Tem pensamentos que passam como nuvens de verão, leves e passageiros. Outros, porém, chegam para permanecer. Você pertence a essa segunda espécie de lembrança: aquela que não pede licença para entrar, mas encontra abrigo e transforma a paisagem interior. Basta que seu nome atravesse minha memória, e o silêncio ganha outra sonoridade, o tempo desacelera, e o coração começa a falar uma linguagem que nem sempre consigo compreender.
Às vezes me pergunto por que penso tanto em você. Talvez porque existam pessoas que se tornam maiores do que a própria presença. Elas permanecem quando a conversa termina, caminham conosco mesmo na distância e deixam vestígios em tudo o que vemos. Há um pouco de você no entardecer que me emociona, na canção que inesperadamente me encontra, no vento que insiste em trazer lembranças de dias que nunca deixaram de existir.
Foi sem perceber que meu coração deixou de ser apenas meu. Não houve um instante exato, nenhuma cerimônia, nenhum anúncio. Aconteceu como acontece com os rios que, sem fazer barulho, mudam lentamente o seu curso. Um dia acordei e compreendi que ele já não me obedecia como antes. Batia diferente, sonhava diferente, esperava diferente. Era como se tivesse escolhido outro horizonte para morar.
Creio que amar seja exatamente isso: aceitar que o coração não nasceu para ser propriedade, mas peregrino. Ele parte quando encontra alguém que lhe desperta o desejo de permanecer. Não conhece fronteiras nem argumentos; desconhece a lógica dos cálculos e das certezas. Apenas segue o delicado impulso de quem encontrou um motivo para florescer, mesmo entre as dúvidas.
Por isso, quando penso em você, não sinto apenas saudade ou ternura. Sinto o estranho conforto de reconhecer que algumas pessoas chegam para reorganizar nossa alma. Elas não levam apenas um pedaço do nosso coração; ensinam que ele nunca nos pertenceu por completo. Talvez tenha sido criado justamente para isso: para encontrar outro coração onde pudesse repousar, mesmo que continue batendo dentro do nosso peito.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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