Tenho um desejo, uma vontade imensa de escrever, de transformar sentimentos em palavras e pensamentos em poesia. Entretanto, quando me sento diante da página em branco, esperando que a inspiração me visite, eis que surge uma letargia gostosa, uma espécie de preguiça da alma que embala a imaginação e me convida a permanecer em silêncio.
É como se as palavras estivessem ali, escondidas nos recantos da mente, mas preferissem não despertar. Os pensamentos passeiam devagar, sem compromisso com a realidade, enquanto a vontade de criar se deita numa rede invisível, contemplando o tempo passar.
Quem sabe a inspiração também precise descansar. Talvez nem todo silêncio seja vazio, nem toda demora represente ausência de criatividade. Há momentos em que a imaginação, cansada de produzir sentidos para o mundo, deseja apenas existir sem a obrigação de transformar tudo em versos.
E assim permaneço, dividido entre o desejo de escrever e o prazer de não fazer nada. Quero criar, mas também quero desfrutar dessa doce inércia, desse estado em que as ideias flutuam sem destino e a alma se permite o luxo de não chegar a lugar algum.
No fundo, a poesia está acontecendo justamente agora. Afinal, existe uma estranha beleza nessa contradição: querer escrever sobre a vida enquanto se descansa dela, desejar a inspiração enquanto se desfruta da sua ausência. E quem sabe, quando eu finalmente abandonar a esperança de escrever alguma coisa, as palavras despertem, espreguicem-se dentro de mim e comecem a dançar sobre o papel.
Porque a imaginação, às vezes, é como um gato preguiçoso: quanto mais tentamos chamá-la, mais ela se acomoda. Mas, quando nos distraímos, ela se levanta silenciosamente e deixa aos nossos pés o presente inesperado de um poema.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense









