Há lembranças que envelhecem conosco. Não ficam presas aos anos em que aconteceram; caminham ao nosso lado, silenciosas, esperando apenas um cheiro, uma imagem ou uma palavra para voltarem à vida. Comigo é assim quando vejo uma velha revista em quadrinhos. Basta encontrar uma capa amarelada do Homem-Aranha, do Superman ou de Conan para que eu volte imediatamente aos anos oitenta, quando descobri um universo que parecia muito maior do que a pequena cidade onde eu vivia.
Naquele tempo, uma revista em quadrinhos não era apenas papel impresso. Era uma passagem secreta. Bastava abrir suas páginas para abandonar as ruas de terra, os dias comuns e as preocupações de um adolescente. Eu viajava para Nova York, acompanhando Peter Parker em sua eterna luta para conciliar a vida simples com a responsabilidade de ser o Homem-Aranha. Voava ao lado do Superman sobre Metrópolis, acreditando que sempre existiria alguém disposto a defender os fracos e enfrentar a injustiça. E, quando queria fugir completamente da realidade, seguia Conan pelas terras da Era Hiboriana, onde coragem, espada e determinação pareciam suficientes para desafiar qualquer destino.
Também havia espaço para Hulk, Capitão América, Mandrake, Fantasma, Akim e tantos outros heróis que alimentavam minha imaginação. Cada um carregava uma maneira diferente de enfrentar o mundo. Uns venciam pela força, outros pela inteligência, outros pela honra. Sem perceber, eu aprendia valores escondidos entre balões de fala e desenhos coloridos.
Mas, dentro de casa, aquelas revistas não eram vistas da mesma forma.
Meu pai era um homem profundamente religioso. Sua fé orientava a vida da família, e tudo aquilo que lhe parecesse afastar os filhos dos caminhos de Deus despertava sua preocupação. Para ele, aqueles personagens mascarados, feiticeiros, guerreiros e seres de outros mundos eram influências perigosas. Não havia diferença entre fantasia e ameaça espiritual. Em sua compreensão, histórias em quadrinhos eram, simplesmente, coisa do diabo.
Hoje consigo compreender que sua proibição nascia do amor. Ele acreditava sinceramente que estava protegendo seus filhos. Naquele tempo, porém, eu não enxergava assim. Para um adolescente apaixonado por aventuras, aquilo parecia uma sentença injusta. Como poderia haver mal em acompanhar um jovem tímido que arriscava a própria vida para salvar desconhecidos? Como poderia o Superman, símbolo de esperança, representar algum perigo? E Conan... bem, Conan era a própria liberdade desenhada em papel.
Foi então que aprendi uma das primeiras estratégias da adolescência: esconder aquilo que amamos.
As revistas passaram a morar debaixo da minha cama. Era um esconderijo simples, mas que me parecia perfeito. Eu esperava a casa silenciar, retirava cuidadosamente os exemplares e mergulhava naquele mundo onde monstros eram derrotados, cidades eram salvas e heróis sempre encontravam forças para continuar.
Durante algum tempo, pensei que meu segredo estivesse seguro.
Até o dia em que meu pai resolveu fazer uma inspeção inesperada no quarto.
Ainda hoje consigo recordar o instante em que ele puxou aquelas revistas escondidas. Meu coração afundou antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. As capas coloridas, que para mim eram tesouros, transformaram-se em provas de desobediência.
Naquele dia apanhei.
Não foi apenas a dor física que ficou gravada na memória. O que mais doeu foi ver minhas aventuras preferidas sendo tratadas como algo maligno. Parecia que alguém estava castigando justamente o lugar onde minha imaginação aprendia a voar.
O tempo, porém, tem uma estranha habilidade de transformar feridas em compreensão.
Hoje olho para trás sem ressentimento. Meu pai agiu conforme suas convicções. Era um homem de seu tempo, guiado pela fé e pelo desejo sincero de proteger a família. Eu, por outro lado, era apenas um garoto descobrindo que a imaginação também é uma forma de liberdade.
Talvez por isso eu nunca tenha deixado de gostar das histórias em quadrinhos.
Ainda hoje, quando encontro uma boa aventura do Homem-Aranha, sinto a mesma alegria daquele adolescente escondido sob a luz fraca de um quarto. Peter Parker continua sendo um dos personagens mais humanos que conheci. Seus poderes nunca esconderam suas fraquezas. Pelo contrário: ensinaram que coragem não é ausência de medo, mas a decisão de seguir em frente apesar dele.
O Superman continua representando um ideal que parece cada vez mais raro: a escolha consciente de usar a força para servir, e não para dominar. Em um mundo onde tantos confundem poder com violência, ele ainda lembra que a verdadeira grandeza está na compaixão.
E Conan... Conan permanece sendo a lembrança de que a liberdade exige coragem. Ele enfrenta reis, feiticeiros e monstros sem jamais entregar sua própria vontade. Há algo profundamente humano naquele bárbaro criado por Robert E. Howard, talvez porque ele nos recorde que, antes de qualquer civilização, existe a força do caráter.
Às vezes imagino o menino que escondia revistas debaixo da cama olhando para o homem que me tornei. Creio que ele sorriria ao descobrir que a paixão sobreviveu ao tempo. As revistas mudaram, os traços evoluíram, os heróis ganharam novas versões, mas o encantamento continua exatamente o mesmo.
Hoje já não preciso esconder meus quadrinhos. Eles ficam à vista, sem medo de censura ou castigo. Tornaram-se parte da minha biblioteca, ao lado dos livros de História, dos romances, da poesia e da filosofia. Descobri, afinal, que não existe conflito entre amar a literatura e admirar os quadrinhos. Ambos contam histórias. Ambos alimentam a imaginação. Ambos nos ajudam a compreender melhor quem somos.
E, sempre que vejo um velho exemplar do Homem-Aranha, do Superman ou de Conan, sorrio discretamente. Não apenas porque reencontro antigos heróis, mas porque também reencontro aquele garoto dos anos oitenta que, mesmo depois de apanhar por causa de algumas revistas escondidas debaixo da cama, jamais deixou de acreditar no poder transformador de uma boa história.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense












