Foi numa tarde qualquer, dessas em que o tempo parece caminhar mais devagar, que decidi abrir um velho livro esquecido na estante. A capa já não tinha o brilho de outros tempos, as páginas exibiam aquele tom amarelado que apenas os anos conseguem produzir, e o cheiro... Ah, o cheiro dos livros antigos é uma espécie de perfume da memória.
Folheava distraidamente quando algo escapou do meio das páginas e caiu sobre o chão.
Era um pequeno bilhete, dobrado com cuidado. O papel estava gasto nas dobras, como se tivesse sido aberto e fechado inúmeras vezes. A tinta azul, embora desbotada, ainda resistia ao tempo.
Não havia assinatura.
Apenas algumas linhas.
"Espero que um dia você descubra que existem pessoas que passam pela nossa vida apenas para nos ensinar a amar. Mesmo que não permaneçam."
Fiquei alguns minutos olhando para aquelas palavras.
Não porque fossem extraordinárias. Havia algo ainda mais poderoso: elas pareciam ter sido escritas para mim.
Naquele instante, o livro deixou de ser importante. As páginas impressas perderam a disputa para as páginas invisíveis da memória.
Lembrei-me de uma garota.
Não era a mais bonita da cidade, embora, para mim, fosse impossível encontrar alguém mais bonita. Também não era dessas pessoas que chegam fazendo barulho. Ela chegava em silêncio, como a brisa que atravessa uma janela aberta sem pedir licença.
Ela ria com os olhos.
Hoje percebo que algumas pessoas sorriem apenas com os lábios; outras iluminam o ambiente inteiro antes mesmo de dizer qualquer palavra.
Nunca fomos um casal.
Na verdade, nossa história aconteceu muito mais nas possibilidades do que na realidade. Conversas curtas, olhares demorados, encontros inesperados e despedidas rápidas. A vida foi encontrando maneiras elegantes de nos separar antes mesmo de nos aproximar.
Na época, pensei que o tempo apagaria tudo.
Engano meu.
O tempo não apaga aquilo que foi verdadeiro. Apenas acomoda as lembranças em lugares onde deixamos de visitá-las diariamente.
Até que um velho livro resolve abrir uma porta.
Passei a imaginar quem teria inspirado ela a escrever aquele bilhete. Talvez uma colega apaixonada. Talvez uma professora. Talvez alguém que nunca teve coragem de entregar aquelas palavras.
Ou talvez o destino apenas precisasse de um mensageiro improvável.
Enquanto segurava aquele pedaço de papel, compreendi que os livros não conservam somente histórias escritas pelos autores. Guardam flores secas, fotografias esquecidas, recibos antigos, ingressos de cinema e, às vezes, corações inteiros dobrados em quatro partes.
Fechei o livro devagar.
Guardei novamente o bilhete exatamente onde o havia encontrado.
Não porque quisesse esquecê-lo.
Mas porque certos sentimentos pertencem ao mesmo lugar das páginas antigas: sobrevivem melhor quando não são arrancados de seu tempo.
Antes de recolocar o livro na estante, sorri.
Não sei por onde anda aquela garota. Talvez tenha construído uma bela família, talvez ainda goste de caminhar olhando as árvores, talvez nem se lembre de mim.
E está tudo bem.
Algumas pessoas não permanecem em nossas vidas para serem nossas.
Permanecem para nos ensinar que o amor, mesmo quando não acontece, continua sendo uma das mais belas formas de lembrar quem fomos.
Desde então, sempre que abro um livro antigo, faço isso com uma esperança secreta.
Não a de encontrar outro bilhete.
Mas a de descobrir que ainda existem lembranças capazes de florescer entre páginas envelhecidas, provando que o tempo amarela o papel, mas jamais consegue desbotar aquilo que um dia tocou profundamente o coração.
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário