terça-feira, 28 de abril de 2026

Aristóteles e Alexandre, O Grande

    Sob a sombra ampla de uma figueira, nos jardins de Mieza, o jovem Alexandre, o Grande caminhava inquieto. Seus passos denunciavam a urgência de quem desejava conquistar o mundo, ainda que o mundo, naquele momento, fosse apenas uma ideia distante. 
 
    Sentado sobre uma pedra, com um pergaminho apoiado nos joelhos, estava Aristóteles. Seus olhos não perseguiam Alexandre; estavam mergulhados nas linhas silenciosas de um texto antigo, como se ali estivesse escondido um universo mais vasto do que qualquer império. 
 
    — Mestre — disse Alexandre, rompendo o silêncio —, de que me serve a leitura se meu destino é a espada? 
 
    Aristóteles ergueu os olhos com calma, como quem já esperava aquela pergunta há muito tempo. 
 
    — Serve para que tua espada não seja cega. 
 
    Alexandre franziu o cenho, aproximando-se. 
 
    — Cega? Minha força decidirá as batalhas. 
 
    Aristóteles fechou o pergaminho com delicadeza. 
 
    — E o que decidirá o motivo de tuas batalhas? 
 
    O vento soprou leve entre as folhas da figueira. Alexandre hesitou, mas não recuou. 
 
    — O poder, a glória, a expansão do meu nome. 
 
    Aristóteles sorriu, não com desprezo, mas com uma paciência quase infinita. 
 
    — Muitos desejaram isso antes de ti. E muitos desapareceram como poeira. A leitura, Alexandre, é o que impede um homem de ser apenas mais um eco no tempo. 
 
    O jovem príncipe cruzou os braços. 
 
    — E como palavras podem ser mais fortes que lanças? 
 
    Aristóteles levantou-se lentamente, caminhando alguns passos. 
 
    — Porque as palavras são o que restam quando as lanças se quebram. 
 
    Ele então estendeu o pergaminho ao discípulo. 
 
    — Aqui está Homero. Lê. 
 
    Alexandre pegou o pergaminho com certa resistência. Seus olhos percorreram os versos da Ilíada, e, aos poucos, algo mudou. A inquietação em seus passos cedeu lugar a um silêncio atento. 
 
    Aquiles... — murmurou ele — lutou por honra, mas também por orgulho. 
 
    Aristóteles assentiu. 
 
    — E o que aprendeste com isso? 
 
    Alexandre ficou em silêncio por mais tempo do que de costume. 
 
    — Que a maior batalha talvez não seja contra os outros... mas contra aquilo que nos governa por dentro. 
 
    O mestre sorriu novamente, desta vez com um brilho discreto nos olhos. 
 
    — Eis o começo de um verdadeiro rei. 
 
    O sol começava a descer no horizonte, tingindo o mundo com tons dourados. Alexandre segurava o pergaminho como se fosse uma arma nova, uma que não feria corpos, mas moldava destinos. 
 
    Naquele dia, sob a figueira de Mieza, não nasceu apenas um conquistador. Nasceu um leitor. E talvez, sem saber, um homem que compreenderia que conquistar o mundo sem compreender a si mesmo é apenas outra forma de derrota. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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