Tem dias em que o mundo parece suspenso sobre um abismo invisível.
De um lado, mãos que acolhem, repartem o pão, enxugam lágrimas silenciosas.
Do outro, olhos endurecidos pelo poder, pela violência, pela indiferença que transforma vidas em números e dores em espetáculo.
E nós caminhamos entre esses extremos, frágeis viajantes tentando não cair nem na crueldade dos homens, nem no desespero de acreditar que ela venceu.
A compaixão é quase sempre discreta.
Ela não grita nos palanques, não ergue impérios, não escreve seu nome nas muralhas da História.
Mas permanece: no abraço oferecido ao cansado, no silêncio respeitoso diante da dor alheia, na coragem de permanecer humano quando o mundo recompensa os monstros.
Talvez seja isso que ainda sustente o céu acima de nós.
As atrocidades, porém, possuem o ruído das tempestades.
Elas queimam cidades, destroem inocências, fazem da ambição uma religião sem altar e sem deus.
Há homens que atravessam a vida como lâminas, ferindo tudo o que tocam, como se jamais tivessem aprendido que o outro também sangra.
Viver, então, é permanecer sobre essa ponte estreita entre a luz e o abismo.
É descobrir que dentro de cada época convivem santos anônimos e carrascos celebrados.
E talvez a verdadeira grandeza humana esteja justamente em escolher, todos os dias, apesar do horror, permanecer ao lado dos que ainda sabem sentir compaixão.
Porque enquanto existir alguém capaz de amar sem possuir, ajudar sem exigir recompensa e chorar pela dor de outro ser humano, o abismo jamais vencerá completamente o mundo.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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