A fotografia está amarelada pelo tempo, mas ainda resiste. Foi tirada, provavelmente, em 1961, em Patos de Minas, e toda vez que a observo sinto que não é apenas uma imagem, é uma fresta aberta para um mundo que já não existe.
Nela, o carro de boi ocupa quase toda a cena. A madeira pesada, as rodas grandes, o chão de terra seca. Em cima do carro está meu pai (Josuel Marins da Silva, mais conhecido como Zué), ainda menino, com um olhar curioso que mistura orgulho e descoberta. Parece pequeno diante da estrutura, mas há algo nele que já carrega a herança daquele momento, como se soubesse, mesmo sem saber, que estava dentro de uma memória que sobreviveria a todos nós.
Ao lado, no chão, está meu avô (João Marinheiro, de saudosa memória). Ele não olha para a câmera. Seus olhos estão voltados para os bois, como sempre estiveram. A mão repousa próxima à junta do meio, onde estão Figurão e Violão. É como se estivesse em diálogo silencioso com eles, como se a fotografia tivesse capturado não um instante, mas uma relação inteira.
Mais à frente, na guia, aparece meu tio Batista. Ele segura a condução com firmeza, próximo de Cartão e Barão, os bois da frente. Seu corpo inclinado levemente indica atenção, responsabilidade. Não é apenas um ajudante, é alguém aprendendo a conduzir o mundo no ritmo lento e preciso daqueles animais.
E os bois… eles estão todos lá, imóveis, mas vivos no olhar de quem vê.
Na guia, Cartão e Barão, firmes, como dois pilares do caminho.
No pé da guia, Cinturão e Miudão, ajustando a força com equilíbrio.
No meio, próximos ao meu avô, Figurão e Violão, sustentando o peso do trabalho e da história.
Na xaveia, Jeitoso e Melindroso, atentos, quase sensíveis ao ambiente.
E no cabeçalho, fechando o conjunto, Dourado e Ramado, como guardiões silenciosos do que vinha atrás.
A fotografia não tem som, mas eu quase consigo ouvir o ranger do carro. Não tem movimento, mas vejo a poeira subindo devagar. Não tem voz, mas reconheço o chamado baixo do meu avô, falando com os bois como quem fala com velhos amigos. Meu pai sempre fala dele com muito carinho e com uma saudade que é possível ver em seus olhos. Uma admiração muito grande.
O mais curioso é que ninguém sorri na imagem. E, ainda assim, há uma paz profunda ali. Uma paz que não vem da alegria momentânea, mas da pertença — cada um em seu lugar, cumprindo seu papel, ligado ao outro por algo que não se explica.
Meu pai, sobre o carro, talvez não entendesse tudo aquilo. Meu tio Batista, na guia, aprendia. Meu avô, no chão, já sabia.
E os bois… eles simplesmente eram a razão da existência e do orgulho de um camponês.
Hoje, ao olhar essa fotografia, percebo que ela não registra apenas pessoas e animais. Ela guarda um modo de existir. Um tempo em que o mundo não corria, caminhava. Um tempo em que homens e bois dividiam não só o trabalho, mas o silêncio, o cansaço e a dignidade.
A imagem permanece parada.
Mas dentro de mim, ela continua andando.
Registro Histórico: Odair José, Poeta Cacerense











