sábado, 1 de agosto de 2026

A comunidade desconfiada

    Quando o avião pousou em Cáceres, os oito executivos respiraram aliviados. Depois de meses mergulhados em reuniões, metas, relatórios e negociações milionárias em São Paulo, finalmente chegavam ao Pantanal. A proposta era simples: esquecer os celulares, vestir roupas leves, pescar, beber cerveja gelada e navegar pelo majestoso Rio Paraguai durante uma semana. 

    Henrique, diretor financeiro de uma multinacional, liderava o grupo. Ao seu lado estavam Marcelo, Luciana, Cláudia, Roberto, Vinícius, Sérgio e Ana, todos acostumados ao conforto de hotéis cinco estrelas e salas climatizadas. Hospedaram-se numa elegante pousada às margens do rio. O proprietário lhes sugeriu um roteiro turístico convencional, passando por praias fluviais, baías e pontos de pesca. Mas Henrique queria algo diferente. 

    — Vamos descer o rio até onde quase ninguém vai. Quero conhecer o Pantanal de verdade. 

    Na manhã seguinte contrataram um barco potente, equipado com motor moderno, GPS, caixas térmicas e todo tipo de conforto. O piloto, seu Agenor, homem de poucas palavras e quase setenta anos de rio, advertiu: 

    — Existem comunidades ribeirinhas lá embaixo. São gente boa... mas não gostam de turistas entrando sem pedir licença. 

    Henrique sorriu. 

    — Relaxa. Somos apenas visitantes. 

    O Rio Paraguai parecia infinito. Capivaras mergulhavam lentamente. Ariranhas brincavam entre os barrancos. Garças riscavam o céu. O silêncio impressionava quem passava o ano inteiro cercado por buzinas. 

    Ao final da tarde avistaram um pequeno povoado construído sobre um barranco alto. Algumas casas de madeira, um trapiche antigo, redes penduradas nas varandas e canoas amarradas na margem. Henrique pediu para atracar. Assim que desembarcaram começaram a fotografar tudo. Uma senhora idosa fechou a porta da casa. As crianças desapareceram. Os homens interromperam o conserto das redes de pesca. Ninguém sorria. Poucos minutos depois apareceu um homem alto, pele curtida pelo sol, barba grisalha e chapéu de palha. Chamava-se Elias. Era uma das lideranças daquela comunidade. 

    — Boa tarde. 

    Henrique respondeu animado. 

    — Boa tarde! Estamos conhecendo a região. Lugar bonito, hein? 

    Elias permaneceu sério. 

    — Vocês pediram autorização para entrar? 

    Os executivos se entreolharam. 

    — Precisava? 

    — Estas terras não são parque de diversões. 

    O clima mudou imediatamente. Marcelo tentou amenizar. 

    — Não queremos incomodar ninguém. 

    — Mas já incomodaram. 

    Na praça de terra batida começaram a surgir outros moradores. Alguns carregavam remos. Outros apenas observavam. Não havia ameaça explícita. Mas havia desconfiança. Elias continuou: 

    — Nos últimos anos vieram muitos visitantes. Prometeram ajudar. Disseram que fariam projetos. Outros vieram pescar onde criamos nossos peixes. Alguns deixaram lixo. Outros fotografaram nossas casas como se fôssemos animais de exposição. Depois foram embora. Nunca mais voltaram. 

    Ana baixou lentamente a câmera fotográfica. Percebeu que, sem intenção, havia repetido exatamente aquele comportamento. 

    Henrique insistiu. 

    — Somos empresários. Não temos nada a ver com isso. 

    Um senhor muito velho respondeu pela primeira vez. 

    — Todo mundo diz isso. 

    O silêncio voltou. Seu Agenor aproximou-se discretamente de Henrique. 

    — É melhor irmos embora. 

    Mas antes que retornassem ao barco, um garoto apareceu correndo. Tinha cerca de doze anos. 

    — Seu Elias! 

    O menino apontava para o rio. Uma canoa havia se soltado durante a correnteza. Dentro dela estavam redes de pesca que seriam usadas na madrugada. 

    Sem pensar, Vinícius correu até o barco turístico. Ligou o motor. Seu Agenor assumiu o leme. Em poucos minutos alcançaram a embarcação antes que fosse arrastada para o canal principal. Quando retornaram, os moradores permaneciam em silêncio. O velho pescador aproximou-se. Passou a mão na borda da canoa. Sorriu pela primeira vez. 

    — Obrigado. 

    Naquela noite, inesperadamente, foram convidados para jantar. Não havia luxo. O peixe era assado na brasa. Farinha. Arroz. Bananas fritas. Suco de bocaiúva. Sentaram-se todos sob um enorme pé de mangueira. As conversas começaram tímidas. Depois vieram as histórias. Os moradores narraram enchentes históricas. Ataques de onças. Temporadas em que o rio parecia desaparecer. Explicaram como cada curva tinha um nome. Cada ilha guardava uma memória. Cada árvore marcava um acontecimento. Henrique percebeu que, para eles, o Rio Paraguai não era apenas uma paisagem. Era um membro da família. 

    Na manhã seguinte os executivos decidiram ajudar. Consertaram o gerador comunitário utilizando conhecimentos de engenharia de Roberto. Luciana organizou medicamentos que trazia na embarcação. Marcelo ensinou um grupo de adolescentes a usar um computador portátil alimentado por placas solares. Ana imprimiu algumas fotografias que havia feito, mas desta vez entregou uma cópia para cada família retratada. 

    Antes de partir, Henrique chamou Elias. 

    — Ontem achei que vocês fossem hostis. 

    Elias sorriu. 

    — Não. Só aprendemos a desconfiar. Quem vive no rio aprende que correnteza bonita também pode esconder troncos. 

    Henrique estendeu a mão. 

    — Acho que nós também tínhamos muito a aprender. 

    Quando o barco retomou a descida do Rio Paraguai, ninguém falava sobre negócios. Os celulares continuavam desligados. As metas trimestrais pareciam pertencer a outro mundo. Enquanto o motor cortava lentamente as águas barrentas, Henrique observava a pequena comunidade desaparecer no horizonte. 

    Pela primeira vez em muitos anos, compreendeu que existiam riquezas que não podiam ser medidas em planilhas, ações ou lucros. Algumas eram feitas de memória, respeito e pertencimento. E, nas margens silenciosas do Rio Paraguai, os executivos descobriram que a maior viagem não havia sido pelo Pantanal, mas pela difícil travessia entre a arrogância de quem chega e a humildade de quem aprende a ouvir. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense