Há noites que terminam quando o sol nasce e há outras que permanecem dentro da gente por muitos anos, como se a madrugada tivesse recusado o amanhecer. A noite em que conheci aquela jovem pertence à segunda espécie. Eu tinha cinquenta anos, idade em que um homem começa a perceber que já viveu histórias suficientes para preencher alguns livros, mas ainda conserva dentro de si uma quantidade inquietante de perguntas. Era escritor havia décadas, embora ainda carregasse a sensação de estar começando. Acredito que todo escritor verdadeiro tenha essa impressão: cada livro publicado encerra uma história, mas abre dez outras portas. Naquela noite, eu caminhava sem destino muito definido pelas ruas antigas da cidade, depois de passar algumas horas escrevendo em um pequeno caderno que costumava levar comigo. Gostava de caminhar depois de escrever. Dizia a mim mesmo que era uma maneira de deixar as palavras descansarem enquanto eu procurava outras.
A praça estava quase vazia, iluminada por alguns postes cuja luz amarelada fazia as sombras das árvores parecerem personagens de uma história antiga. Sentei-me em um banco e fiquei observando o movimento distante das pessoas, os ruídos ocasionais dos automóveis e a presença silenciosa do rio, que naquela hora parecia carregar consigo não apenas água, mas também memórias. Foi então que percebi a jovem sentada alguns metros adiante, segurando um livro aberto sobre os joelhos. Ela lia com uma atenção tão absoluta que parecia ter esquecido o lugar onde estava. De vez em quando levantava os olhos, contemplava a praça e voltava às páginas. Havia alguma coisa naquela cena que me chamou atenção. Talvez porque eu sempre tivesse acreditado que um leitor, quando lê verdadeiramente, desaparece por alguns instantes do mundo para viver em outro. E aquela jovem havia desaparecido. Quando finalmente fechou o livro, percebeu que eu a observava e sorriu discretamente. Não foi um sorriso de intimidade, mas de reconhecimento, como se já nos conhecêssemos de algum lugar que nenhum dos dois conseguia recordar. Ela perguntou se eu era escritor. A pergunta me surpreendeu. Respondi que sim, embora imediatamente tenha acrescentado que talvez fosse mais correto dizer que eu tentava ser escritor todos os dias. Ela riu e disse que havia lido algumas coisas minhas. Perguntei quais. Ela mencionou personagens, histórias e lugares que eu mesmo quase havia esquecido. Naquele instante compreendi uma coisa estranha: às vezes escrevemos para guardar nossas lembranças, mas são os leitores que acabam guardando aquilo que nós mesmos abandonamos pelo caminho.
A conversa daquela noite deveria ter terminado ali. Uma apresentação, algumas palavras sobre livros, uma despedida e cada um seguiria seu caminho. Mas certas histórias começam justamente quando tudo parece estar terminando. A jovem perguntou por que eu estava sozinho na praça tão tarde. Respondi que procurava uma história. Ela fechou o livro e disse que histórias não costumam ser encontradas quando procuradas; geralmente aparecem quando menos esperamos. Achei a observação pretensiosa para alguém tão jovem, mas gostei dela. Perguntei onde havia aprendido aquilo. Ela respondeu que tinha aprendido nos livros. Comecei a rir e perguntei se ela acreditava mesmo que os livros ensinavam tudo. Ela ficou alguns segundos em silêncio antes de responder: “Não. Mas ensinam a fazer perguntas melhores.” Aquela frase ficou comigo. Talvez porque eu tivesse passado cinquenta anos tentando encontrar respostas quando, na verdade, a literatura sempre havia me conduzido na direção contrária.
Perguntei seu nome. Ela disse apenas que preferia que eu o descobrisse mais tarde, pois alguns nomes, segundo ela, deveriam aparecer somente quando a história estivesse preparada para recebê-los. Pensei que estava diante de uma leitora excessivamente imaginativa. Hoje, olhando para trás, percebo que eu estava diante de alguém que compreendia a literatura de uma maneira que eu havia esquecido. Levantamo-nos do banco e começamos a caminhar pela praça. Não havia qualquer plano. Ela queria conhecer o escritor que havia encontrado por acaso; eu queria compreender por que aquela desconhecida parecia conhecer tanto das minhas histórias. Caminhamos até a parte mais antiga da praça, onde algumas construções preservavam sinais de outras épocas. Ela apontava detalhes que eu nunca havia percebido: uma janela fechada havia décadas, uma inscrição quase apagada em uma parede, uma árvore cuja forma parecia acompanhar a arquitetura de uma casa abandonada. Em determinado momento, parou diante de uma antiga construção e perguntou se eu conhecia a história daquele lugar. Respondi que não. Ela sorriu. “Então nossa primeira aventura começa aqui.” Eu deveria ter percebido naquele instante que aquela noite não seria como as outras.
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário