domingo, 23 de agosto de 2026

O milagre da poesia

    Quando eu ainda não conhecia todas as palavras, descobri que o silêncio também falava. Mas houve dias em que nem ele bastava. Havia sentimentos grandes demais para caber no peito, dores que recusavam qualquer explicação e alegrias que transbordavam sem encontrar um nome. Foi então que conheci a poesia. 
 
    Ela chegou sem fazer barulho, como quem compreende aquilo que ninguém consegue dizer. Ensinou-me que nem toda verdade precisa ser exata e que, às vezes, um verso alcança lugares onde a razão jamais pisaria. A poesia tornou-se a voz das minhas inquietações e o abrigo dos meus silêncios. 
 
    Hoje compreendo que não foi o domínio das palavras que me fez poeta. Foi justamente a falta delas. Porque, quando o vocabulário terminou, a sensibilidade começou. E, quando o silêncio já não era suficiente, os versos nasceram para traduzir o invisível, transformar lágrimas em metáforas e eternizar instantes que o tempo insistia em levar. 
 
    A poesia não respondeu a todas as minhas perguntas, mas deu beleza às minhas dúvidas. Não apagou minhas saudades, mas fez delas companhia. Não mudou o mundo, mas mudou a maneira como aprendi a contemplá-lo. 
 
    Acredito que seja esse o verdadeiro milagre da poesia: nascer exatamente no espaço onde as palavras faltam e o silêncio já não consegue suportar o peso do coração. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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