domingo, 6 de setembro de 2026

Se existe redenção para quem ama

    Nas inquietas e incertas noites de angústia, há um silêncio que não é vazio, é povoado por lembranças que respiram no escuro. Cada pensamento é um passo em falso sobre o passado, e nele tropeço sempre no mesmo instante: o momento em que deixei você partir. 
 
    Carrego a culpa como quem segura água nas mãos, quanto mais tento conter, mais ela escapa pelos dedos, mas ainda assim permanece, fria, insistente. Pergunto-me se foi covardia, distração ou apenas o destino disfarçado de escolha. E essa dúvida, essa névoa, é o que mais fere. 
 
    As horas da noite se alongam como sombras que não querem morrer. E nelas, você reaparece, não como presença, mas como ausência viva. Um eco do que poderia ter sido, um gesto não feito, uma palavra que ficou presa na garganta do tempo. 
 
    Há noites em que penso que amar também é falhar, não por falta de sentimento, mas por não saber sustentá-lo quando ele mais precisa de coragem. E então me vejo ali, parado, enquanto você se afastava, levando consigo não apenas o que éramos, mas tudo aquilo que eu ainda poderia ter sido ao seu lado. 
 
    Se existe redenção para quem ama tarde demais, ela talvez não esteja no esquecimento, mas na permanência dessa dor que ensina. Porque, no fundo, essas noites inquietas não são apenas castigo, são também memória viva de que um dia houve algo tão intenso que ainda arde, mesmo depois de ter se ido. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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