Tem cidades que respiram futebol, o esporte mais popular do país. Cáceres é assim. Cacerense Esporte Clube respira por noventa minutos.
Quando a Fera da Fronteira entra em campo, o vento do Pantanal parece mudar de direção, como se até o Rio Paraguai diminuísse o curso para escutar o eco das arquibancadas do Geraldão.
Não é apenas um clube.
É uma cicatriz azul e branca atravessando a fronteira.
Um grito antigo de uma cidade que aprendeu a resistir entre o calor, a poeira, a distância e o silêncio do interior.
Há algo de mítico no futebol cacerense.
Talvez porque toda cidade de fronteira precise inventar heróis para não desaparecer.
E o Cacerense nasceu exatamente disso: da necessidade de permanecer vivo quando tudo parecia distante demais dos grandes centros.
A Fera da Fronteira carrega no peito o orgulho das ruas antigas de Cáceres, o cheiro de chuva sobre a terra quente, os vendedores na porta do estádio, os meninos chutando bola até o cair da tarde, sonhando vestir aquela camisa que já foi campeã mato-grossense em 2007.
E mesmo quando o time cai, a cidade continua esperando.
Porque torcer para clubes do interior não é um ato de conveniência.
É um pacto de pertencimento.
É amar mesmo sem títulos, mesmo sem holofotes, mesmo sem televisão nacional.
O Cacerense é o retrato do futebol que ainda pulsa humano.
Onde o torcedor reconhece os jogadores na rua.
Onde o estádio ainda guarda vozes conhecidas.
Onde a camisa parece menos um uniforme e mais uma memória coletiva costurada à mão.
Muito provavelmente seja por isso que, em Cáceres, o futebol nunca tenha sido apenas esporte.
É identidade.
É resistência.
É a cidade dizendo ao mundo, entre o azul do céu pantaneiro e o barro das margens do Paraguai:
“A Fera ainda vive.”
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

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