Quando a cidade completou seus 248 anos, caiu uma chuva torrencial na cidade. Sentado às margens do Rio Paraguai, o Pensador, que não se importava de ser chamado de Bugre Cacerense, observava os pingos de chuva que ainda caia sobre as águas. Observou, também, que parte das obras da Orla estava bem comprometida. O tempo prometia fazer frio, coisa que os bugres não gostavam muito. Estava absorto em suas contemplações que nem notou a jovem garota que parou ao seu lado e pegou o celular para tirar algumas fotos.
- O que você pensa sobre Cáceres? - Ela perguntou-lhe.
Ele olhou para ela. Não respondeu de imediato. Deu um leve sorriso e, então, assim falou:
1. Cáceres não é apenas uma cidade no mapa; é uma memória que aprendeu a morar entre o rio e o tempo.
2. Quem contempla o pôr do sol no Rio Paraguai percebe que o passado também sabe se despedir sem desaparecer.
3. O Rio Paraguai não atravessa Cáceres; é Cáceres que, há séculos, aprende a atravessar o rio.
4. Toda cidade possui ruas; Cáceres possui caminhos que conduzem à memória.
5. Há cidades que guardam monumentos. Cáceres guarda histórias dentro dos monumentos.
6. O Marco do Jauru não é apenas pedra: é a permanência de um passado que se recusa a ser esquecido.
7. Nas antigas casas de Cáceres, o tempo não envelheceu; apenas mudou de voz.
8. Uma cidade bicentenária não conta somente os anos que passaram, mas também os sonhos que sobreviveram a eles.
9. Cáceres possui duas geografias: a que se vê nos mapas e aquela que existe na imaginação de seus habitantes.
10. Toda lenda nasce quando a realidade já não consegue explicar completamente aquilo que o coração deseja compreender.
11. O Minhocão vive menos nas águas do Pantanal do que na necessidade humana de transformar o desconhecido em narrativa.
12. Os mistérios de Cáceres talvez não estejam escondidos; talvez sejamos nós que ainda não aprendemos a enxergá-los.
Quando ele fez uma pausa a garota olhou firmemente para ele e sorriu.
- Poxa vida! Nunca tinha parado para pensar dessa forma.
O vento frio batia em seus rostos e espalhava os cabelos da jovem. Um barco descia lentamente pelas águas.
- E o que você pensa sobre os casarões antigos de Cáceres? - Ela perguntou.
Ele fez uma breve pausa, como se aguardasse uma autorização divina e, então, assim falou:
1. Os casarões antigos de Cáceres são livros de pedra cujas páginas ainda permanecem abertas ao tempo.
2. Uma casa antiga não envelhece quando conserva a capacidade de despertar memórias.
3. Nas paredes dos casarões, o tempo não passou em silêncio: deixou marcas, sombras e histórias.
4. Cada janela antiga parece guardar o olhar de alguém que um dia contemplou a mesma rua.
5. As portas dos casarões se abrem para o presente, mas suas dobradiças pertencem ao passado.
6. Há casas que abrigam pessoas; os casarões históricos abrigam gerações.
A moça olhou para ele e não escondeu a sua admiração por tanta sabedoria.
- Meu Deus! Eu nunca parei para pensar dessa forma. Só conseguia ver ruínas e feiura, mas você me faz enxergar uma outra coisa.
- O tempo, minha querida, o tempo nos trás novas perspectivas.
Ficaram por um breve momento em silêncio apenas contemplando as águas, o verde da pequena Baia e as nuvens carregadas que prometiam mais chuva.
- E o que você pensa sobre o povo cacerense? - Perguntou a jovem.
Ele deu um leve sorriso. Seu semblante era de uma nostalgia pura. Respirou fundo, olhou para a jovem e assim falou:
1. O povo cacerense é como o Rio Paraguai: carrega histórias de muitos lugares, mas conserva uma identidade própria.
2. Uma cidade pode ser construída com pedras; uma comunidade é construída com pessoas, afetos e memórias.
3. Ser cacerense é carregar Cáceres não apenas no lugar onde se vive, mas no modo de lembrar, contar e sentir.
4. O povo de Cáceres aprendeu com o rio que a vida é movimento, mas também aprendeu com a história que toda correnteza deixa marcas.
5. Há uma hospitalidade que não se ensina nos livros: nasce do encontro entre pessoas, e em Cáceres ela encontra sua própria maneira de existir.
6. O cacerense transforma lembrança em conversa, conversa em história e história em identidade.
7. Toda cidade possui habitantes; algumas possuem um povo que se reconhece nas próprias histórias.
8. O povo cacerense não vive somente entre ruas e bairros; vive também entre lendas, festas, costumes e lembranças.
- Nossa! - Ela suspirou fundo não escondendo a sua emoção - Você me faz ver as coisas de outra forma. Nunca tinha percebido o povo cacerense desse jeito.
- Temos várias formas de ver o mundo - disse ele calmamente - uns tem sempre uma visão pessimista do mundo e do lugar onde mora ou vive, outros tem uma visão otimista. Nem uma das duas visões estão certas e erradas ao mesmo tempo. O certo é termos uma visão mais realista e reflexiva. Isso nos ajuda a entender o mundo a nossa volta e o nosso lugar nesse mundo.
Ela sorriu. Tinha uma beleza natural nos olhos.
- Posso te fazer uma última pergunta?
Ele assentiu com a cabeça.
- O que você pensa sobre o futuro de Cáceres?
Fez uma breve pausa, olhou para o horizonte e assim falou:
1. O futuro de Cáceres não será encontrado no horizonte; será construído pelas escolhas feitas no presente.
2. Uma cidade bicentenária não deve escolher entre memória e futuro: precisa levar a memória consigo para construir o futuro.
3. Cáceres poderá mudar suas ruas, seus prédios e suas tecnologias, mas seu futuro será mais forte se não esquecer suas raízes.
4. O progresso que apaga a memória constrói uma cidade nova, mas não necessariamente uma cidade melhor compreendida por seus habitantes.
5. O futuro de Cáceres começa quando seus jovens percebem que a história da cidade também lhes pertence.
6. Uma cidade que preserva seus casarões prepara o futuro sem abandonar suas origens.
7. O Rio Paraguai continuará correndo; a pergunta é que cidade escolheremos construir às suas margens.
8. O futuro não deve substituir a identidade de Cáceres, mas encontrar nela a matéria-prima para reinventá-la.
A jovem deixou escapar uma pequena lágrima de seus lindos olhos.
- Minha nossa! - Exclamou ela - O quanto eu aprendi hoje.
- Fico feliz que tenha parado para me ouvir. Ninguém mais quase faz isso.
- Posso vir outras vezes conversar com você?
- Quantas vezes quiser. Será sempre um prazer compartilhar essas ideias com você.
Ela deu um leve sorriso e caminhou em direção a Praça Barão. Ele permaneceu em pé olhando para o Rio Paraguai. Nesse dia a cidade comemorava seus 248 anos de existência.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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