sábado, 9 de maio de 2026

Destinos melancólicos

    Há destinos que não caminham em estradas abertas. Preferem as esquinas úmidas das grandes cidades, onde a luz dos postes vacila como uma lembrança cansada. Ali, entre passos apressados e vitrines indiferentes, mora uma melancolia silenciosa, feita de encontros que quase aconteceram e despedidas que ninguém percebeu. 

    As cidades grandes carregam um estranho paradoxo: quanto mais pessoas existem, mais a solidão encontra abrigo. Cada janela acesa parece guardar um universo incompleto. Cada rosto no ônibus carrega um segredo que jamais será contado. E as esquinas tornam-se confessionários mudos, onde o destino espera distraidamente alguém que nunca chega. 

    Há algo profundamente poético no homem que atravessa a avenida olhando para o chão, como se procurasse fragmentos de si entre as rachaduras do asfalto. Ou na mulher que fuma diante de uma padaria fechada enquanto a madrugada lentamente dissolve seus sonhos. A cidade os engole sem crueldade, apenas com indiferença. 

    Talvez o destino melancólico das grandes cidades seja justamente esse: ensinar que a vida acontece entre ruídos. Não nos grandes acontecimentos, mas nos pequenos abandonos cotidianos. Na cafeteria vazia depois da chuva. No jornal esquecido sobre o banco da praça. No eco dos passos sob marquises antigas. 

    E ainda assim, existe beleza. Uma beleza triste, quase invisível. Porque as esquinas também guardam os poetas anônimos, os amantes atrasados, os bêbados filosóficos, os músicos cansados, os sonhadores sem mapa. Pessoas que continuam caminhando mesmo quando a cidade já esqueceu seus nomes. 

    As grandes cidades nunca dormem porque são feitas de fantasmas acordados. 

Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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