sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Na solidão da noite

    Tem noites em que os pensamentos caminham como sombras pelos corredores da alma. Tudo silencia ao redor, mas dentro do peito há um ruído constante: lembranças, ausências e perguntas que nunca encontram descanso. A solidão não é apenas estar só; é sentir a distância de alguém como se o mundo tivesse perdido parte de sua luz. 
 
    Viver longe de você é como habitar uma estrada sem placas. Os dias seguem, as horas passam, as pessoas falam, mas existe uma parte de mim que permanece parada no instante da despedida. E então os pensamentos retornam à noite, quando não há distrações suficientes para impedir o coração de procurar você em cada memória. 
 
    Às vezes me pergunto se o sentido da vida nasce justamente dessa busca. Talvez amar alguém seja aceitar carregar uma ausência que nos transforma lentamente. Porque quem sente profundamente nunca volta a ser inteiro depois da distância; torna-se uma mistura de esperança e saudade. 
 
    Há noites em que penso que viver é apenas resistir ao vazio. Em outras, acredito que o sentido esteja no próprio amor que permanece, mesmo sem presença, mesmo sem toque. Como uma chama pequena que insiste em sobreviver dentro da escuridão. 
 
    E enquanto a madrugada atravessa a janela e cobre tudo de silêncio, continuo procurando respostas no eco do seu nome. Penso que o sentido de viver longe de você seja não deixar morrer aquilo que um dia fez meu coração acreditar que existia eternidade dentro de um abraço. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Assim falou um bugre cacerense

    Quando a cidade completou seus 248 anos, caiu uma chuva torrencial na cidade. Sentado às margens do Rio Paraguai, o Pensador, que não se importava de ser chamado de Bugre Cacerense, observava os pingos de chuva que ainda caia sobre as águas. Observou, também, que parte das obras da Orla estava bem comprometida. O tempo prometia fazer frio, coisa que os bugres não gostavam muito. Estava absorto em suas contemplações que nem notou a jovem garota que parou ao seu lado e pegou o celular para tirar algumas fotos. 
 
    - O que você pensa sobre Cáceres? - Ela perguntou-lhe. 
 
    Ele olhou para ela. Não respondeu de imediato. Deu um leve sorriso e, então, assim falou: 
 
    1. Cáceres não é apenas uma cidade no mapa; é uma memória que aprendeu a morar entre o rio e o tempo. 
    2. Quem contempla o pôr do sol no Rio Paraguai percebe que o passado também sabe se despedir sem desaparecer. 
    3. O Rio Paraguai não atravessa Cáceres; é Cáceres que, há séculos, aprende a atravessar o rio. 
    4. Toda cidade possui ruas; Cáceres possui caminhos que conduzem à memória. 
    5. Há cidades que guardam monumentos. Cáceres guarda histórias dentro dos monumentos. 
    6. O Marco do Jauru não é apenas pedra: é a permanência de um passado que se recusa a ser esquecido. 
    7. Nas antigas casas de Cáceres, o tempo não envelheceu; apenas mudou de voz. 
    8. Uma cidade bicentenária não conta somente os anos que passaram, mas também os sonhos que sobreviveram a eles. 
    9. Cáceres possui duas geografias: a que se vê nos mapas e aquela que existe na imaginação de seus habitantes. 
    10. Toda lenda nasce quando a realidade já não consegue explicar completamente aquilo que o coração deseja compreender. 
    11. O Minhocão vive menos nas águas do Pantanal do que na necessidade humana de transformar o desconhecido em narrativa. 
    12. Os mistérios de Cáceres talvez não estejam escondidos; talvez sejamos nós que ainda não aprendemos a enxergá-los. 
 
    Quando ele fez uma pausa a garota olhou firmemente para ele e sorriu. 
 
    - Poxa vida! Nunca tinha parado para pensar dessa forma. 
 
    O vento frio batia em seus rostos e espalhava os cabelos da jovem. Um barco descia lentamente pelas águas. 
 
    - E o que você pensa sobre os casarões antigos de Cáceres? - Ela perguntou. 
 
    Ele fez uma breve pausa, como se aguardasse uma autorização divina e, então, assim falou: 
 
    1. Os casarões antigos de Cáceres são livros de pedra cujas páginas ainda permanecem abertas ao tempo. 
    2. Uma casa antiga não envelhece quando conserva a capacidade de despertar memórias. 
    3. Nas paredes dos casarões, o tempo não passou em silêncio: deixou marcas, sombras e histórias. 
    4. Cada janela antiga parece guardar o olhar de alguém que um dia contemplou a mesma rua. 
    5. As portas dos casarões se abrem para o presente, mas suas dobradiças pertencem ao passado. 
    6. Há casas que abrigam pessoas; os casarões históricos abrigam gerações. 
 
    A moça olhou para ele e não escondeu a sua admiração por tanta sabedoria. 
 
    - Meu Deus! Eu nunca parei para pensar dessa forma. Só conseguia ver ruínas e feiura, mas você me faz enxergar uma outra coisa. 
 
    - O tempo, minha querida, o tempo nos trás novas perspectivas. 
 
    Ficaram por um breve momento em silêncio apenas contemplando as águas, o verde da pequena Baia e as nuvens carregadas que prometiam mais chuva. 
 
    - E o que você pensa sobre o povo cacerense? - Perguntou a jovem. 
 
    Ele deu um leve sorriso. Seu semblante era de uma nostalgia pura. Respirou fundo, olhou para a jovem e assim falou: 
 
    1. O povo cacerense é como o Rio Paraguai: carrega histórias de muitos lugares, mas conserva uma identidade própria. 
    2. Uma cidade pode ser construída com pedras; uma comunidade é construída com pessoas, afetos e memórias. 
    3. Ser cacerense é carregar Cáceres não apenas no lugar onde se vive, mas no modo de lembrar, contar e sentir. 
    4. O povo de Cáceres aprendeu com o rio que a vida é movimento, mas também aprendeu com a história que toda correnteza deixa marcas. 
    5. Há uma hospitalidade que não se ensina nos livros: nasce do encontro entre pessoas, e em Cáceres ela encontra sua própria maneira de existir. 
    6. O cacerense transforma lembrança em conversa, conversa em história e história em identidade. 
    7. Toda cidade possui habitantes; algumas possuem um povo que se reconhece nas próprias histórias. 
    8. O povo cacerense não vive somente entre ruas e bairros; vive também entre lendas, festas, costumes e lembranças. 
 
    - Nossa! - Ela suspirou fundo não escondendo a sua emoção - Você me faz ver as coisas de outra forma. Nunca tinha percebido o povo cacerense desse jeito. 
 
    - Temos várias formas de ver o mundo - disse ele calmamente - uns tem sempre uma visão pessimista do mundo e do lugar onde mora ou vive, outros tem uma visão otimista. Nem uma das duas visões estão certas e erradas ao mesmo tempo. O certo é termos uma visão mais realista e reflexiva. Isso nos ajuda a entender o mundo a nossa volta e o nosso lugar nesse mundo. 
 
    Ela sorriu. Tinha uma beleza natural nos olhos. 
 
    - Posso te fazer uma última pergunta? 
 
    Ele assentiu com a cabeça. 
 
    - O que você pensa sobre o futuro de Cáceres? 
 
    Fez uma breve pausa, olhou para o horizonte e assim falou: 
 
    1. O futuro de Cáceres não será encontrado no horizonte; será construído pelas escolhas feitas no presente. 
    2. Uma cidade bicentenária não deve escolher entre memória e futuro: precisa levar a memória consigo para construir o futuro. 
    3. Cáceres poderá mudar suas ruas, seus prédios e suas tecnologias, mas seu futuro será mais forte se não esquecer suas raízes. 
    4. O progresso que apaga a memória constrói uma cidade nova, mas não necessariamente uma cidade melhor compreendida por seus habitantes. 
    5. O futuro de Cáceres começa quando seus jovens percebem que a história da cidade também lhes pertence. 
    6. Uma cidade que preserva seus casarões prepara o futuro sem abandonar suas origens. 
    7. O Rio Paraguai continuará correndo; a pergunta é que cidade escolheremos construir às suas margens. 
    8. O futuro não deve substituir a identidade de Cáceres, mas encontrar nela a matéria-prima para reinventá-la. 
 
    A jovem deixou escapar uma pequena lágrima de seus lindos olhos. 
 
    - Minha nossa! - Exclamou ela - O quanto eu aprendi hoje. 
 
    - Fico feliz que tenha parado para me ouvir. Ninguém mais quase faz isso. 
 
    - Posso vir outras vezes conversar com você? 
 
    - Quantas vezes quiser. Será sempre um prazer compartilhar essas ideias com você.
 
    Ela deu um leve sorriso e caminhou em direção a Praça Barão. Ele permaneceu em pé olhando para o Rio Paraguai. Nesse dia a cidade comemorava seus 248 anos de existência. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 4 de outubro de 2026

O bilhete entre as páginas de um velho livro

    Tem livros que guardam histórias. Outros, porém, guardam vidas. 
 
    Foi numa tarde qualquer, dessas em que o tempo parece caminhar mais devagar, que decidi abrir um velho livro esquecido na estante. A capa já não tinha o brilho de outros tempos, as páginas exibiam aquele tom amarelado que apenas os anos conseguem produzir, e o cheiro... Ah, o cheiro dos livros antigos é uma espécie de perfume da memória. 
 
    Folheava distraidamente quando algo escapou do meio das páginas e caiu sobre o chão. Era um pequeno bilhete, dobrado com cuidado. O papel estava gasto nas dobras, como se tivesse sido aberto e fechado inúmeras vezes. A tinta azul, embora desbotada, ainda resistia ao tempo. Não havia assinatura. Apenas algumas linhas. 
 
    "Espero que um dia você descubra que existem pessoas que passam pela nossa vida apenas para nos ensinar a amar. Mesmo que não permaneçam." 
 
    Fiquei alguns minutos olhando para aquelas palavras. Não porque fossem extraordinárias. Havia algo ainda mais poderoso: elas pareciam ter sido escritas para mim. Naquele instante, o livro deixou de ser importante. As páginas impressas perderam a disputa para as páginas invisíveis da memória. 
 
    Lembrei-me de uma garota. Não era a mais bonita da cidade, embora, para mim, fosse impossível encontrar alguém mais bonita. Também não era dessas pessoas que chegam fazendo barulho. Ela chegava em silêncio, como a brisa que atravessa uma janela aberta sem pedir licença. Ela ria com os olhos. Hoje percebo que algumas pessoas sorriem apenas com os lábios; outras iluminam o ambiente inteiro antes mesmo de dizer qualquer palavra. 
 
    Nunca fomos um casal. Na verdade, nossa história aconteceu muito mais nas possibilidades do que na realidade. Conversas curtas, olhares demorados, encontros inesperados e despedidas rápidas. A vida foi encontrando maneiras elegantes de nos separar antes mesmo de nos aproximar. 
 
    Na época, pensei que o tempo apagaria tudo. Engano meu. O tempo não apaga aquilo que foi verdadeiro. Apenas acomoda as lembranças em lugares onde deixamos de visitá-las diariamente. Até que um velho livro resolve abrir uma porta. 
 
    Passei a imaginar quem teria inspirado ela a escrever aquele bilhete. Talvez uma colega apaixonada. Talvez uma professora. Talvez alguém que nunca teve coragem de entregar aquelas palavras. Ou talvez o destino apenas precisasse de um mensageiro improvável. 
 
    Enquanto segurava aquele pedaço de papel, compreendi que os livros não conservam somente histórias escritas pelos autores. Guardam flores secas, fotografias esquecidas, recibos antigos, ingressos de cinema e, às vezes, corações inteiros dobrados em quatro partes. 
 
    Fechei o livro devagar. Guardei novamente o bilhete exatamente onde o havia encontrado. Não porque quisesse esquecê-lo. Mas porque certos sentimentos pertencem ao mesmo lugar das páginas antigas: sobrevivem melhor quando não são arrancados de seu tempo. 
 
    Antes de recolocar o livro na estante, sorri. Não sei por onde anda aquela garota. Talvez tenha construído uma bela família, talvez ainda goste de caminhar olhando as árvores, talvez nem se lembre de mim. E está tudo bem. Algumas pessoas não permanecem em nossas vidas para serem nossas. Permanecem para nos ensinar que o amor, mesmo quando não acontece, continua sendo uma das mais belas formas de lembrar quem fomos. 
 
    Desde então, sempre que abro um livro antigo, faço isso com uma esperança secreta. Não a de encontrar outro bilhete. Mas a de descobrir que ainda existem lembranças capazes de florescer entre páginas envelhecidas, provando que o tempo amarela o papel, mas jamais consegue desbotar aquilo que um dia tocou profundamente o coração. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Se você se apaixonar pela flor

    É fácil amar a flor quando ela está em seu esplendor. Suas cores encantam, seu perfume seduz e sua delicadeza desperta admiração. Contudo, poucos se perguntam de onde vem tanta beleza. Sob a terra, escondida dos olhares, está a raiz: silenciosa, firme e paciente. É ela quem sustenta a vida da flor, mesmo sem receber aplausos. 
 
    Assim também são as pessoas. Muitos se apaixonam pela beleza, pela juventude, pelos dias de alegria, pelas vitórias e pelos sorrisos. Mas a verdadeira essência habita as raízes: o caráter, os valores, as cicatrizes, a história, os princípios e a capacidade de permanecer de pé quando as tempestades chegam. 
 
    Quem ama apenas a flor se decepciona quando o outono chega. As pétalas caem, as cores desbotam e o tempo revela que nada na natureza foi feito para permanecer sempre em primavera. O encanto superficial desaparece, e aquilo que parecia eterno mostra-se apenas uma estação. 
 
    Mas quem aprende a amar a raiz descobre um segredo: o outono nunca é o fim. A raiz permanece viva, alimentando a esperança de uma nova primavera. Ela suporta o frio, resiste ao vento e espera, sem desespero, o tempo certo para florescer novamente. 
 
    Na vida, os relacionamentos mais profundos são aqueles que enxergam além das aparências. Amar a raiz é permanecer quando a beleza envelhece, quando os dias se tornam difíceis, quando o sucesso dá lugar às incertezas. É compreender que o verdadeiro amor não se apaixona apenas pelo que se vê, mas também pelo que sustenta o invisível. 
 
    A maior tragédia não é a chegada do outono, mas descobrir tarde demais que o amor era apenas pelas flores. Porque as flores pertencem às estações; as raízes pertencem à eternidade daquilo que realmente importa. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Sentimentos que não passam

    Tem sentimentos que não passam, apenas mudam de lugar dentro de nós. O que sinto por você já não precisa da sua presença para existir. Vive em mim como uma lembrança que aprendeu a respirar sozinha, como uma saudade que não pede licença para chegar e, quando chega, encontra sempre um espaço reservado no coração. 
 
    Carrego de você mais do que lembranças. Carrego o jeito como você me fez sentir, as palavras que ficaram ecoando, os silêncios que disseram tanto e aqueles pequenos momentos que, embora tenham durado tão pouco, parecem ter encontrado morada definitiva em minha memória. Creio que seja isso que torna certos sentimentos tão difíceis de explicar: eles não pertencem mais ao tempo em que aconteceram. Pertencem a nós. 
 
    Você passou pela minha vida, mas alguma coisa de você ficou. Ficou no modo como algumas músicas me fazem lembrar, em certas tardes que parecem ter o seu nome, em pensamentos que surgem sem serem convidados. Ficou naquela parte de mim onde o coração guarda aquilo que a razão não consegue apagar. 
 
    E eu sigo. Sigo levando comigo esse sentimento, não como quem espera necessariamente um retorno, mas como quem reconhece que algumas pessoas deixam marcas que o tempo não consegue remover. Há presenças que continuam mesmo depois da ausência. Pode ser que você nunca saiba o tamanho do lugar que ocupa em mim. Talvez nem precise saber. 
 
    Basta-me reconhecer, em silêncio, que entre tantas coisas que a vida levou, existe algo que ela não conseguiu tirar: o sentimento que ficou de você em mim. E é justamente isso o mais bonito e também o mais doloroso: você não está aqui, mas ainda existe um pouco de você em tudo aquilo que sinto. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sobre o que escrevo

    1. Escrevo porque há paisagens dentro de mim que não cabem no silêncio. Cada palavra é uma janela aberta para a alma. 
 
    2. O que escrevo não é apenas texto; é a sombra dos meus sonhos caminhando sobre o papel. 
 
    3. Há segredos que a voz não consegue dizer, mas a escrita revela com a delicadeza de uma chuva sobre a terra seca. 
 
    4. Minhas páginas são espelhos imperfeitos: nelas vejo não quem sou, mas quem estou me tornando. 
 
    5. A alma escreve antes das mãos. A caneta apenas acompanha o caminho. 
 
    6. Cada história que nasce de mim carrega um fragmento das minhas alegrias, dos meus medos e das minhas esperanças. 
 
    7. Escrever é transformar o invisível em presença, a memória em permanência e o sentimento em palavra. 
 
    8. O que escrevo não descreve apenas personagens; descreve as muitas vidas que habitam meu coração. 
 
    9. Entre uma frase e outra, deixo rastros de mim mesmo para que o tempo não apague quem fui. 
 
    10. A escrita é o idioma secreto da alma. Quem lê com atenção encontra, entre as linhas, o autor que nunca se revela por inteiro. 
 
    11. Meus textos são pássaros feitos de lembranças; voam para longe, mas sempre carregam algo de mim em suas asas. 
 
    12. Quando escrevo, não procuro apenas contar histórias. Procuro compreender a geografia misteriosa da minha própria existência. 
 
    13. Cada palavra escolhida é uma pedra colocada na ponte que liga meu mundo interior ao coração dos outros. 
 
    14. Escrever é permitir que a alma deixe sua assinatura sobre a passagem do tempo. 
 
    15. Quem sabe eu nunca consiga explicar quem sou. Por isso escrevo: para que minhas páginas digam aquilo que minha voz desconhece. 
 
Aforismos: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quando meu pensamento caminha até você

    Se o meu pensamento caminha até onde você está, eu não o detenho; deixo que atravesse rios, cidades, campos, o rumor das árvores e o infinito das manhãs. Que ele seja livre como o vento que não pergunta o nome das montanhas, pois todo caminho percorrido pelo afeto amplia também a extensão da alma, e nenhuma distância consegue medir o horizonte de um coração desperto. 
 
    Eu celebro esse invisível viajante que parte de mim sem abandonar-me, que toca sua lembrança e regressa carregando o perfume das horas, como se cada encontro silencioso acrescentasse uma nova estrela ao céu interior. Descubro, então, que amar não é diminuir-se, mas expandir-se, até reconhecer no outro uma continuação do próprio universo. 
 
    Quem poderá separar o pensamento do coração, se ambos bebem da mesma nascente e respiram o mesmo mistério? Quando penso em você, caminho também em direção ao que sou, porque toda afeição verdadeira revela uma parte escondida da existência, e o mundo se torna maior cada vez que um ser humano alcança outro pelo invisível. 
 
    Dessa forma, aceito a vastidão dos dias e a passagem das estações; aceito que alguns encontros aconteçam apenas na geografia da memória, pois nem toda presença exige a proximidade dos corpos para permanecer viva. Há abraços que o espírito conhece antes das mãos, e há silêncios que unem mais profundamente do que muitas palavras. 
 
    Se, afinal, meu pensamento repousa onde você está, que meu coração não reclame o caminho percorrido. Que ele aprenda com os rios, que seguem adiante sem perder a própria fonte; com o céu, que acolhe todas as aves sem aprisionar nenhuma; e comigo, que continuo inteiro justamente porque aprendi a compartilhar o infinito. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 19 de setembro de 2026

O horizonte infinito

    Eu caminho pela terra como quem atravessa um templo sem paredes. Recebo o vento como um antigo companheiro, o sol como um mestre silencioso, a chuva como uma bênção que não escolhe a quem tocar. Não vejo mais você, mas não permito que a ausência diminua a grandeza do mundo. Há continentes de esperança esperando os passos de quem não desiste. Há manhãs que ainda desconhecem o meu nome e, mesmo assim, me aguardam. 
 
    Eu saúdo os rios que nunca recusam seu destino, as árvores que suportam os invernos sem abandonar suas raízes, os pássaros que rasgam o céu sem perguntar onde termina o horizonte. Neles encontro uma antiga lição: viver é seguir adiante. Também sou parte dessa marcha. Também sou uma voz entre milhares de vozes que atravessam os séculos. Também pertenço ao imenso coro da existência. 
 
    Não lamento o amor que não permaneceu ao meu lado. Eu o recolho como quem recolhe uma estrela caída sobre a memória. Nada do que foi verdadeiro desaparece completamente. Transforma-se em seiva, em luz, em silêncio, em coragem para a próxima jornada. O coração amadurece quando compreende que possuir nunca foi a finalidade do amor. 
 
    Eu abraço os desconhecidos que cruzam meu caminho, os trabalhadores que despertam antes do amanhecer, as crianças que inventam futuros, os velhos que carregam bibliotecas invisíveis no olhar. Em cada rosto reconheço uma batalha, uma esperança, um universo inteiro. Nenhum ser humano caminha sozinho quando aprende a enxergar a humanidade no outro. Somos poeira das mesmas estradas e viajantes do mesmo mistério. Somos muitos, e ainda assim compartilhamos o mesmo céu. 
 
    E quando meus passos finalmente se confundirem com a poeira dos caminhos, que não se diga que fui vencido pela ausência. Que se diga apenas que caminhei de peito aberto diante do tempo, que celebrei a beleza mesmo entre as perdas, que acolhi a dor sem transformá-la em prisão. Porque a vida não pertence aos que jamais caem, mas aos que continuam avançando. E enquanto houver um único horizonte diante de mim, seguirei cantando a terra, os homens, o amor e o infinito. Esse será o meu testemunho diante da eternidade. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O escritor e a leitora

    Há noites que terminam quando o sol nasce e há outras que permanecem dentro da gente por muitos anos, como se a madrugada tivesse recusado o amanhecer. A noite em que conheci aquela jovem pertence à segunda espécie. Eu tinha cinquenta anos, idade em que um homem começa a perceber que já viveu histórias suficientes para preencher alguns livros, mas ainda conserva dentro de si uma quantidade inquietante de perguntas. Era escritor havia décadas, embora ainda carregasse a sensação de estar começando. Acredito que todo escritor verdadeiro tenha essa impressão: cada livro publicado encerra uma história, mas abre dez outras portas. Naquela noite, eu caminhava sem destino muito definido pelas ruas antigas da cidade, depois de passar algumas horas escrevendo em um pequeno caderno que costumava levar comigo. Gostava de caminhar depois de escrever. Dizia a mim mesmo que era uma maneira de deixar as palavras descansarem enquanto eu procurava outras. 
 
    A praça estava quase vazia, iluminada por alguns postes cuja luz amarelada fazia as sombras das árvores parecerem personagens de uma história antiga. Sentei-me em um banco e fiquei observando o movimento distante das pessoas, os ruídos ocasionais dos automóveis e a presença silenciosa do rio, que naquela hora parecia carregar consigo não apenas água, mas também memórias. Foi então que percebi a jovem sentada alguns metros adiante, segurando um livro aberto sobre os joelhos. Ela lia com uma atenção tão absoluta que parecia ter esquecido o lugar onde estava. De vez em quando levantava os olhos, contemplava a praça e voltava às páginas. Havia alguma coisa naquela cena que me chamou atenção. Talvez porque eu sempre tivesse acreditado que um leitor, quando lê verdadeiramente, desaparece por alguns instantes do mundo para viver em outro. E aquela jovem havia desaparecido. Quando finalmente fechou o livro, percebeu que eu a observava e sorriu discretamente. Não foi um sorriso de intimidade, mas de reconhecimento, como se já nos conhecêssemos de algum lugar que nenhum dos dois conseguia recordar. Ela perguntou se eu era escritor. A pergunta me surpreendeu. Respondi que sim, embora imediatamente tenha acrescentado que talvez fosse mais correto dizer que eu tentava ser escritor todos os dias. Ela riu e disse que havia lido algumas coisas minhas. Perguntei quais. Ela mencionou personagens, histórias e lugares que eu mesmo quase havia esquecido. Naquele instante compreendi uma coisa estranha: às vezes escrevemos para guardar nossas lembranças, mas são os leitores que acabam guardando aquilo que nós mesmos abandonamos pelo caminho. 
 
    A conversa daquela noite deveria ter terminado ali. Uma apresentação, algumas palavras sobre livros, uma despedida e cada um seguiria seu caminho. Mas certas histórias começam justamente quando tudo parece estar terminando. A jovem perguntou por que eu estava sozinho na praça tão tarde. Respondi que procurava uma história. Ela fechou o livro e disse que histórias não costumam ser encontradas quando procuradas; geralmente aparecem quando menos esperamos. Achei a observação pretensiosa para alguém tão jovem, mas gostei dela. Perguntei onde havia aprendido aquilo. Ela respondeu que tinha aprendido nos livros. Comecei a rir e perguntei se ela acreditava mesmo que os livros ensinavam tudo. Ela ficou alguns segundos em silêncio antes de responder: “Não. Mas ensinam a fazer perguntas melhores.” Aquela frase ficou comigo. Talvez porque eu tivesse passado cinquenta anos tentando encontrar respostas quando, na verdade, a literatura sempre havia me conduzido na direção contrária. 
 
    Perguntei seu nome. Ela disse apenas que preferia que eu o descobrisse mais tarde, pois alguns nomes, segundo ela, deveriam aparecer somente quando a história estivesse preparada para recebê-los. Pensei que estava diante de uma leitora excessivamente imaginativa. Hoje, olhando para trás, percebo que eu estava diante de alguém que compreendia a literatura de uma maneira que eu havia esquecido. Levantamo-nos do banco e começamos a caminhar pela praça. Não havia qualquer plano. Ela queria conhecer o escritor que havia encontrado por acaso; eu queria compreender por que aquela desconhecida parecia conhecer tanto das minhas histórias. Caminhamos até a parte mais antiga da praça, onde algumas construções preservavam sinais de outras épocas. Ela apontava detalhes que eu nunca havia percebido: uma janela fechada havia décadas, uma inscrição quase apagada em uma parede, uma árvore cuja forma parecia acompanhar a arquitetura de uma casa abandonada. Em determinado momento, parou diante de uma antiga construção e perguntou se eu conhecia a história daquele lugar. Respondi que não. Ela sorriu. “Então nossa primeira aventura começa aqui.” Eu deveria ter percebido naquele instante que aquela noite não seria como as outras. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 13 de setembro de 2026

Pensamentos para você

    Você me faz sonhar sempre. Sua presença habita meus pensamentos com a delicadeza de uma canção que nunca termina, e já não consigo imaginar minha vida sem você. 
 
    Há pessoas que passam por nós como o vento, mas você chegou como quem encontra morada. Desde então, meus dias carregam o seu nome escondido entre os detalhes mais simples, e até o silêncio parece falar de você. 
 
    Às vezes penso que o destino gosta de testar aquilo que consideramos precioso. E confesso que, se por qualquer motivo você tivesse que se ausentar, se a vida nos separasse por uma dessas armadilhas inesperadas do tempo, muitas coisas perderiam a cor e o significado. 
 
    Não porque eu deixaria de existir, mas porque você se tornou parte daquilo que dá sentido aos meus caminhos. Sua ausência seria como um céu sem estrelas, um livro sem palavras, uma estrada sem horizonte. 
 
    Por isso, enquanto o tempo nos permite caminhar lado a lado, quero guardar cada sorriso, cada conversa e cada instante. Porque amar alguém é também compreender que a felicidade mora na simples bênção de sua presença. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense