A despedida começou antes de existir.
Não houve anúncio, nem palavra que a inaugurasse, apenas um silêncio que cresceu entre eles como uma sombra fina, quase imperceptível, mas persistente. Ele percebeu primeiro. Não soube explicar como, mas sentiu. Era como se o tempo tivesse mudado de direção, como se cada gesto dela viesse com um leve atraso, como se algo invisível já estivesse se afastando.
Naquela tarde, sentados no banco antigo da praça, ela falava sobre coisas simples: o calor, o barulho das ruas, um sonho que tivera na noite anterior. Ele a escutava com atenção, mas dentro de si algo se partia lentamente. Não era tristeza ainda. Era uma espécie de pressentimento, um saber silencioso que não precisava de provas.
Ele olhava para as mãos dela enquanto ela falava, tentando memorizar a forma como se moviam, como desenhavam o ar. Havia um desejo quase desesperado de guardar tudo. O tom da voz, o jeito de sorrir, até os silêncios. Como se já soubesse que, em breve, tudo isso se tornaria inacessível.
— Você está quieto — ela disse, de repente.
Ele sorriu, um sorriso que não chegou inteiro.
— Estou ouvindo.
Mas não era verdade. Ele estava se despedindo.
A conversa seguiu, leve, comum, como tantas outras. E talvez fosse isso o que mais doía: a normalidade. Não havia drama, nem ruptura, nem palavras finais carregadas de significado. Apenas o cotidiano, intacto, enquanto algo essencial se desfazia por dentro.
Quando ela se levantou, o gesto pareceu definitivo demais para ser apenas um gesto.
— Eu preciso ir — disse ela.
Simples assim.
Ele assentiu. Poderia ter perguntado “por quê?”, poderia ter pedido “fica”, poderia ter inventado qualquer razão para prolongar aquele momento. Mas não disse nada. Porque, no fundo, já sabia: não era aquele instante que estava terminando. Era algo maior, algo que já vinha se encerrando há dias, talvez semanas, talvez desde o início.
Caminharam juntos até a esquina. O mundo seguia igual, carros passando, pessoas conversando, a vida indiferente ao fim que se desenhava ali.
Ela o abraçou.
E foi nesse abraço que ele entendeu tudo.
Não pela intensidade, mas pela delicadeza. Não havia urgência, nem promessa, nem retorno implícito. Era um abraço que não segurava, apenas reconhecia. Como quem aceita, sem resistência, que aquele era o último.
E, naquele instante, a saudade nasceu inteira.
Antes mesmo que ela se afastasse, antes mesmo que seus passos a levassem para longe, ele já sentia falta. Era uma saudade antecipada, quase cruel, como se o coração tivesse corrido à frente do tempo para sofrer primeiro.
Ela se afastou devagar, olhou uma última vez, sorriu, um sorriso que parecia querer dizer muitas coisas, mas escolheu o silêncio.
E então foi.
Ele ficou.
Mas não ficou como antes.
Algo nele a acompanhou, seguiu seus passos invisíveis, dissolveu-se no espaço entre eles. E o que restou foi uma presença estranha, a dela, ainda ali, mas transformada em ausência.
Os dias passaram.
A praça continuou a mesma. O banco ainda estava lá. O mundo não mudou. Mas ele mudou. Ou talvez tenha se revelado.
Aprendeu que algumas despedidas não acontecem no momento do adeus, mas muito antes, nos pequenos afastamentos, nos silêncios que se alongam, nas palavras que deixam de ser ditas.
E aprendeu, sobretudo, que sentir muito é também uma forma de permanecer.
Porque, embora ela tivesse partido, embora o tempo tivesse seguido seu curso inevitável, havia algo que não se foi.
Aquele instante.
Aquele abraço.
Aquela saudade que nasceu antes da partida, e que, por isso mesmo, nunca encontrou um fim.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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