidade transformada em virtude, de tecnologia sem sabedoria e de progresso sem compaixão. 
 
    Mas nenhuma noite é eterna. A terra das trevas é necessária ao amanhecer porque nela germinam as sementes da consciência. É no solo escuro da dor que muitos descobrem o valor da solidariedade, da memória e da esperança. 
 
    Os que foram feridos pela noite tornam-se, por vezes, os primeiros a reconhecer a chegada da manhã. Seus olhos aprendem a distinguir a mais tênue centelha de luz. 
 
    O verdadeiro amanhecer não é a vitória de um mundo sobre outro, mas o instante em que os sobreviventes das sombras decidem reconstruir a dignidade humana pedra por pedra, palavra por palavra, gesto por gesto. 
 
    E então, quando os anjos caídos da modernidade forem apenas ruínas de antigas ilusões, os chacinados da história erguer-se-ão como testemunhas de que a luz não nasce apesar da escuridão, mas atravessando-a. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Um universo inteiro escondido

    Uma pessoa verdadeiramente interessante não precisa falar muito. Às vezes, basta uma pergunta diferente para revelar que existe um universo inteiro escondido atrás daquele olhar. 
 
    Existe algo de profundamente desconcertante em perceber como são raras as pessoas que realmente despertam nossa curiosidade. Podemos atravessar dezenas, centenas de rostos, conversar com muitas pessoas, compartilhar ambientes e até intimidades, mas poucas conseguem produzir aquela pequena ruptura interior, a sensação de que, finalmente, encontramos alguém que pensa diferente, enxerga além da superfície e nos obriga a sair de nós mesmos. Acredito que seja justamente isso que torna uma pessoa rara tão perturbadora: ela interrompe a monotonia do comum. 
 
    Há pessoas que passam pela nossa vida como paisagem. Outras chegam como tempestade: desarrumam pensamentos, questionam certezas e deixam o silêncio diferente depois que partem. O mais estranho não é encontrar alguém interessante. É perceber o quanto isso se tornou raro. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O que não tive

    Tem coisas que desejei profundamente e que, por alguma razão, nunca foram minhas. Durante muito tempo, pensei que não tê-las fosse uma espécie de derrota. Hoje, porém, compreendo que algumas ausências são bênçãos que só reconhecemos depois que a esperança deixa de doer. 
 
    Às vezes, a vida nos nega aquilo que o coração insiste em pedir porque sabe que, por trás daquele desejo, havia uma ilusão maior esperando para nos ferir. Nem tudo o que desejamos seria capaz de nos fazer felizes. Algumas coisas apenas parecem bonitas enquanto permanecem distantes. Talvez seja melhor sentir a pequena tristeza de não possuir aquilo que se deseja do que experimentar a grande dor de possuir uma ilusão e descobrir, tarde demais, que ela nunca foi aquilo que imaginávamos. 
 
    Há sonhos que não se realizam porque a realidade seria menor que o sonho. Há pessoas que não ficam porque sua permanência nos custaria mais do que sua ausência. Há portas que não se abrem porque, do outro lado, não havia o paraíso que imaginávamos, mas apenas uma estrada longa de decepções. Por isso, nem sempre devemos lamentar aquilo que não tivemos. Algumas perdas nunca foram perdas; foram livramentos disfarçados de frustração. 
 
    O coração costuma perguntar: “Por que não aconteceu?” Talvez a vida responda em silêncio: “Porque você ainda não sabia o quanto isso poderia machucá-lo.” E existe uma paz madura em aceitar isso. Nem todo desejo merece realização. Nem toda espera merece recompensa. Nem toda ausência precisa ser preenchida. 
 
    Às vezes, não ter é justamente a maneira mais delicada que a vida encontrou de nos proteger. E, quando finalmente compreendemos isso, deixamos de olhar para o que não veio com tristeza e começamos a agradecer pelo que não aconteceu. Porque algumas ilusões, quando não se realizam, doem apenas por um tempo. Mas algumas, quando se realizam, podem doer por uma vida inteira. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 8 de agosto de 2026

Enquanto houver esperança, haverá poesia

    Às vezes penso que poderia escrever mil poemas tentando definir o amor. Mil poemas, talvez, ainda fossem poucos. Poderia gastar páginas e mais páginas procurando palavras capazes de explicar aquilo que o coração sente quando encontra alguém que o faz querer permanecer, quando uma lembrança insiste em voltar, quando um simples olhar é capaz de dizer aquilo que a boca não consegue pronunciar. E, se ainda me restasse vigor, escreveria mais dez mil. 
 
    Não porque o amor seja complicado, mas porque talvez seja grande demais para caber numa definição. Há coisas que a gente entende justamente porque não consegue explicar. O amor é uma delas. Podemos descrevê-lo, cantá-lo, desenhá-lo em versos, transformá-lo em música, inventar metáforas para ele. Podemos escrever sobre o primeiro encontro, sobre a saudade, sobre o abraço, sobre a espera, sobre a ausência e até sobre a dor de amar. Mas, no final, sempre ficará alguma coisa por dizer. 
 
    Creio que seja por isso que os poetas nunca terminam de escrever sobre o amor. Mudam as épocas, mudam as pessoas, mudam as cidades, mudam os costumes, mas o amor continua procurando palavras para existir. E talvez haja uma razão ainda maior para continuar falando dele. 
 
    Vivemos em um mundo que parece ter aprendido a falar muito alto sobre o ódio. As notícias chegam carregadas de guerras, conflitos, ameaças, intolerância e violência. Homens levantam armas contra outros homens. Países transformam diferenças em fronteiras de sangue. Pessoas que nunca se conheceram aprendem a se odiar simplesmente porque alguém lhes ensinou que o outro é um inimigo. 
 
    O ódio, às vezes, parece ter encontrado uma poderosa máquina de divulgação. Ele está nas palavras agressivas, nas discussões intermináveis, na intolerância cotidiana, na vontade de vencer o outro em vez de compreendê-lo. Está nas guerras que começam com discursos e terminam com lágrimas. Está na facilidade com que algumas pessoas desejam destruir aquilo que não conseguem entender. Diante disso, talvez escrever sobre o amor pareça uma pequena coisa. Mas não é. Em um mundo que insiste em espalhar o ódio, falar de amor pode ser um ato de resistência. 
 
    Escrever sobre o amor é lembrar que ainda somos humanos. É lembrar que antes de pertencermos a qualquer grupo, partido, religião, ideologia ou nação, somos pessoas. Temos medo, sonhos, perdas, esperanças e alguém esperando por nós em algum lugar. Temos uma história que começou antes de qualquer opinião que hoje defendemos. Escrever sobre o amor é recusar a ideia de que a violência seja a única linguagem possível. 
 
    Não significa ignorar a realidade. Não significa fechar os olhos para as injustiças, fingir que as guerras não existem ou transformar a vida em uma fantasia cor-de-rosa. Pelo contrário. Talvez seja justamente porque conhecemos a brutalidade do mundo que precisamos falar ainda mais sobre aquilo que pode torná-lo menos brutal. É preciso escrever sobre o amor porque alguém precisa lembrar que a ternura também é uma força. É preciso falar sobre o abraço porque existem pessoas que só conhecem a dureza. É preciso escrever sobre a amizade porque existem corações cansados de desconfiança. É preciso falar sobre perdão porque há pessoas aprisionadas dentro de antigas mágoas. É preciso escrever sobre esperança porque o desespero tem encontrado muitos lugares para morar. E é preciso escrever sobre o amor porque a poesia talvez seja uma das poucas armas que podemos usar sem ferir ninguém. 
 
    Um poema não derruba uma bomba. Não interrompe sozinho uma guerra. Não impede que alguém escolha o caminho da violência. Mas pode tocar uma pessoa. E, às vezes, tocar uma pessoa já é começar a mudar alguma coisa. Com certeza o mundo não precisa apenas de grandes discursos. Talvez precise também de pequenas palavras colocadas cuidadosamente dentro do coração de alguém. 
 
    Uma frase pode consolar. Um poema pode despertar uma lembrança. Uma história pode fazer alguém enxergar o outro de maneira diferente. Uma palavra de amor pode chegar justamente quando alguém estava prestes a desistir de acreditar que ainda existisse bondade. Por isso continuo escrevendo. 
 
    Escrever sobre o amor, para mim, não é fugir do mundo. É uma maneira de enfrentá-lo sem me tornar semelhante àquilo que desejo combater. Se o mundo grita, tento sussurrar. Se o mundo divide, tento aproximar. Se o mundo ensina a odiar, tento ensinar a sentir. Se o mundo espalha medo, tento espalhar esperança. E se existem pessoas escrevendo páginas e páginas sobre guerras, destruição e vingança, talvez eu possa escrever algumas páginas sobre abraços, encontros, saudades, perdão e ternura. 
 
    Talvez eu possa escrever mil poemas. E mais dez mil. Não para encontrar finalmente uma definição para o amor, mas para mantê-lo vivo nas palavras. Porque algumas coisas precisam ser repetidas justamente para que não sejam esquecidas. É preciso repetir que amar vale a pena. É preciso repetir que ninguém é tão forte que não precise de carinho. É preciso repetir que o outro não é necessariamente um inimigo. É preciso repetir que gentileza não é fraqueza. É preciso repetir que ainda podemos escolher a paz. E, sobretudo, é preciso repetir que, apesar de todas as guerras que existem no mundo, ainda há pessoas que escolhem amar. 
 
    Acredito que seja essa a verdadeira poesia. Não aquela que apenas rima palavras bonitas, mas aquela que consegue transformar um pouco da realidade ao redor. A poesia que nasce do amor e retorna ao mundo como esperança. A poesia que não precisa gritar para ser ouvida. A poesia que chega silenciosa e encontra morada dentro de alguém. 
 
    Por isso, se me perguntarem quantos poemas seriam necessários para definir o amor, talvez eu responda que não sei. Mil? Dez mil? Um milhão? Talvez nenhum número seja suficiente. Porque enquanto houver alguém amando, haverá uma nova história para contar. Enquanto houver saudade, haverá um verso esperando para nascer. Enquanto houver esperança, haverá poesia. E enquanto houver um mundo tentando nos convencer de que o ódio é mais forte que o amor, continuarei escrevendo. 
 
    Talvez eu não consiga mudar o mundo inteiro. Mas posso colocar uma pequena palavra de amor dentro dele. E, às vezes, é assim que a poesia começa: com alguém que se recusa a deixar o ódio ter a última palavra. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Quando penso em você

    Tem pensamentos que passam como nuvens de verão, leves e passageiros. Outros, porém, chegam para permanecer. Você pertence a essa segunda espécie de lembrança: aquela que não pede licença para entrar, mas encontra abrigo e transforma a paisagem interior. Basta que seu nome atravesse minha memória, e o silêncio ganha outra sonoridade, o tempo desacelera, e o coração começa a falar uma linguagem que nem sempre consigo compreender. 
 
    Às vezes me pergunto por que penso tanto em você. Talvez porque existam pessoas que se tornam maiores do que a própria presença. Elas permanecem quando a conversa termina, caminham conosco mesmo na distância e deixam vestígios em tudo o que vemos. Há um pouco de você no entardecer que me emociona, na canção que inesperadamente me encontra, no vento que insiste em trazer lembranças de dias que nunca deixaram de existir. 
 
    Foi sem perceber que meu coração deixou de ser apenas meu. Não houve um instante exato, nenhuma cerimônia, nenhum anúncio. Aconteceu como acontece com os rios que, sem fazer barulho, mudam lentamente o seu curso. Um dia acordei e compreendi que ele já não me obedecia como antes. Batia diferente, sonhava diferente, esperava diferente. Era como se tivesse escolhido outro horizonte para morar. 
 
    Creio que amar seja exatamente isso: aceitar que o coração não nasceu para ser propriedade, mas peregrino. Ele parte quando encontra alguém que lhe desperta o desejo de permanecer. Não conhece fronteiras nem argumentos; desconhece a lógica dos cálculos e das certezas. Apenas segue o delicado impulso de quem encontrou um motivo para florescer, mesmo entre as dúvidas. 
 
    Por isso, quando penso em você, não sinto apenas saudade ou ternura. Sinto o estranho conforto de reconhecer que algumas pessoas chegam para reorganizar nossa alma. Elas não levam apenas um pedaço do nosso coração; ensinam que ele nunca nos pertenceu por completo. Talvez tenha sido criado justamente para isso: para encontrar outro coração onde pudesse repousar, mesmo que continue batendo dentro do nosso peito. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

As revistas debaixo da cama

    Há lembranças que envelhecem conosco. Não ficam presas aos anos em que aconteceram; caminham ao nosso lado, silenciosas, esperando apenas um cheiro, uma imagem ou uma palavra para voltarem à vida. Comigo é assim quando vejo uma velha revista em quadrinhos. Basta encontrar uma capa amarelada do Homem-Aranha, do Superman ou de Conan para que eu volte imediatamente aos anos oitenta, quando descobri um universo que parecia muito maior do que a pequena cidade onde eu vivia. 
 
    Naquele tempo, uma revista em quadrinhos não era apenas papel impresso. Era uma passagem secreta. Bastava abrir suas páginas para abandonar as ruas de terra, os dias comuns e as preocupações de um adolescente. Eu viajava para Nova York, acompanhando Peter Parker em sua eterna luta para conciliar a vida simples com a responsabilidade de ser o Homem-Aranha. Voava ao lado do Superman sobre Metrópolis, acreditando que sempre existiria alguém disposto a defender os fracos e enfrentar a injustiça. E, quando queria fugir completamente da realidade, seguia Conan pelas terras da Era Hiboriana, onde coragem, espada e determinação pareciam suficientes para desafiar qualquer destino. 
 
    Também havia espaço para Hulk, Capitão América, Mandrake, Fantasma, Akim e tantos outros heróis que alimentavam minha imaginação. Cada um carregava uma maneira diferente de enfrentar o mundo. Uns venciam pela força, outros pela inteligência, outros pela honra. Sem perceber, eu aprendia valores escondidos entre balões de fala e desenhos coloridos. 
 
    Mas, dentro de casa, aquelas revistas não eram vistas da mesma forma. 
 
    Meu pai era um homem profundamente religioso. Sua fé orientava a vida da família, e tudo aquilo que lhe parecesse afastar os filhos dos caminhos de Deus despertava sua preocupação. Para ele, aqueles personagens mascarados, feiticeiros, guerreiros e seres de outros mundos eram influências perigosas. Não havia diferença entre fantasia e ameaça espiritual. Em sua compreensão, histórias em quadrinhos eram, simplesmente, coisa do diabo. 
 

    Hoje consigo compreender que sua proibição nascia do amor. Ele acreditava sinceramente que estava protegendo seus filhos. Naquele tempo, porém, eu não enxergava assim. Para um adolescente apaixonado por aventuras, aquilo parecia uma sentença injusta. Como poderia haver mal em acompanhar um jovem tímido que arriscava a própria vida para salvar desconhecidos? Como poderia o Superman, símbolo de esperança, representar algum perigo? E Conan... bem, Conan era a própria liberdade desenhada em papel. 
 
    Foi então que aprendi uma das primeiras estratégias da adolescência: esconder aquilo que amamos. 
 
    As revistas passaram a morar debaixo da minha cama. Era um esconderijo simples, mas que me parecia perfeito. Eu esperava a casa silenciar, retirava cuidadosamente os exemplares e mergulhava naquele mundo onde monstros eram derrotados, cidades eram salvas e heróis sempre encontravam forças para continuar. 
 
    Durante algum tempo, pensei que meu segredo estivesse seguro. Até o dia em que meu pai resolveu fazer uma inspeção inesperada no quarto. Ainda hoje consigo recordar o instante em que ele puxou aquelas revistas escondidas. Meu coração afundou antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. As capas coloridas, que para mim eram tesouros, transformaram-se em provas de desobediência. Naquele dia apanhei. 
 
    Não foi apenas a dor física que ficou gravada na memória. O que mais doeu foi ver minhas aventuras preferidas sendo tratadas como algo maligno. Parecia que alguém estava castigando justamente o lugar onde minha imaginação aprendia a voar. 
 

    O tempo, porém, tem uma estranha habilidade de transformar feridas em compreensão. 
 
    Hoje olho para trás sem ressentimento. Meu pai agiu conforme suas convicções. Era um homem de seu tempo, guiado pela fé e pelo desejo sincero de proteger a família. Eu, por outro lado, era apenas um garoto descobrindo que a imaginação também é uma forma de liberdade. 
 
    Talvez por isso eu nunca tenha deixado de gostar das histórias em quadrinhos. 
 
    Ainda hoje, quando encontro uma boa aventura do Homem-Aranha, sinto a mesma alegria daquele adolescente escondido sob a luz fraca de um quarto. Peter Parker continua sendo um dos personagens mais humanos que conheci. Seus poderes nunca esconderam suas fraquezas. Pelo contrário: ensinaram que coragem não é ausência de medo, mas a decisão de seguir em frente apesar dele. 
 
    O Superman continua representando um ideal que parece cada vez mais raro: a escolha consciente de usar a força para servir, e não para dominar. Em um mundo onde tantos confundem poder com violência, ele ainda lembra que a verdadeira grandeza está na compaixão. 
 
    E Conan... Conan permanece sendo a lembrança de que a liberdade exige coragem. Ele enfrenta reis, feiticeiros e monstros sem jamais entregar sua própria vontade. Há algo profundamente humano naquele bárbaro criado por Robert E. Howard, talvez porque ele nos recorde que, antes de qualquer civilização, existe a força do caráter. 
 

    Às vezes imagino o menino que escondia revistas debaixo da cama olhando para o homem que me tornei. Creio que ele sorriria ao descobrir que a paixão sobreviveu ao tempo. As revistas mudaram, os traços evoluíram, os heróis ganharam novas versões, mas o encantamento continua exatamente o mesmo. 
 
    Hoje já não preciso esconder meus quadrinhos. Eles ficam à vista, sem medo de censura ou castigo. Tornaram-se parte da minha biblioteca, ao lado dos livros de História, dos romances, da poesia e da filosofia. Descobri, afinal, que não existe conflito entre amar a literatura e admirar os quadrinhos. Ambos contam histórias. Ambos alimentam a imaginação. Ambos nos ajudam a compreender melhor quem somos. 
 
    E, sempre que vejo um velho exemplar do Homem-Aranha, do Superman ou de Conan, sorrio discretamente. Não apenas porque reencontro antigos heróis, mas porque também reencontro aquele garoto dos anos oitenta que, mesmo depois de apanhar por causa de algumas revistas escondidas debaixo da cama, jamais deixou de acreditar no poder transformador de uma boa história. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense