Na época da cheia, quando o Rio Paraguai cresce e invade as margens como um animal antigo retomando o que é seu, muitas pequenas ilhas surgem e desaparecem ao redor de Cáceres.
Uma delas é a Baía do Malheiros.
Na maior parte do ano, ela não passa de um pedaço de terra esquecido, cercado de árvores tortas e raízes mergulhadas na água barrenta. Mas quando as águas sobem, a ilha parece se desprender do mundo, um lugar cercado de silêncio, onde o vento sopra devagar e o céu parece mais pesado.
Foi numa dessas cheias que começaram as histórias.
Os pescadores foram os primeiros a comentar.
Um deles, velho Januário, jurou ter visto algo caminhando na ilha numa madrugada. Disse que era um homem — ou algo parecido com um homem — parado entre as árvores.
Imóvel.
Observando o rio.
— Tinha o corpo coberto de lama... e os olhos brilhavam no escuro, contou ele na venda da esquina.
Os outros riram.
Mas três dias depois outro pescador voltou assustado.
Ele havia passado pela baía antes do nascer do sol e viu pegadas enormes na lama da margem. Pegadas humanas… mas largas demais, profundas demais.
E levavam da água para dentro da ilha.
Nunca o contrário.
Com o passar das semanas, surgiram mais relatos.
Um barqueiro disse ter ouvido alguém respirando forte entre as árvores.
Uma mulher afirmou ter visto uma silhueta enorme parada na água até a cintura.
Um rapaz jurou que algo nadou ao lado de sua canoa sem fazer barulho.
E todos começaram a falar da mesma coisa.
O Monstro do Pântano.
Diziam que ele aparecia apenas na cheia.
Que vinha do fundo do Pantanal, carregado pelas águas.
Alguns diziam que era um homem que havia se perdido anos atrás e enlouquecido na solidão da ilha.
Outros diziam que era algo mais antigo.
Algo que já vivia ali muito antes de existirem cidades, estradas ou barcos.
Numa noite de lua fraca, dois jovens decidiram provar que tudo era mentira.
Pegaram uma canoa e atravessaram até a Baía do Malheiros.
A água estava quieta.
Silenciosa demais.
Eles amarraram a canoa em um galho e caminharam pela lama da ilha com lanternas tremendo nas mãos.
A luz revelava troncos retorcidos, raízes grossas e sombras que pareciam se mover.
Então ouviram algo.
Um som pesado.
Respiração.
Lenta.
Profunda.
Como se o próprio pântano estivesse vivo.
As lanternas se voltaram para uma clareira.
E lá estava ele.
Um homem enorme, coberto de barro escuro, com os cabelos longos grudados ao rosto. Seu corpo parecia misturado à vegetação, como se a lama fosse sua pele.
Os olhos refletiam a luz.
Amarelos.
Antigos.
Ele não atacou.
Não correu.
Apenas olhou.
Como quem observa visitantes em um território que não lhes pertence.
Os rapazes fugiram sem olhar para trás.
No dia seguinte, ninguém acreditou na história.
Mas naquele mesmo dia as águas começaram a baixar.
E a ilha ficou novamente silenciosa.
Sem pegadas.
Sem sombras.
Sem monstros.
Até a próxima cheia.
Porque alguns pescadores ainda dizem que, quando a água sobe e a neblina cobre a Baía do Malheiros, é possível ver uma figura parada entre as árvores.
Imóvel.
Observando o rio.
Esperando.
Como se fosse o verdadeiro dono daquele pedaço esquecido do mundo.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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