Há cidades que não dormem porque desaprenderam o silêncio.
Elas respiram fumaça como quem reza um credo invisível, e cada janela acesa parece um olho cansado de testemunhar a própria decadência. O ópio metropolitano não mora apenas nas drogas ou nos vícios explícitos; ele se dissolve também nas telas luminosas, nos discursos repetidos, no consumo desenfreado e na pressa transformada em religião. É um entorpecimento coletivo: multidões anestesiadas caminhando entre anúncios, buzinas e promessas enquanto o espírito se dissolve lentamente sob o concreto.
O cidadão moderno tornou-se um peregrino de corredores artificiais. Trabalha para esquecer, diverte-se para suportar e retorna para casa como quem regressa de uma guerra sem inimigo visível. As avenidas se enchem de corpos, mas esvaziam-se de presença. Há uma espécie de tristeza industrial pairando sobre os edifícios: homens e mulheres que perderam a capacidade de contemplar o céu porque os olhos foram domesticados pelas vitrines.
O ópio da metrópole não adormece apenas a dor, ele neutraliza o espanto. E quando uma sociedade perde o espanto, perde também a sensibilidade diante do sofrimento alheio. O mendigo se torna paisagem. O trabalhador exausto se torna estatística. A solidão transforma-se em costume urbano. Tudo continua funcionando, mas já não pulsa verdadeiramente. A cidade cresce enquanto os cidadãos ruem por dentro, silenciosamente, como colunas corroídas sob um império de néon.
Talvez o maior triunfo desse entorpecimento seja convencer cada indivíduo de que está desperto, quando na verdade apenas repete movimentos condicionados. A fumaça simbólica do ópio sobe pelos arranha-céus e penetra os pensamentos: ela promete pertencimento, sucesso, distração, velocidade. Em troca, cobra a interioridade. Cobra a pausa. Cobra a alma.
Ainda assim, entre becos úmidos, estações vazias e madrugadas insones, sobrevivem alguns poucos que recusam a anestesia completa. São aqueles que ainda observam as rachaduras dos muros, escutam o vento entre os fios elétricos e percebem que há algo profundamente humano se perdendo no coração das grandes cidades. Talvez sejam eles os últimos despertos em meio à fumaça.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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