quinta-feira, 2 de abril de 2026

As Aventuras de Torto

    José Afonso do Nascimento nunca gostou do próprio nome. Dizia que era longo demais para quem vivia rápido. No quartel, encurtaram sua existência a um som seco e firme: Nascimento! Era assim que os sargentos gritavam, era assim que os colegas o chamavam, era assim que ele se tornava alguém ou talvez deixasse de ser quem era. Até o dia do acidente. 
 
    Ninguém gosta de lembrar exatamente como aconteceu. Nem ele. Nem os outros. Só se sabe que houve um erro, um instante mal calculado, um movimento brusco e depois disso, sua perna nunca mais respondeu da mesma forma. Foi dispensado. Sem cerimônia. Sem honra. Sem explicações longas. 
 
    Voltou para casa com uma marcha irregular e um silêncio que não combinava com ele. Mas o silêncio não durou. Porque José Afonso do Nascimento não nasceu para ser esquecido. Na primeira semana de volta à cidade, já não era mais “Nascimento”. Virou Torto. E o curioso é que não foi um insulto que o destruiu, foi um apelido que ele adotou com orgulho. 
 
    — “Torto anda diferente, mas chega mais longe”, dizia, com um sorriso enviesado e olhar aceso. 
 
    E chegava mesmo. Torto não era apenas um homem que mancava. Era um homem que ocupava espaço. Entrava nos bares como se fosse dono da noite, mesmo sem ter dinheiro para pagar todas as rodadas. Conversava com estranhos como se fossem velhos amigos. Sabia ouvir, sabia rir, sabia contar histórias e, sobretudo, sabia fazer alguém se sentir único por alguns minutos. 
 
    Era isso que atraía as garotas. Não era a beleza, embora fosse esbelto, com aquele tipo de corpo moldado pela disciplina militar. Não era a perfeição, sua caminhada denunciava o contrário. Era o jeito. Torto fazia o mundo parecer menos pesado. 
 
    Numa noite abafada de verão, no bar de Seu Arlindo, foi quando tudo começou de verdade. Ele estava encostado no balcão, girando um copo de cerveja pela metade, quando viu entrar uma mulher que parecia deslocada daquele lugar. Vestido claro, olhar distante, postura de quem carregava mais pensamento do que vontade. Torto percebeu na hora. Ele sempre percebia. Aproximou-se com seu passo irregular, mas firme. 
 
    — “Você tem cara de quem entrou no bar errado… ou na vida errada.” 
 
    Ela levantou os olhos, surpresa. 
 
    — “E você tem cara de quem não devia estar dando opinião.” 
 
    Torto sorriu. Era exatamente o tipo de resposta que ele gostava. 
 
    — “Então senta aqui e me prova que eu tô errado.” 
 
    Ela hesitou. Depois sentou. O nome dela era Helena. E aquela conversa, que começou com ironia, terminou com silêncio compartilhado. Um silêncio bom. Raro. 
 
    Mais tarde, já do lado de fora, sob a luz fraca dos postes, ela perguntou: 
 
    — “Você não se incomoda com o jeito que te chamam?” 
 
    Ele demorou um pouco para responder. Olhou para a própria perna. Depois para a rua vazia. 
 
    — “Já me incomodei. Hoje não mais.” 
 
    — “Por quê?” 
 
    — “Porque o mundo tenta te reduzir a alguma coisa… e quando você aceita, vira dono disso. E eu nunca quis ser moldado por quem quer que seja.” 
 
    Ela o observou como quem tenta entender algo maior. 
 
    — “Então você é o quê?” 
 
    Torto deu de ombros, com leveza. 
 
    — “Sou o cara que quase quebrou… e resolveu não ficar quebrado.” 
 
    Naquela noite, Helena não foi embora sozinha. E Torto percebeu que sua vida, que já era cheia de encontros, começava a se transformar em algo mais complexo. Porque algumas pessoas não passam. Elas ficam. Mesmo quando vão embora. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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