A imaginação não é uma faculdade dócil, é uma presença. Não nasce conosco como ferramenta, mas como força, dessas que atravessam o corpo sem pedir licença. Há dias em que ela repousa, quase domesticada, permitindo ao poeta acreditar que escreve por vontade própria. Mas há noites em que ela se levanta, inquieta, e percorre os corredores internos com passos que não se podem ignorar.
É então que o pensamento deixa de ser território seguro. As ideias não vêm, invadem. E o poeta, que antes julgava escolher palavras, passa a ser escolhido por elas. Há algo de vertiginoso nisso: perceber que a criação talvez não seja um ato de domínio, mas de rendição. Como se escrever fosse abrir uma porta que não se sabe fechar.
Nesse estado, a imaginação revela sua natureza mais selvagem. Ela não respeita limites morais, nem fronteiras lógicas. Mistura tempos, rompe identidades, dissolve certezas. O poeta sente-se expandido e ameaçado ao mesmo tempo, como se estivesse crescendo para além de si, mas também se perdendo no processo.
Sendo assim surge a pergunta inevitável: até onde isso vai? Até quando se aguenta ser atravessado por algo que não se controla? Porque há um custo. Sempre há. Cada imagem arrancada do escuro traz consigo um fragmento de quem a escreveu. Cada metáfora carrega um desgaste silencioso.
E quando se pensa nisso é possível perceber que há algo que impede o recuo. Talvez seja porque, no fundo, o poeta reconhece naquela força uma espécie de verdade, uma verdade bruta, indomável, que não poderia existir de outra forma. A imaginação, com toda sua violência e beleza, não é apenas um risco: é também uma revelação.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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