Existe uma terra de trevas que antecede toda aurora. Não porque a escuridão seja boa, mas porque ela revela as feridas que a luz ainda não alcançou.
Os chacinados pelos anjos caídos da modernidade não jazem apenas nos campos de batalha. Caminham pelas ruas, habitam escritórios, escolas e casas. São os esquecidos, os reduzidos a números, os que tiveram seus sonhos esmagados pelas engrenagens da pressa e da indiferença.
Os anjos caídos da modernidade não possuem asas negras nem espadas de fogo. Vestem-se de consumo sem limites, de vaidade transformada em virtude, de tecnologia sem sabedoria e de progresso sem compaixão.
Mas nenhuma noite é eterna. A terra das trevas é necessária ao amanhecer porque nela germinam as sementes da consciência. É no solo escuro da dor que muitos descobrem o valor da solidariedade, da memória e da esperança.
Os que foram feridos pela noite tornam-se, por vezes, os primeiros a reconhecer a chegada da manhã. Seus olhos aprendem a distinguir a mais tênue centelha de luz.
O verdadeiro amanhecer não é a vitória de um mundo sobre outro, mas o instante em que os sobreviventes das sombras decidem reconstruir a dignidade humana pedra por pedra, palavra por palavra, gesto por gesto.
E então, quando os anjos caídos da modernidade forem apenas ruínas de antigas ilusões, os chacinados da história erguer-se-ão como testemunhas de que a luz não nasce apesar da escuridão, mas atravessando-a.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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