Às vezes penso que poderia escrever mil poemas tentando definir o amor. Mil poemas, talvez, ainda fossem poucos. Poderia gastar páginas e mais páginas procurando palavras capazes de explicar aquilo que o coração sente quando encontra alguém que o faz querer permanecer, quando uma lembrança insiste em voltar, quando um simples olhar é capaz de dizer aquilo que a boca não consegue pronunciar.
E, se ainda me restasse vigor, escreveria mais dez mil.
Não porque o amor seja complicado, mas porque talvez seja grande demais para caber numa definição. Há coisas que a gente entende justamente porque não consegue explicar. O amor é uma delas. Podemos descrevê-lo, cantá-lo, desenhá-lo em versos, transformá-lo em música, inventar metáforas para ele. Podemos escrever sobre o primeiro encontro, sobre a saudade, sobre o abraço, sobre a espera, sobre a ausência e até sobre a dor de amar. Mas, no final, sempre ficará alguma coisa por dizer.
Creio que seja por isso que os poetas nunca terminam de escrever sobre o amor.
Mudam as épocas, mudam as pessoas, mudam as cidades, mudam os costumes, mas o amor continua procurando palavras para existir.
E talvez haja uma razão ainda maior para continuar falando dele.
Vivemos em um mundo que parece ter aprendido a falar muito alto sobre o ódio. As notícias chegam carregadas de guerras, conflitos, ameaças, intolerância e violência. Homens levantam armas contra outros homens. Países transformam diferenças em fronteiras de sangue. Pessoas que nunca se conheceram aprendem a se odiar simplesmente porque alguém lhes ensinou que o outro é um inimigo.
O ódio, às vezes, parece ter encontrado uma poderosa máquina de divulgação.
Ele está nas palavras agressivas, nas discussões intermináveis, na intolerância cotidiana, na vontade de vencer o outro em vez de compreendê-lo. Está nas guerras que começam com discursos e terminam com lágrimas. Está na facilidade com que algumas pessoas desejam destruir aquilo que não conseguem entender.
Diante disso, talvez escrever sobre o amor pareça uma pequena coisa.
Mas não é.
Em um mundo que insiste em espalhar o ódio, falar de amor pode ser um ato de resistência.
Escrever sobre o amor é lembrar que ainda somos humanos.
É lembrar que antes de pertencermos a qualquer grupo, partido, religião, ideologia ou nação, somos pessoas. Temos medo, sonhos, perdas, esperanças e alguém esperando por nós em algum lugar. Temos uma história que começou antes de qualquer opinião que hoje defendemos.
Escrever sobre o amor é recusar a ideia de que a violência seja a única linguagem possível.
Não significa ignorar a realidade. Não significa fechar os olhos para as injustiças, fingir que as guerras não existem ou transformar a vida em uma fantasia cor-de-rosa. Pelo contrário. Talvez seja justamente porque conhecemos a brutalidade do mundo que precisamos falar ainda mais sobre aquilo que pode torná-lo menos brutal.
É preciso escrever sobre o amor porque alguém precisa lembrar que a ternura também é uma força.
É preciso falar sobre o abraço porque existem pessoas que só conhecem a dureza.
É preciso escrever sobre a amizade porque existem corações cansados de desconfiança.
É preciso falar sobre perdão porque há pessoas aprisionadas dentro de antigas mágoas.
É preciso escrever sobre esperança porque o desespero tem encontrado muitos lugares para morar.
E é preciso escrever sobre o amor porque a poesia talvez seja uma das poucas armas que podemos usar sem ferir ninguém.
Um poema não derruba uma bomba.
Não interrompe sozinho uma guerra.
Não impede que alguém escolha o caminho da violência.
Mas pode tocar uma pessoa.
E, às vezes, tocar uma pessoa já é começar a mudar alguma coisa.
Com certeza o mundo não precisa apenas de grandes discursos. Talvez precise também de pequenas palavras colocadas cuidadosamente dentro do coração de alguém.
Uma frase pode consolar.
Um poema pode despertar uma lembrança.
Uma história pode fazer alguém enxergar o outro de maneira diferente.
Uma palavra de amor pode chegar justamente quando alguém estava prestes a desistir de acreditar que ainda existisse bondade.
Por isso continuo escrevendo.
Escrever sobre o amor, para mim, não é fugir do mundo. É uma maneira de enfrentá-lo sem me tornar semelhante àquilo que desejo combater.
Se o mundo grita, tento sussurrar.
Se o mundo divide, tento aproximar.
Se o mundo ensina a odiar, tento ensinar a sentir.
Se o mundo espalha medo, tento espalhar esperança.
E se existem pessoas escrevendo páginas e páginas sobre guerras, destruição e vingança, talvez eu possa escrever algumas páginas sobre abraços, encontros, saudades, perdão e ternura.
Talvez eu possa escrever mil poemas.
E mais dez mil.
Não para encontrar finalmente uma definição para o amor, mas para mantê-lo vivo nas palavras.
Porque algumas coisas precisam ser repetidas justamente para que não sejam esquecidas.
É preciso repetir que amar vale a pena.
É preciso repetir que ninguém é tão forte que não precise de carinho.
É preciso repetir que o outro não é necessariamente um inimigo.
É preciso repetir que gentileza não é fraqueza.
É preciso repetir que ainda podemos escolher a paz.
E, sobretudo, é preciso repetir que, apesar de todas as guerras que existem no mundo, ainda há pessoas que escolhem amar.
Acredito que seja essa a verdadeira poesia.
Não aquela que apenas rima palavras bonitas, mas aquela que consegue transformar um pouco da realidade ao redor.
A poesia que nasce do amor e retorna ao mundo como esperança.
A poesia que não precisa gritar para ser ouvida.
A poesia que chega silenciosa e encontra morada dentro de alguém.
Por isso, se me perguntarem quantos poemas seriam necessários para definir o amor, talvez eu responda que não sei.
Mil?
Dez mil?
Um milhão?
Talvez nenhum número seja suficiente.
Porque enquanto houver alguém amando, haverá uma nova história para contar.
Enquanto houver saudade, haverá um verso esperando para nascer.
Enquanto houver esperança, haverá poesia.
E enquanto houver um mundo tentando nos convencer de que o ódio é mais forte que o amor, continuarei escrevendo.
Talvez eu não consiga mudar o mundo inteiro.
Mas posso colocar uma pequena palavra de amor dentro dele.
E, às vezes, é assim que a poesia começa:
com alguém que se recusa a deixar o ódio ter a última palavra.
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

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