Depois da derrota da revolta conhecida como Sabinada, o médico e líder rebelde Sabino Vieira foi capturado e condenado ao exílio em terras distantes do Império.
O destino escolhido pelo governo imperial parecia adequado para enterrar uma rebelião:
o vasto e silencioso Mato Grosso.
Era um território imenso, de rios lentos, matas profundas e vilas que pareciam esquecidas pelo tempo.
Ali, acreditavam os governantes, a chama da revolta morreria.
Mas as ideias raramente morrem com facilidade.
Sabino chegou depois de uma longa viagem pelos rios que cortavam o interior do Brasil. O calor era pesado e a paisagem diferente de tudo que conhecera na Bahia.
Rios largos como mares.
Planícies inundadas.
No horizonte, o começo do Pantanal.
Os soldados que o escoltavam acreditavam estar trazendo apenas um prisioneiro político.
Mas os moradores das pequenas vilas logo perceberam outra coisa: aquele homem falava de liberdade como se fosse uma febre.
Alguns anos depois, Sabino conseguiu abrigo em uma fazenda distante, conhecida pelos viajantes como Fazenda Jacobina, uma propriedade isolada entre campos alagados e matas retorcidas.
Dizia-se que ali ninguém fazia perguntas.
A casa era simples, de madeira escurecida pelo tempo. À noite, o silêncio era quebrado apenas pelo canto distante dos pássaros do brejo e pelo sopro do vento sobre os campos.
Sabino passava horas olhando o horizonte.
Às vezes escrevia.
Às vezes apenas pensava.
Um jovem peão da fazenda, chamado Bento, certa vez perguntou:
— O senhor lutou contra o imperador mesmo?
Sabino sorriu, cansado.
— Não lutei contra um homem — respondeu. — Lutei contra o medo que faz os homens aceitarem qualquer governo.
Bento não entendeu completamente.
Mas nunca esqueceu.
Com o tempo, Sabino começou a contar histórias nas noites da fazenda.
Falava das ruas agitadas de Salvador, dos discursos inflamados, da esperança de uma república baiana.
Os peões escutavam em silêncio.
Para eles, a política do Império era distante. Mas aquelas palavras, liberdade, escolha, povo, tinham um peso estranho, como se fossem sementes.
E sementes gostam de terra nova.
Dizem que Sabino tinha um hábito curioso.
Todos os fins de tarde caminhava até a margem de um rio que corria perto da fazenda. Ficava ali parado, olhando a correnteza.
Bento perguntou uma vez:
— O que o senhor vê no rio?
Sabino respondeu:
— O tempo.
— Como assim?
— Ele passa e nunca volta. Por isso precisamos decidir que tipo de mundo deixamos quando ele passa por nós.
Com os anos, Sabino envelheceu naquele pedaço esquecido do Império.
Alguns dizem que morreu ali.
Outros juram que um dia simplesmente partiu pelo rio, numa pequena canoa, desaparecendo entre as curvas das águas.
Nas fazendas antigas do interior de Mato Grosso ainda existe uma história contada nas noites de fogueira:
A de um médico rebelde que chegou como prisioneiro…
e acabou deixando ideias mais perigosas que qualquer revolta.
Porque armas podem ser confiscadas.
Mas ideias, não.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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