Eu caminho pela terra como quem atravessa um templo sem paredes.
Recebo o vento como um antigo companheiro, o sol como um mestre silencioso, a chuva como uma bênção que não escolhe a quem tocar.
Não vejo mais você, mas não permito que a ausência diminua a grandeza do mundo.
Há continentes de esperança esperando os passos de quem não desiste.
Há manhãs que ainda desconhecem o meu nome e, mesmo assim, me aguardam.
Eu saúdo os rios que nunca recusam seu destino, as árvores que suportam os invernos sem abandonar suas raízes, os pássaros que rasgam o céu sem perguntar onde termina o horizonte.
Neles encontro uma antiga lição: viver é seguir adiante.
Também sou parte dessa marcha.
Também sou uma voz entre milhares de vozes que atravessam os séculos.
Também pertenço ao imenso coro da existência.
Não lamento o amor que não permaneceu ao meu lado.
Eu o recolho como quem recolhe uma estrela caída sobre a memória.
Nada do que foi verdadeiro desaparece completamente.
Transforma-se em seiva, em luz, em silêncio, em coragem para a próxima jornada.
O coração amadurece quando compreende que possuir nunca foi a finalidade do amor.
Eu abraço os desconhecidos que cruzam meu caminho, os trabalhadores que despertam antes do amanhecer, as crianças que inventam futuros, os velhos que carregam bibliotecas invisíveis no olhar.
Em cada rosto reconheço uma batalha, uma esperança, um universo inteiro.
Nenhum ser humano caminha sozinho quando aprende a enxergar a humanidade no outro.
Somos poeira das mesmas estradas e viajantes do mesmo mistério.
Somos muitos, e ainda assim compartilhamos o mesmo céu.
E quando meus passos finalmente se confundirem com a poeira dos caminhos, que não se diga que fui vencido pela ausência.
Que se diga apenas que caminhei de peito aberto diante do tempo, que celebrei a beleza mesmo entre as perdas, que acolhi a dor sem transformá-la em prisão.
Porque a vida não pertence aos que jamais caem, mas aos que continuam avançando.
E enquanto houver um único horizonte diante de mim, seguirei cantando a terra, os homens, o amor e o infinito.
Esse será o meu testemunho diante da eternidade.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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