Na cidade antiga de Cáceres, onde o rio Paraguai sussurra histórias que ninguém ousa repetir em voz alta, vivia uma menina de sete anos chamada Lídia. Ela tinha os cabelos da cor da noite sem lua e os olhos fundos como poços, daqueles onde a gente joga uma pedra e nunca escuta o ploc da queda. As outras crianças evitavam Lídia não por maldade, mas por instinto. Era como se ela carregasse algo nas costas, invisível, mas pesado. Algo que até os cães sentiam, e latiam, nervosos, sempre que ela passava.
A história começa em setembro de 1986, pouco depois do sumiço de um velho pescador chamado João Torto. Ele era conhecido por suas histórias embriagadas, mas naquela noite, algo em sua voz havia sido diferente. Ele falava do Passo do Lontra, uma parte esquecida do rio, onde “as árvores sussurram em guarani antigo” e “a água reflete mais do que o céu”.
Foi naquela mesma noite que Lídia chegou em casa com os pés cobertos de lodo, a camisola rasgada como se tivesse corrido por entre espinhos. Ela não disse uma palavra. Apenas entrou, foi para o quarto e fechou a porta. Três dias depois, desenhou na parede com carvão uma figura estranha, uma criatura de dentes longos, coberta por escamas, com olhos que pareciam estar chorando sangue. Acima da criatura, ela escreveu com sua caligrafia infantil: “Ele não dorme. Ele apenas espera.”
Final da história: No livro O Colecionador de Segredos, em breve!
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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