Era sempre depois das dez.
Quando as últimas janelas da rua se apagavam e os cães desistiam de latir para o vazio, Augusto deixava a cadeira da cozinha, atravessava lentamente o quintal e sentava-se sob a velha mangueira. Dizia que a noite era o único ser capaz de escutar sem interromper.
Ninguém compreendia aquele hábito.
Os vizinhos o julgavam estranho. Alguns afirmavam que enlouquecera depois da morte da esposa. Outros diziam que a idade tornava os homens extravagantes. Os mais jovens apenas sorriam quando o viam permanecer imóvel por horas, olhando para um céu onde poucas estrelas ainda resistiam ao brilho artificial da cidade.
Mas Augusto sabia de algo que os outros haviam esquecido.
O silêncio também fala.
Naquela noite, porém, havia um rumor diferente. Não era o canto dos grilos nem o sopro do vento atravessando as folhas secas. Parecia uma respiração doente percorrendo o mundo.
— Os germes voltaram... — murmurou.
Não eram microrganismos. Eram invisíveis enfermidades da alma.
Ele os conhecia havia muitos anos.
Espalhavam-se sempre que uma verdade era substituída pela conveniência. Cresciam quando alguém preferia julgar a compreender. Multiplicavam-se onde a inveja ocupava o lugar da admiração e onde a pressa matava qualquer possibilidade de escuta.
Esses germes não provocavam febre.
Produziam algo muito pior.
Transformavam pessoas em multidões incapazes de ouvir umas às outras.
Augusto baixou a cabeça.
Seu coração estava devastado.
Não pela solidão.
A solidão podia ser boa companhia.
O que o consumia era perceber que as palavras haviam perdido o peso que possuíam antigamente. Todos falavam. Quase ninguém escutava.
As conversas haviam se tornado disputas.
As opiniões eram lanças.
Os argumentos, muralhas.
E cada homem parecia condenado a viver prisioneiro da própria voz.
Ele respirou profundamente.
Lembrou-se do pai.
Era um lavrador simples que pouco estudara, mas possuía uma sabedoria difícil de encontrar.
"Antes de responder", dizia, "ouça até aquilo que o outro não conseguiu dizer."
Augusto nunca esqueceu esse ensinamento.
Talvez por isso sofresse tanto.
Escutava não apenas as palavras das pessoas.
Escutava seus medos.
Suas derrotas.
Suas vaidades escondidas.
Suas esperanças maltratadas.
E descobrira que os homens gritavam justamente porque haviam desaprendido a confiar no silêncio.
Enquanto pensava, percebeu alguém aproximando-se.
Era um rapaz.
Devia ter pouco mais de vinte anos.
Sentou-se ao seu lado sem pedir licença.
Ficaram alguns minutos olhando a mesma escuridão.
Nenhum dos dois falou.
Foi o jovem quem rompeu o silêncio.
— O senhor faz isso todas as noites?
Augusto sorriu.
— Sim.
— E o que procura?
O velho demorou a responder.
— Procuro continuar humano.
O rapaz franziu a testa.
— Não entendi.
Augusto apontou para o céu.
— O mundo faz muito barulho durante o dia. À noite eu verifico se ainda consigo ouvir minha consciência.
O jovem permaneceu imóvel.
Nunca alguém lhe respondera daquela maneira.
Durante toda a vida lhe ensinaram a conquistar, competir, vencer, aparecer, provar seu valor.
Jamais lhe disseram que uma alma também precisava de descanso.
— Eu também estou cansado... — confessou quase num sussurro.
Augusto não perguntou o motivo.
Sabia que algumas dores se sentem ofendidas quando interrogadas.
Esperou.
Depois de alguns minutos, o rapaz começou a falar.
Contou sobre as cobranças.
Os fracassos.
A ansiedade.
A necessidade constante de parecer feliz.
O medo de decepcionar.
Falou durante quase uma hora.
Quando terminou, percebeu que o velho não havia pronunciado uma única palavra.
Nem um conselho.
Nem uma crítica.
Nem uma solução.
Apenas escutara.
Então perguntou:
— O senhor não vai dizer nada?
Augusto sorriu novamente.
— Eu disse.
— Quando?
— Enquanto o escutava.
O rapaz abaixou os olhos.
Naquele instante compreendeu algo raro.
Há pessoas que oferecem respostas.
Outras oferecem presença.
E, muitas vezes, a presença salva muito mais do que qualquer resposta.
A madrugada já avançava.
Os primeiros pássaros anunciavam a chegada da aurora.
Augusto levantou-se lentamente.
Seu coração continuava marcado pelas dores do mundo.
Os germes invisíveis ainda percorriam as cidades.
A indiferença ainda contaminava relações.
As pessoas provavelmente continuariam sem ouvir umas às outras.
Nada disso havia mudado.
Mas algo diferente acontecera naquela noite.
Enquanto caminhava de volta para casa, compreendeu que resistir não significava derrotar toda a escuridão.
Bastava impedir que ela invadisse o próprio coração.
E naquele pequeno quintal, sob uma velha mangueira, dois homens haviam descoberto que a escuta é uma forma silenciosa de esperança.
Talvez seja justamente por isso que a noite nunca responda às nossas perguntas.
Ela apenas nos ensina a permanecer em silêncio tempo suficiente para encontrarmos, dentro de nós, aquilo que sempre esteve esperando para ser ouvido.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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