terça-feira, 14 de abril de 2026

O Carro de Boi de meu Avô

    A fotografia está amarelada pelo tempo, mas ainda resiste. Foi tirada, provavelmente,  em 1961, em Patos de Minas, e toda vez que a observo sinto que não é apenas uma imagem, é uma fresta aberta para um mundo que já não existe. 
 
    Nela, o carro de boi ocupa quase toda a cena. A madeira pesada, as rodas grandes, o chão de terra seca. Em cima do carro está meu pai (Josuel Marins da Silva, mais conhecido como Zué), ainda menino, com um olhar curioso que mistura orgulho e descoberta. Parece pequeno diante da estrutura, mas há algo nele que já carrega a herança daquele momento, como se soubesse, mesmo sem saber, que estava dentro de uma memória que sobreviveria a todos nós. 
 
    Ao lado, no chão, está meu avô (João Marinheiro, de saudosa memória). Ele não olha para a câmera. Seus olhos estão voltados para os bois, como sempre estiveram. A mão repousa próxima à junta do meio, onde estão Figurão e Violão. É como se estivesse em diálogo silencioso com eles, como se a fotografia tivesse capturado não um instante, mas uma relação inteira. 
 
    Mais à frente, na guia, aparece meu tio Batista. Ele segura a condução com firmeza, próximo de Cartão e Barão, os bois da frente. Seu corpo inclinado levemente indica atenção, responsabilidade. Não é apenas um ajudante, é alguém aprendendo a conduzir o mundo no ritmo lento e preciso daqueles animais. 
 
    E os bois… eles estão todos lá, imóveis, mas vivos no olhar de quem vê. 
 
    Na guia, Cartão e Barão, firmes, como dois pilares do caminho. No pé da guia, Cinturão e Miudão, ajustando a força com equilíbrio. No meio, próximos ao meu avô, Figurão e Violão, sustentando o peso do trabalho e da história. Na xaveia, Jeitoso e Melindroso, atentos, quase sensíveis ao ambiente. E no cabeçalho, fechando o conjunto, Dourado e Ramado, como guardiões silenciosos do que vinha atrás. 
 
    A fotografia não tem som, mas eu quase consigo ouvir o ranger do carro. Não tem movimento, mas vejo a poeira subindo devagar. Não tem voz, mas reconheço o chamado baixo do meu avô, falando com os bois como quem fala com velhos amigos. Meu pai sempre fala dele com muito carinho e com uma saudade que é possível ver em seus olhos. Uma admiração muito grande.
 
    O mais curioso é que ninguém sorri na imagem. E, ainda assim, há uma paz profunda ali. Uma paz que não vem da alegria momentânea, mas da pertença — cada um em seu lugar, cumprindo seu papel, ligado ao outro por algo que não se explica. 
 
    Meu pai, sobre o carro, talvez não entendesse tudo aquilo. Meu tio Batista, na guia, aprendia. Meu avô, no chão, já sabia. E os bois… eles simplesmente eram a razão da existência e do orgulho de um camponês.
 
    Hoje, ao olhar essa fotografia, percebo que ela não registra apenas pessoas e animais. Ela guarda um modo de existir. Um tempo em que o mundo não corria, caminhava. Um tempo em que homens e bois dividiam não só o trabalho, mas o silêncio, o cansaço e a dignidade. A imagem permanece parada. Mas dentro de mim, ela continua andando. 
 
Registro Histórico: Odair José, Poeta Cacerense
 
Meu pai hoje (77 anos)

Foto original
 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Eu senti tanto você

    Eu senti muito, e não foi pouco, nem leve, nem passageiro. Foi um sentir que se alojou fundo, como se a despedida tivesse raízes, como se cada instante ao teu lado tivesse aprendido a não ir embora. Doeu com delicadeza, mas doeu com verdade. 
 
    Houve um tempo estranho naquele adeus: enquanto o corpo ainda estava ali, o coração já ensaiava a ausência. Eu já sentia saudade antes mesmo da partida, como quem percebe que algo precioso está prestes a se tornar memória. E talvez seja esse o peso das despedidas sinceras, elas começam antes de acontecer. 
 
    É curioso como a saudade pode nascer do excesso, e não da falta. Eu senti tanto você, tão intensamente, que o vazio já se desenhava no horizonte. Como se o amor, ao atingir seu auge, anunciasse também sua distância. 
 
    E agora, o que ficou não foi apenas a ausência, mas a presença transformada, você ainda existe em mim, mas de outro modo: em silêncio, em lembrança, em pequenas coisas que insistem em te chamar de volta. Porque há despedidas que não encerram, apenas mudam de lugar dentro da gente. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 12 de abril de 2026

A despedida

    A despedida começou antes de existir. Não houve anúncio, nem palavra que a inaugurasse, apenas um silêncio que cresceu entre eles como uma sombra fina, quase imperceptível, mas persistente. Ele percebeu primeiro. Não soube explicar como, mas sentiu. Era como se o tempo tivesse mudado de direção, como se cada gesto dela viesse com um leve atraso, como se algo invisível já estivesse se afastando. 
 
    Naquela tarde, sentados no banco antigo da praça, ela falava sobre coisas simples: o calor, o barulho das ruas, um sonho que tivera na noite anterior. Ele a escutava com atenção, mas dentro de si algo se partia lentamente. Não era tristeza ainda. Era uma espécie de pressentimento, um saber silencioso que não precisava de provas. 
 
    Ele olhava para as mãos dela enquanto ela falava, tentando memorizar a forma como se moviam, como desenhavam o ar. Havia um desejo quase desesperado de guardar tudo. O tom da voz, o jeito de sorrir, até os silêncios. Como se já soubesse que, em breve, tudo isso se tornaria inacessível. 
 
    — Você está quieto — ela disse, de repente. 
 
    Ele sorriu, um sorriso que não chegou inteiro. 
 
    — Estou ouvindo. 
 
    Mas não era verdade. Ele estava se despedindo. 
 
    A conversa seguiu, leve, comum, como tantas outras. E talvez fosse isso o que mais doía: a normalidade. Não havia drama, nem ruptura, nem palavras finais carregadas de significado. Apenas o cotidiano, intacto, enquanto algo essencial se desfazia por dentro. Quando ela se levantou, o gesto pareceu definitivo demais para ser apenas um gesto. 
 
    — Eu preciso ir — disse ela. Simples assim. 
 
    Ele assentiu. Poderia ter perguntado “por quê?”, poderia ter pedido “fica”, poderia ter inventado qualquer razão para prolongar aquele momento. Mas não disse nada. Porque, no fundo, já sabia: não era aquele instante que estava terminando. Era algo maior, algo que já vinha se encerrando há dias, talvez semanas, talvez desde o início. 
 
    Caminharam juntos até a esquina. O mundo seguia igual, carros passando, pessoas conversando, a vida indiferente ao fim que se desenhava ali. Ela o abraçou. E foi nesse abraço que ele entendeu tudo. Não pela intensidade, mas pela delicadeza. Não havia urgência, nem promessa, nem retorno implícito. Era um abraço que não segurava, apenas reconhecia. Como quem aceita, sem resistência, que aquele era o último. E, naquele instante, a saudade nasceu inteira. 
 
    Antes mesmo que ela se afastasse, antes mesmo que seus passos a levassem para longe, ele já sentia falta. Era uma saudade antecipada, quase cruel, como se o coração tivesse corrido à frente do tempo para sofrer primeiro. 
 
    Ela se afastou devagar, olhou uma última vez, sorriu, um sorriso que parecia querer dizer muitas coisas, mas escolheu o silêncio. E então foi. Ele ficou. Mas não ficou como antes. Algo nele a acompanhou, seguiu seus passos invisíveis, dissolveu-se no espaço entre eles. E o que restou foi uma presença estranha, a dela, ainda ali, mas transformada em ausência. 
 
    Os dias passaram. A praça continuou a mesma. O banco ainda estava lá. O mundo não mudou. Mas ele mudou. Ou talvez tenha se revelado. 
 
    Aprendeu que algumas despedidas não acontecem no momento do adeus, mas muito antes, nos pequenos afastamentos, nos silêncios que se alongam, nas palavras que deixam de ser ditas. E aprendeu, sobretudo, que sentir muito é também uma forma de permanecer. Porque, embora ela tivesse partido, embora o tempo tivesse seguido seu curso inevitável, havia algo que não se foi. Aquele instante. Aquele abraço. Aquela saudade que nasceu antes da partida, e que, por isso mesmo, nunca encontrou um fim. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 9 de abril de 2026

A angústia do escritor

    A cidade acordava todos os dias como se nada tivesse acontecido. O sol atravessava as janelas, os carros seguiam seu fluxo, as pessoas cumpriam seus rituais cotidianos. Mas, para ele, cada manhã era um acúmulo, um depósito silencioso de dores que não eram suas, mas que nele encontravam abrigo. Chamava-se Artur, embora já não se reconhecesse muito nesse nome. 
 
    Sentava-se à mesa estreita de madeira, sempre no mesmo horário, como quem obedece a uma espécie de liturgia íntima. Diante dele, folhas em branco. Ao redor, um mundo saturado. Ele fechava os olhos e bastava isso: vinham-lhe imagens como punhais, o homem que dormia na calçada da esquina, a mulher que chorava sozinha no ônibus, a criança de olhar cansado vendendo balas no semáforo. Não eram lembranças exatamente. Eram presenças. Artur não apenas via, ele absorvia. 
 
    Havia dias em que desejava ser comum. Caminhar pelas ruas sem carregar histórias alheias como feridas abertas. Conversar sem sentir o peso invisível por trás de cada palavra dita. Mas não conseguia. Era como se sua pele fosse fina demais, incapaz de conter o mundo do lado de fora. Naquela tarde, enquanto a chuva descia fina sobre os telhados, ele tentou escrever. Segurou a caneta com força, como se dela dependesse sua própria sobrevivência. 
 
    “Hoje eu vi um homem desaparecer em vida”, começou. Parou. A frase lhe pareceu insuficiente. Tudo era sempre insuficiente. Como traduzir o olhar vazio daquele homem? Como capturar o instante exato em que alguém deixa de existir por dentro, mas continua caminhando? Artur sentiu o peito apertar. A respiração falhou por um segundo. 
 
    Levantou-se abruptamente. Foi até a janela. A cidade escorria em cinza. Havia alguém passando sem guarda-chuva, passos rápidos, cabeça baixa. Artur sentiu — não viu, sentiu — que aquela pessoa carregava uma dor imensa. Não sabia qual. Não precisava saber. Bastava-lhe perceber. E isso doía. 
 
    Voltou à mesa. Sentou-se. Pegou novamente a caneta. Desta vez, não tentou ser preciso. Não tentou explicar. Apenas deixou que a dor encontrasse caminho. As palavras começaram a surgir como sangue de uma ferida aberta. Desordenadas, intensas, por vezes incompreensíveis. Ele escrevia e chorava, chorava e escrevia. Não havia distinção entre o que era dele e o que era do mundo. 
 
    Horas se passaram. Quando enfim parou, exausto, olhou para as páginas. Ali estava tudo, ou quase tudo. Não a dor em si, pois essa jamais caberia inteira em palavras, mas sua sombra, seu eco, sua tentativa. Artur encostou-se na cadeira, os olhos ainda úmidos. 
 
    Pela primeira vez em dias, o peso parecia menor. Não porque o mundo tivesse mudado. Nada havia mudado lá fora. A cidade continuava indiferente, as dores continuavam espalhadas, invisíveis para muitos. Mas dentro dele havia agora um espaço. Um pequeno espaço onde a dor, antes sem forma, agora respirava em palavras. 
 
    Era isso que o mantinha vivo, não a ausência do sofrimento, mas a possibilidade de transformá-lo. Naquela noite, antes de dormir, Artur pensou que escrever não era um dom. Era uma necessidade. Uma forma de não se perder completamente dentro de tudo aquilo que ele insistia, ou talvez fosse condenado, a sentir. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 7 de abril de 2026

Do que é feito a poesia?

    A poesia não é feita de palavras, é feita de ausências que encontram voz. 
 
    Há algo de sagrado naquele que vive poeticamente. Não porque escreve versos, mas porque respira o mundo com delicadeza. Enquanto muitos atravessam os dias como quem cumpre um dever, a alma poética se demora: ela escuta o vento como se fosse um conselho antigo, observa a luz como quem decifra um mistério, e recolhe, nos pequenos gestos, a eternidade escondida. 
 
    Viver com poesia é recusar a dureza como única linguagem possível. É insistir na sensibilidade em tempos que pedem pressa. É olhar para a dor e ainda assim enxergar forma, ritmo, sentido, não para negá-la, mas para transformá-la em algo que não seja apenas peso, mas também expressão. 
 
    A arte sublime da poesia não está apenas no verso lapidado, mas no modo como a alma se posiciona diante do mundo. Há poesia no silêncio de quem compreende, no olhar que acolhe, na palavra dita com cuidado. Há poesia em quem sente demais e, ao invés de endurecer, escolhe aprofundar. 
 
    Porque a alma que vive com poesia não é fraca, é vasta. Ela carrega dentro de si uma espécie de infinito íntimo, onde cada emoção ecoa como um universo. E, mesmo quando se quebra, não se reduz: transforma os estilhaços em linguagem, em beleza, em possibilidade. 
 
    A poesia não é um luxo, mas uma forma de resistência. Uma maneira de continuar humano, inteiro, sensível, desperto, num mundo que tantas vezes nos quer apenas funcionais. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O violão

    Seu Francisco nunca confiou em bancos. Dizia que banco era coisa de gente que acreditava demais no mundo, e ele, depois de tanto tempo de vida, só acreditava no que podia tocar. Terra, madeira, ferrugem… e no velho violão pendurado na parede da sala. 
 
    A casa era simples, dessas que rangem mais do que falam. No fim da tarde, quando o sol se derramava pelas frestas das tábuas, o violão parecia respirar junto com o lugar. Ficava ali, suspenso por um prego torto, como um retrato sem rosto. Ninguém ousava tocar. 
 
    Nem a esposa, Dona Alzira, que já o conhecia há mais de quarenta anos, entendia bem aquele apego. Ele não tocava. Não afinava. Não limpava com frequência. Apenas… guardava. 
 
    — Coisa de velho — ela dizia, com o desdém manso de quem já desistiu de entender. 
 
    Mas não era. 
 
    Naquela tarde, Seu Francisco voltou da roça mais cansado que o habitual. O sol tinha sido cruel, o chão duro, e a enxada parecia pesar o dobro. Entrou em casa limpando o suor com a manga da camisa e, por hábito, não por vontade, olhou para a parede. Parou. O prego estava lá. O violão, não. O silêncio da casa mudou de textura. Ficou mais grosso, mais presente. 
 
    — Alzira… — chamou, com a voz baixa. 
 
    Ela apareceu da cozinha, enxugando as mãos no avental. 
 
    — O quê foi? 
 
    Ele apontou. Não precisava dizer mais nada. 
 
    — Ah… isso aí? — disse ela, quase distraída. — Foi o menino. O neto do meio. Levou. 
 
    O tempo não passou. Ele não gritou. Não xingou. Não fez escândalo. Apenas sentou. Devagar. Como se o corpo tivesse decidido desligar antes da cabeça entender. 
 
    — Levou… — repetiu, mais para si do que para ela. 
 
    E então começou a chorar. Não era um choro bonito. Não era desses que emocionam. Era um choro seco, truncado, quase feio. Um choro de quem não tem prática — ou de quem evitou a vida inteira. 
 
    Dona Alzira estranhou. 
 
    — Francisco… pelo amor de Deus… — aproximou-se. — É só um violão velho! 
 
    Ele balançou a cabeça. 
 
    — Não é. 
 
    Ela cruzou os braços. 
 
    — Vai me dizer agora que virou músico e eu não fiquei sabendo? 
 
    Ele soltou um riso curto, quebrado no meio. 
 
    — Eu nunca soube tocar. 
 
    — Então pronto. 
 
    Silêncio. Ele respirou fundo. Olhou para o prego vazio como quem encara uma cova. 
 
    — Tinha dinheiro lá dentro. 
 
    Ela franziu a testa. 
 
    — Que dinheiro? 
 
    — Todo. 
 
    Ela riu. Riu alto. Riu como quem acha que o outro está fazendo uma piada ruim. Mas ele não riu de volta. E isso matou o riso dela no meio. 
 
    — Como assim… todo? 
 
    — Todo, Alzira. O que sobrou dos anos. O que eu não confiei no banco. O que eu escondi do mundo. 
 
    Ela piscou, devagar. 
 
    — Você… guardava dinheiro… dentro de um violão? 
 
    — Dentro da caixa. Tirei as cordas uma vez… fiz um corte por baixo… ninguém vê. 
 
    O silêncio voltou, mais pesado. 
 
    — Quanto? — ela perguntou, agora com a voz seca. 
 
    Ele demorou. 
 
    — O suficiente pra parar de trabalhar. 
 
    Ela sentou. Não por escolha. O corpo também decidiu por ela. Os dois ficaram ali, lado a lado, olhando para o vazio onde antes havia madeira e segredo. 
 
    — O menino… — ela começou — ele nem sabe tocar direito. 
 
    — Melhor ainda — disse Francisco, com um sorriso estranho, quase torto. — Vai descobrir do jeito mais bonito. 
 
    Ela virou o rosto. 
 
    — Bonito? 
 
    Ele assentiu. 
 
    — Imagina… ele abre o violão… esperando som… e encontra silêncio em forma de dinheiro. 
 
    Ela engoliu seco. 
 
    — Ou vende. 
 
    Ele deu de ombros. Conhecia bem a figura do neto.
 
    — Ou vende. 
 
    Pausa. 
 
    — Ou quebra. 
 
    Ele fechou os olhos. 
 
    — Ou quebra. 
 
    E então, para surpresa dela, e talvez dele mesmo, ele riu. 
 
    Um riso baixo. Escuro. Quase confortável. 
 
    — Passei a vida inteira escondendo dinheiro dentro de um instrumento que nunca toquei… — disse ele. — Agora ele vai tocar a vida dele com o que eu escondi da minha. 
 
    Dona Alzira não sabia se aquilo era sabedoria ou cansaço. 
 
    — Você tá bem? — perguntou, desconfiada. 
 
    Ele olhou de novo para o prego. 
 
    — Tô. 
 
    Respirou fundo. 
 
    — Pela primeira vez… eu acho que tô leve. 
 
    Ela não respondeu. Porque, no fundo, havia algo de perturbador naquela leveza. Algo que parecia liberdade… mas também parecia desistência. Naquela noite, a casa dormiu diferente. Mais vazia. Mas, de algum modo estranho… mais honesta. 
 
    Pela primeira vez em muitos anos, Seu Francisco não olhou para a parede antes de dormir. Porque, às vezes, perder o que se guarda é a única forma de descobrir o peso que aquilo tinha. Mesmo que o preço seja alto. Ou… exatamente por isso. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 2 de abril de 2026

As Aventuras de Torto

    José Afonso do Nascimento nunca gostou do próprio nome. Dizia que era longo demais para quem vivia rápido. No quartel, encurtaram sua existência a um som seco e firme: Nascimento! Era assim que os sargentos gritavam, era assim que os colegas o chamavam, era assim que ele se tornava alguém ou talvez deixasse de ser quem era. Até o dia do acidente. 
 
    Ninguém gosta de lembrar exatamente como aconteceu. Nem ele. Nem os outros. Só se sabe que houve um erro, um instante mal calculado, um movimento brusco e depois disso, sua perna nunca mais respondeu da mesma forma. Foi dispensado. Sem cerimônia. Sem honra. Sem explicações longas. 
 
    Voltou para casa com uma marcha irregular e um silêncio que não combinava com ele. Mas o silêncio não durou. Porque José Afonso do Nascimento não nasceu para ser esquecido. Na primeira semana de volta à cidade, já não era mais “Nascimento”. Virou Torto. E o curioso é que não foi um insulto que o destruiu, foi um apelido que ele adotou com orgulho. 
 
    — “Torto anda diferente, mas chega mais longe”, dizia, com um sorriso enviesado e olhar aceso. 
 
    E chegava mesmo. Torto não era apenas um homem que mancava. Era um homem que ocupava espaço. Entrava nos bares como se fosse dono da noite, mesmo sem ter dinheiro para pagar todas as rodadas. Conversava com estranhos como se fossem velhos amigos. Sabia ouvir, sabia rir, sabia contar histórias e, sobretudo, sabia fazer alguém se sentir único por alguns minutos. 
 
    Era isso que atraía as garotas. Não era a beleza, embora fosse esbelto, com aquele tipo de corpo moldado pela disciplina militar. Não era a perfeição, sua caminhada denunciava o contrário. Era o jeito. Torto fazia o mundo parecer menos pesado. 
 
    Numa noite abafada de verão, no bar de Seu Arlindo, foi quando tudo começou de verdade. Ele estava encostado no balcão, girando um copo de cerveja pela metade, quando viu entrar uma mulher que parecia deslocada daquele lugar. Vestido claro, olhar distante, postura de quem carregava mais pensamento do que vontade. Torto percebeu na hora. Ele sempre percebia. Aproximou-se com seu passo irregular, mas firme. 
 
    — “Você tem cara de quem entrou no bar errado… ou na vida errada.” 
 
    Ela levantou os olhos, surpresa. 
 
    — “E você tem cara de quem não devia estar dando opinião.” 
 
    Torto sorriu. Era exatamente o tipo de resposta que ele gostava. 
 
    — “Então senta aqui e me prova que eu tô errado.” 
 
    Ela hesitou. Depois sentou. O nome dela era Helena. E aquela conversa, que começou com ironia, terminou com silêncio compartilhado. Um silêncio bom. Raro. 
 
    Mais tarde, já do lado de fora, sob a luz fraca dos postes, ela perguntou: 
 
    — “Você não se incomoda com o jeito que te chamam?” 
 
    Ele demorou um pouco para responder. Olhou para a própria perna. Depois para a rua vazia. 
 
    — “Já me incomodei. Hoje não mais.” 
 
    — “Por quê?” 
 
    — “Porque o mundo tenta te reduzir a alguma coisa… e quando você aceita, vira dono disso. E eu nunca quis ser moldado por quem quer que seja.” 
 
    Ela o observou como quem tenta entender algo maior. 
 
    — “Então você é o quê?” 
 
    Torto deu de ombros, com leveza. 
 
    — “Sou o cara que quase quebrou… e resolveu não ficar quebrado.” 
 
    Naquela noite, Helena não foi embora sozinha. E Torto percebeu que sua vida, que já era cheia de encontros, começava a se transformar em algo mais complexo. Porque algumas pessoas não passam. Elas ficam. Mesmo quando vão embora. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 28 de março de 2026

A verdade indomável

    A imaginação não é uma faculdade dócil, é uma presença. Não nasce conosco como ferramenta, mas como força, dessas que atravessam o corpo sem pedir licença. Há dias em que ela repousa, quase domesticada, permitindo ao poeta acreditar que escreve por vontade própria. Mas há noites em que ela se levanta, inquieta, e percorre os corredores internos com passos que não se podem ignorar. 
 
    É então que o pensamento deixa de ser território seguro. As ideias não vêm, invadem. E o poeta, que antes julgava escolher palavras, passa a ser escolhido por elas. Há algo de vertiginoso nisso: perceber que a criação talvez não seja um ato de domínio, mas de rendição. Como se escrever fosse abrir uma porta que não se sabe fechar. 
 
    Nesse estado, a imaginação revela sua natureza mais selvagem. Ela não respeita limites morais, nem fronteiras lógicas. Mistura tempos, rompe identidades, dissolve certezas. O poeta sente-se expandido e ameaçado ao mesmo tempo, como se estivesse crescendo para além de si, mas também se perdendo no processo. 
 
    Sendo assim surge a pergunta inevitável: até onde isso vai? Até quando se aguenta ser atravessado por algo que não se controla? Porque há um custo. Sempre há. Cada imagem arrancada do escuro traz consigo um fragmento de quem a escreveu. Cada metáfora carrega um desgaste silencioso. 
 
    E quando se pensa nisso é possível perceber que há algo que impede o recuo. Talvez seja porque, no fundo, o poeta reconhece naquela força uma espécie de verdade, uma verdade bruta, indomável, que não poderia existir de outra forma. A imaginação, com toda sua violência e beleza, não é apenas um risco: é também uma revelação. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 18 de março de 2026

O esconderijo de Sabino

    Depois da derrota da revolta conhecida como Sabinada, o médico e líder rebelde Sabino Vieira foi capturado e condenado ao exílio em terras distantes do Império. 
 
    O destino escolhido pelo governo imperial parecia adequado para enterrar uma rebelião: o vasto e silencioso Mato Grosso. Era um território imenso, de rios lentos, matas profundas e vilas que pareciam esquecidas pelo tempo. Ali, acreditavam os governantes, a chama da revolta morreria. Mas as ideias raramente morrem com facilidade. 
 
    Sabino chegou depois de uma longa viagem pelos rios que cortavam o interior do Brasil. O calor era pesado e a paisagem diferente de tudo que conhecera na Bahia. Rios largos como mares. Planícies inundadas. No horizonte, o começo do Pantanal. 
 
    Os soldados que o escoltavam acreditavam estar trazendo apenas um prisioneiro político. Mas os moradores das pequenas vilas logo perceberam outra coisa: aquele homem falava de liberdade como se fosse uma febre. 
 
    Alguns anos depois, Sabino conseguiu abrigo em uma fazenda distante, conhecida pelos viajantes como Fazenda Jacobina, uma propriedade isolada entre campos alagados e matas retorcidas. Dizia-se que ali ninguém fazia perguntas. A casa era simples, de madeira escurecida pelo tempo. À noite, o silêncio era quebrado apenas pelo canto distante dos pássaros do brejo e pelo sopro do vento sobre os campos. 
 
    Sabino passava horas olhando o horizonte. Às vezes escrevia. Às vezes apenas pensava. Um jovem peão da fazenda, chamado Bento, certa vez perguntou: 
 
    — O senhor lutou contra o imperador mesmo? 
 
    Sabino sorriu, cansado. 
 
    — Não lutei contra um homem — respondeu. — Lutei contra o medo que faz os homens aceitarem qualquer governo. 
 
    Bento não entendeu completamente. Mas nunca esqueceu. 
 
    Com o tempo, Sabino começou a contar histórias nas noites da fazenda. Falava das ruas agitadas de Salvador, dos discursos inflamados, da esperança de uma república baiana. Os peões escutavam em silêncio. Para eles, a política do Império era distante. Mas aquelas palavras, liberdade, escolha, povo, tinham um peso estranho, como se fossem sementes. E sementes gostam de terra nova. 
 
    Dizem que Sabino tinha um hábito curioso. Todos os fins de tarde caminhava até a margem de um rio que corria perto da fazenda. Ficava ali parado, olhando a correnteza. Bento perguntou uma vez: 
 
    — O que o senhor vê no rio? 
 
    Sabino respondeu: 
 
    — O tempo. 
 
    — Como assim? 
 
    — Ele passa e nunca volta. Por isso precisamos decidir que tipo de mundo deixamos quando ele passa por nós. 
 
    Com os anos, Sabino envelheceu naquele pedaço esquecido do Império. Alguns dizem que morreu ali. Outros juram que um dia simplesmente partiu pelo rio, numa pequena canoa, desaparecendo entre as curvas das águas. 
 
    Nas fazendas antigas do interior de Mato Grosso ainda existe uma história contada nas noites de fogueira: A de um médico rebelde que chegou como prisioneiro… e acabou deixando ideias mais perigosas que qualquer revolta. Porque armas podem ser confiscadas. Mas ideias, não. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 15 de março de 2026

O Monstro do Pântano

    Na época da cheia, quando o Rio Paraguai cresce e invade as margens como um animal antigo retomando o que é seu, muitas pequenas ilhas surgem e desaparecem ao redor de Cáceres. Uma delas é a Baía do Malheiros. 
 
    Na maior parte do ano, ela não passa de um pedaço de terra esquecido, cercado de árvores tortas e raízes mergulhadas na água barrenta. Mas quando as águas sobem, a ilha parece se desprender do mundo, um lugar cercado de silêncio, onde o vento sopra devagar e o céu parece mais pesado. Foi numa dessas cheias que começaram as histórias. Os pescadores foram os primeiros a comentar. 
 
    Um deles, velho Januário, jurou ter visto algo caminhando na ilha numa madrugada. Disse que era um homem — ou algo parecido com um homem — parado entre as árvores. Imóvel. Observando o rio. 
 
    — Tinha o corpo coberto de lama... e os olhos brilhavam no escuro, contou ele na venda da esquina. 
 
    Os outros riram. 
 
    Mas três dias depois outro pescador voltou assustado. Ele havia passado pela baía antes do nascer do sol e viu pegadas enormes na lama da margem. Pegadas humanas… mas largas demais, profundas demais. E levavam da água para dentro da ilha. Nunca o contrário. 
 
    Com o passar das semanas, surgiram mais relatos. Um barqueiro disse ter ouvido alguém respirando forte entre as árvores. Uma mulher afirmou ter visto uma silhueta enorme parada na água até a cintura. Um rapaz jurou que algo nadou ao lado de sua canoa sem fazer barulho. E todos começaram a falar da mesma coisa. 
 
    O Monstro do Pântano. 
 
    Diziam que ele aparecia apenas na cheia. Que vinha do fundo do Pantanal, carregado pelas águas. Alguns diziam que era um homem que havia se perdido anos atrás e enlouquecido na solidão da ilha. Outros diziam que era algo mais antigo. Algo que já vivia ali muito antes de existirem cidades, estradas ou barcos. 
 
    Numa noite de lua fraca, dois jovens decidiram provar que tudo era mentira. Pegaram uma canoa e atravessaram até a Baía do Malheiros. A água estava quieta. Silenciosa demais. 
 
    Eles amarraram a canoa em um galho e caminharam pela lama da ilha com lanternas tremendo nas mãos. A luz revelava troncos retorcidos, raízes grossas e sombras que pareciam se mover. Então ouviram algo. Um som pesado. Respiração. Lenta. Profunda. Como se o próprio pântano estivesse vivo. As lanternas se voltaram para uma clareira. E lá estava ele. 
 
    Um homem enorme, coberto de barro escuro, com os cabelos longos grudados ao rosto. Seu corpo parecia misturado à vegetação, como se a lama fosse sua pele. Os olhos refletiam a luz. Amarelos. Antigos. Ele não atacou. Não correu. Apenas olhou. Como quem observa visitantes em um território que não lhes pertence. 
 
    Os rapazes fugiram sem olhar para trás. 
 
    No dia seguinte, ninguém acreditou na história. Mas naquele mesmo dia as águas começaram a baixar. E a ilha ficou novamente silenciosa. Sem pegadas. Sem sombras. Sem monstros. Até a próxima cheia. 
 
    Porque alguns pescadores ainda dizem que, quando a água sobe e a neblina cobre a Baía do Malheiros, é possível ver uma figura parada entre as árvores. Imóvel. Observando o rio. Esperando. Como se fosse o verdadeiro dono daquele pedaço esquecido do mundo. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense