Sob a sombra ampla de uma figueira, nos jardins de Mieza, o jovem Alexandre, o Grande caminhava inquieto. Seus passos denunciavam a urgência de quem desejava conquistar o mundo, ainda que o mundo, naquele momento, fosse apenas uma ideia distante.
Sentado sobre uma pedra, com um pergaminho apoiado nos joelhos, estava Aristóteles. Seus olhos não perseguiam Alexandre; estavam mergulhados nas linhas silenciosas de um texto antigo, como se ali estivesse escondido um universo mais vasto do que qualquer império.
— Mestre — disse Alexandre, rompendo o silêncio —, de que me serve a leitura se meu destino é a espada?
Aristóteles ergueu os olhos com calma, como quem já esperava aquela pergunta há muito tempo.
— Serve para que tua espada não seja cega.
Alexandre franziu o cenho, aproximando-se.
— Cega? Minha força decidirá as batalhas.
Aristóteles fechou o pergaminho com delicadeza.
— E o que decidirá o motivo de tuas batalhas?
O vento soprou leve entre as folhas da figueira. Alexandre hesitou, mas não recuou.
— O poder, a glória, a expansão do meu nome.
Aristóteles sorriu, não com desprezo, mas com uma paciência quase infinita.
— Muitos desejaram isso antes de ti. E muitos desapareceram como poeira. A leitura, Alexandre, é o que impede um homem de ser apenas mais um eco no tempo.
O jovem príncipe cruzou os braços.
— E como palavras podem ser mais fortes que lanças?
Aristóteles levantou-se lentamente, caminhando alguns passos.
— Porque as palavras são o que restam quando as lanças se quebram.
Ele então estendeu o pergaminho ao discípulo.
— Aqui está Homero. Lê.
Alexandre pegou o pergaminho com certa resistência. Seus olhos percorreram os versos da Ilíada, e, aos poucos, algo mudou. A inquietação em seus passos cedeu lugar a um silêncio atento.
— Aquiles... — murmurou ele — lutou por honra, mas também por orgulho.
Aristóteles assentiu.
— E o que aprendeste com isso?
Alexandre ficou em silêncio por mais tempo do que de costume.
— Que a maior batalha talvez não seja contra os outros... mas contra aquilo que nos governa por dentro.
O mestre sorriu novamente, desta vez com um brilho discreto nos olhos.
— Eis o começo de um verdadeiro rei.
O sol começava a descer no horizonte, tingindo o mundo com tons dourados. Alexandre segurava o pergaminho como se fosse uma arma nova, uma que não feria corpos, mas moldava destinos.
Naquele dia, sob a figueira de Mieza, não nasceu apenas um conquistador.
Nasceu um leitor.
E talvez, sem saber, um homem que compreenderia que conquistar o mundo sem compreender a si mesmo é apenas outra forma de derrota.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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