Há um momento em que compreendemos que a vida não interrompe sua marcha por causa de nossas perdas. O sol continua surgindo no horizonte, os rios seguem seu curso, as árvores renovam suas folhas e as cidades despertam com a mesma pressa de sempre. Apenas nós caminhamos mais devagar, tentando compreender por que a ausência de uma única pessoa parece alterar a dimensão do universo.
Durante muito tempo acreditei que esquecer era uma obrigação. Pensava que a maturidade consistia em apagar lembranças, fechar portas e transformar antigos afetos em páginas definitivamente encerradas. Com o passar dos anos, descobri que a memória não foi criada para aprisionar, mas para revelar quem nos tornamos. As pessoas que passaram por nossa vida continuam existindo em nós, não como sombras que impedem o futuro, mas como raízes invisíveis que sustentam aquilo que hoje somos.
Não vejo mais você. Essa é uma verdade simples, quase cotidiana. No entanto, há dias em que sua lembrança atravessa o pensamento com a naturalidade do vento atravessando uma janela aberta. Não a recebo com revolta, nem com esperança de que o passado volte a existir. Apenas a observo. Algumas memórias não pedem para ser expulsas; pedem apenas um lugar silencioso onde possam descansar sem governar nossa existência.
Foi a natureza que me ensinou essa serenidade. As montanhas não lamentam a neve que derrete. Os rios não procuram a água que já passou por suas margens. As estrelas não disputam espaço com a noite. Tudo aceita a transformação como parte da própria ordem do universo. Apenas o ser humano insiste em lutar contra aquilo que não pode modificar. Talvez seja essa a origem de boa parte do sofrimento.
Compreendi, então, que viver não consiste em recuperar o que foi perdido, mas em descobrir novos significados para aquilo que permanece. Continuo caminhando pelas mesmas estradas, respirando o mesmo ar e contemplando o mesmo céu. A diferença é que agora não espero que o mundo devolva aquilo que o tempo levou. Em vez disso, procuro enxergar a beleza que ainda insiste em nascer diante dos meus olhos.
Há uma grandeza escondida nas pessoas comuns. Vejo-a no trabalhador que começa o dia antes do amanhecer, na mãe que enfrenta o cansaço para cuidar dos filhos, no idoso que sorri enquanto contempla o fim da tarde, na criança que acredita que o amanhã sempre reserva uma descoberta. Cada um carrega ausências, derrotas e cicatrizes invisíveis. Ainda assim, continuam vivendo. Há um heroísmo silencioso em simplesmente continuar.
Hoje percebo que a existência não exige de nós a vitória sobre todas as dores. Ela pede apenas fidelidade ao caminho. Nem todo amor permanece, nem toda esperança se realiza, nem todo sonho encontra abrigo na realidade. Ainda assim, a vida continua oferecendo manhãs inéditas, encontros inesperados e horizontes que nenhum sofrimento consegue apagar.
Se algum dia eu voltar a encontrar você, talvez apenas sorria. Não porque a memória tenha desaparecido, mas porque ela encontrou o seu lugar. E, se esse reencontro nunca acontecer, também haverá paz. Afinal, compreendi que algumas pessoas caminham conosco por toda a vida, mesmo quando seus passos já não podem ser vistos. Elas permanecem não para impedir nossa jornada, mas para recordar que amar também é aceitar a liberdade do tempo.
Enquanto houver um horizonte diante de mim, continuarei caminhando. Não para procurar o que ficou para trás, mas para honrar tudo o que vivi. Porque a verdadeira grandeza da existência não está em conservar todas as presenças, e sim em seguir adiante sem perder a capacidade de admirar o mundo, de acolher a memória e de reconhecer que cada novo amanhecer continua sendo um convite para recomeçar.
Prosa: Odair José, Poeta Cacerense









