sábado, 25 de abril de 2026

O atendente

    Chamava-se Fernando Duarte. Nome comum, vida comum, desses que passam pelos corredores sem deixar eco. Técnico administrativo da biblioteca municipal, era conhecido por todos como o homem que resolvia. Não importava se o sistema travava, se o cadastro sumia, se a ficha antiga não batia com o registro digital, Fernando sempre encontrava uma solução, sempre com um sorriso discreto e um “deixe comigo”. 
 
    Havia nele uma delicadeza quase invisível. Organizava livros como quem ajeita memórias alheias. Tocava as lombadas com respeito, como se cada título guardasse uma vida que não lhe pertencia. E talvez fosse exatamente isso que o mantinha de pé. viver indiretamente, através das histórias dos outros. Ninguém percebia que, pouco a pouco, ele desaparecia de si mesmo. 
 
    Naquela terça-feira, o dia começou como qualquer outro. O sol filtrava-se pelas janelas altas, desenhando retângulos de luz no chão encerado. O silêncio era interrompido apenas pelo virar de páginas e pelo ranger tímido das cadeiras. 
 
    Fernando chegou cedo, como sempre. Cumprimentou a equipe, ajeitou os óculos, ligou o computador. Tudo em ordem. Mas algo estava fora do lugar. Talvez tenha sido um detalhe mínimo, um livro devolvido fora de posição, uma etiqueta rasgada, um título repetido no sistema. Ou talvez não tenha sido nada externo. Talvez o erro estivesse nele, acumulado há anos, como poeira nos cantos que ninguém limpa. Por volta das dez da manhã, uma estudante pediu ajuda. 
 
     — Moço, não encontro esse livro aqui — disse, mostrando o celular. 
 
    Fernando sorriu. 
 
    — Vamos achar. 
 
    Caminharam entre as estantes. Ele percorreu as prateleiras com precisão mecânica, dedos treinados, olhar atento. Mas o livro não estava lá. 
 
    — Estranho… — murmurou. 
 
    Consultou o sistema. Lá estava: disponível. Voltou à estante. Nada. Uma pequena falha. Uma insignificância. Mas algo nele tremeu. 
 
    — Deve estar fora do lugar — disse, mais para si do que para ela. 
 
    Procurou em outra seção. Depois em outra. Depois em outra. O mundo começou a se deslocar imperceptivelmente. Os títulos pareciam trocar de lugar. Os nomes dos autores embaralhavam-se. As letras… as letras pareciam se mexer. 
 
    — O senhor está bem? — perguntou a estudante. 
 
    Ele não respondeu. Havia um ruído. Baixo, insistente. Como páginas sendo folheadas sem parar, dentro da cabeça.  Fernando segurou um livro. Abriu-o. As palavras não estavam mais alinhadas. Elas escorriam. Escorriam como tinta fresca, formando frases que ele nunca tinha lido. Frases que falavam dele. “Você nunca existiu fora daqui.” Ele fechou o livro com força. Respirou. 
 
    — Só… só um momento. 
 
    Mas o momento já tinha se rompido. Outro livro caiu. Depois outro. Um funcionário ao longe chamou seu nome, mas a voz parecia vir debaixo d’água. 
 
    O atendente levou as mãos à cabeça. Os livros começaram a falar. Não em som, em pressão. Em peso. Em uma avalanche silenciosa de histórias que não eram suas, mas que agora o atravessavam. Vidas, mortes, guerras, amores, perdas, tudo ao mesmo tempo. 
 
    — Parem… — sussurrou. 
 
    Ninguém ouviu. 
 
    Ele puxou um livro da estante. Rasgou. O som foi seco, brutal, como algo sendo arrancado da própria carne. O silêncio da biblioteca se quebrou. 
 
    — Fernando?! 
 
    Ele rasgou outro. E outro. E outro. 
 
    — PAREM! — gritou, mas não para as pessoas — para as histórias. 
 
    As prateleiras começaram a tombar sob suas mãos. Livros caíam como chuva. Poeira subia. Gritos ecoavam. Funcionários corriam. Leitores se levantavam. Alguém tentou segurá-lo. Ele empurrou. Os olhos de Fernando estavam abertos demais, não de fúria, mas de excesso. 
 
    — Vocês não param! — dizia, com a voz trêmula. — Vocês não calam nunca! 
 
    Ele rasgava páginas como quem tenta silenciar vozes. Cada livro aberto era mais uma invasão. Cada palavra, um golpe. 
 
    — Eu não quero mais saber! — gritou. 
 
    Uma estante inteira veio abaixo. O impacto reverberou como um trovão dentro da biblioteca. E então… Silêncio. Um silêncio pesado, interrompido apenas pela respiração irregular de Fernando, ajoelhado no chão, cercado por páginas espalhadas como folhas mortas. Seus dedos tremiam. Seus olhos vagavam, perdidos. 
 
    — Agora… — murmurou — agora está quieto… 
 
    Mas não estava. Porque o silêncio não vinha de fora. E, pela primeira vez, ele não tinha mais histórias alheias para se esconder. 
 
    Quando a segurança chegou, encontrou apenas um homem pequeno no meio do caos. O homem que resolvia tudo. Que agora não sabia mais como se recompor. 
 
    Nos dias seguintes, a biblioteca permaneceu fechada. Diziam que era para reorganização. Mas alguns funcionários evitavam a seção onde tudo aconteceu. Havia algo estranho ali. Como se, entre as páginas rasgadas e os livros recolocados, tivesse ficado um resquício. Um sussurro. Quase inaudível. Como se as histórias, feridas, tivessem aprendido algo novo: Que também sabem quebrar quem as guarda. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário