A cidade acordava todos os dias como se nada tivesse acontecido. O sol atravessava as janelas, os carros seguiam seu fluxo, as pessoas cumpriam seus rituais cotidianos. Mas, para ele, cada manhã era um acúmulo, um depósito silencioso de dores que não eram suas, mas que nele encontravam abrigo.
Chamava-se Artur, embora já não se reconhecesse muito nesse nome.
Sentava-se à mesa estreita de madeira, sempre no mesmo horário, como quem obedece a uma espécie de liturgia íntima. Diante dele, folhas em branco. Ao redor, um mundo saturado. Ele fechava os olhos e bastava isso: vinham-lhe imagens como punhais, o homem que dormia na calçada da esquina, a mulher que chorava sozinha no ônibus, a criança de olhar cansado vendendo balas no semáforo. Não eram lembranças exatamente. Eram presenças.
Artur não apenas via, ele absorvia.
Havia dias em que desejava ser comum. Caminhar pelas ruas sem carregar histórias alheias como feridas abertas. Conversar sem sentir o peso invisível por trás de cada palavra dita. Mas não conseguia. Era como se sua pele fosse fina demais, incapaz de conter o mundo do lado de fora.
Naquela tarde, enquanto a chuva descia fina sobre os telhados, ele tentou escrever. Segurou a caneta com força, como se dela dependesse sua própria sobrevivência.
“Hoje eu vi um homem desaparecer em vida”, começou.
Parou. A frase lhe pareceu insuficiente. Tudo era sempre insuficiente. Como traduzir o olhar vazio daquele homem? Como capturar o instante exato em que alguém deixa de existir por dentro, mas continua caminhando? Artur sentiu o peito apertar. A respiração falhou por um segundo.
Levantou-se abruptamente.
Foi até a janela. A cidade escorria em cinza. Havia alguém passando sem guarda-chuva, passos rápidos, cabeça baixa. Artur sentiu — não viu, sentiu — que aquela pessoa carregava uma dor imensa. Não sabia qual. Não precisava saber. Bastava-lhe perceber.
E isso doía.
Voltou à mesa. Sentou-se. Pegou novamente a caneta.
Desta vez, não tentou ser preciso. Não tentou explicar. Apenas deixou que a dor encontrasse caminho.
As palavras começaram a surgir como sangue de uma ferida aberta. Desordenadas, intensas, por vezes incompreensíveis. Ele escrevia e chorava, chorava e escrevia. Não havia distinção entre o que era dele e o que era do mundo.
Horas se passaram.
Quando enfim parou, exausto, olhou para as páginas. Ali estava tudo, ou quase tudo. Não a dor em si, pois essa jamais caberia inteira em palavras, mas sua sombra, seu eco, sua tentativa.
Artur encostou-se na cadeira, os olhos ainda úmidos.
Pela primeira vez em dias, o peso parecia menor.
Não porque o mundo tivesse mudado. Nada havia mudado lá fora. A cidade continuava indiferente, as dores continuavam espalhadas, invisíveis para muitos.
Mas dentro dele havia agora um espaço.
Um pequeno espaço onde a dor, antes sem forma, agora respirava em palavras.
Era isso que o mantinha vivo, não a ausência do sofrimento, mas a possibilidade de transformá-lo.
Naquela noite, antes de dormir, Artur pensou que escrever não era um dom.
Era uma necessidade.
Uma forma de não se perder completamente dentro de tudo aquilo que ele insistia, ou talvez fosse condenado, a sentir.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense









