Basta caminhar devagar pelo centro antigo, onde as casas parecem cochilar sob o peso dos anos, para perceber que a cidade guarda segredos nas paredes, nas janelas e nos telhados. Cáceres é assim. Uma cidade que não conta tudo de uma vez.
É preciso saber olhar.
E, principalmente, olhar para cima.
Lá está ele.
O Anjo da Ventura.
Há mais de um século, suas asas desafiam o tempo. Do alto da velha Casa Dulce, observa o movimento das ruas, os passos apressados, os carros impacientes e os homens modernos que quase nunca levantam os olhos para o céu.
Mas o Anjo continua olhando.
Os antigos talvez soubessem disso.
Dizem que, quando a figura chegou à cidade, houve quem fizesse o sinal da cruz. Outros ficaram apenas admirados. Uma mulher alada no alto de uma casa comercial não era coisa comum na velha São Luiz de Cáceres.
— É um anjo — disseram alguns.
— É uma santa — arriscaram outros.
Talvez alguém, mais desconfiado, tenha cochichado:
— Isso aí não é coisa de Deus, não...
E assim começam as histórias.
Não nos documentos oficiais. Não nos gabinetes dos historiadores. As histórias verdadeiramente populares começam nas calçadas, nos quintais e nas conversas demoradas de fim de tarde.
O Anjo da Ventura entrou lentamente no imaginário cacerense.
Passou a observar a cidade.
Viu o rio Paraguai trazendo vapores e novidades de terras distantes. Viu homens chegarem cheios de sonhos e partirem carregados de saudade. Viu comerciantes abrirem suas portas pela manhã. Viu crianças correndo pelas ruas. Viu namorados escondendo promessas nas sombras das casas antigas.
Talvez tenha visto até coisas que nós jamais saberemos.
Porque todo anjo que observa uma cidade por tanto tempo acaba se tornando guardião de seus segredos.
Mas um dia o Anjo desapareceu.
O alto da casa ficou vazio.
E, quando um símbolo desaparece, a imaginação ocupa o seu lugar.
Uns disseram que fora roubado.
Outros garantiam que alguém o levara durante a noite.
Havia quem jurasse que o Anjo tinha sido castigado por proteger demais a cidade.
E certamente não faltou algum velho contador de histórias afirmando, com absoluta convicção:
— Eu sempre soube que um dia ele ia embora.
Cáceres continuou vivendo.
O rio continuou correndo.
As tardes continuaram quentes.
Os sinos tocaram.
As crianças cresceram.
Os velhos morreram.
E o Anjo virou lembrança.
Talvez alguns ainda apontassem para o alto da antiga casa e contassem aos mais jovens:
— Ali havia um anjo.
Os jovens provavelmente olhavam desconfiados.
— Um anjo?
— Sim.
— De verdade?
O velho sorria.
— Em Cáceres, meu filho, a gente nunca sabe.
Décadas se passaram.
Então descobriram que o Anjo estava em Corumbá.
Sobre um túmulo.
Há algo de profundamente misterioso nisso.
Durante anos, aquele que observara a vida de uma cidade permaneceu vigiando o silêncio dos mortos.
Talvez as noites no cemitério tenham sido longas.
Talvez a lua iluminasse suas asas.
Talvez algum visitante, caminhando entre os túmulos, tenha sentido a estranha impressão de estar sendo observado.
Mas o Anjo não pertencia àquele lugar.
Cáceres ainda se lembrava dele.
E há símbolos que, por mais distantes que estejam, continuam ligados ao lugar onde nasceram na memória do povo.
O Anjo voltou.
Imagino o momento em que novamente foi colocado no alto da velha casa.
Talvez ninguém tenha ouvido, mas acredito que as paredes antigas respiraram aliviadas.
A cidade recuperava uma parte de si mesma.
Hoje, milhares de pessoas passam por aquela esquina.
Algumas nem percebem sua presença.
Outras olham rapidamente.
Poucas param.
Mas o Anjo permanece.
Vigiando.
Talvez seja apenas uma escultura.
Talvez seja uma antiga representação da Vitória.
Talvez seja somente bronze moldado pelas mãos de algum artista desconhecido.
Mas tente explicar isso ao imaginário de uma cidade.
As cidades também precisam de seus mistérios.
Precisam de fantasmas caminhando pelas praças, monstros escondidos nos rios, homens misteriosos sentados em bancos antigos e anjos observando as esquinas.
Porque uma cidade sem lendas é apenas um conjunto de ruas.
Cáceres não.
Cáceres é feita de histórias.
E, quando a noite cai sobre o centro antigo e as ruas ficam silenciosas, gosto de imaginar que o Anjo da Ventura continua olhando para o rio Paraguai.
Imóvel.
Silencioso.
Guardando histórias que nunca contou.
Talvez esperando que alguém passe pela velha esquina, levante os olhos e pergunte:
— O que você viu durante todos esses anos?
O Anjo não responderá.
Anjos antigos nunca respondem.
Eles apenas observam.
E deixam para os poetas a difícil tarefa de imaginar.
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense









