quinta-feira, 16 de julho de 2026

Matias de Évora

    Raul sentou-se. Gabriel e Lívia se aproximaram. Havia apenas uma frase legível. 

    Raul leu em voz alta: 

    “No dia em que levantamos a pedra entre dois reinos, um homem sem alma observava da margem do rio.” 

    Ninguém falou. 

    Gabriel olhou para a data. 1754. Depois para o nome. Matias de Évora. Sentiu que alguma coisa acabara de mudar. Até aquele momento, estavam investigando fotografias, relatos e memórias familiares. Agora possuíam uma voz vinda diretamente do passado. E ela falava de Tomé. 

    Raul dobrou cuidadosamente o papel. Do lado de fora, o sol iluminava Cáceres. Pessoas caminhavam pelas ruas. Carros passavam. O rio Paraguai seguia seu curso. Tudo parecia normal. Mas, duzentos e setenta e dois anos antes, um padre estivera diante do Marco do Jauru e vira um homem observando da margem. Um homem sem alma. 

    Gabriel ainda não sabia, mas naquela mesma noite encontraria o restante do manuscrito. E, ao abrir suas páginas, faria algo que os Mendonça haviam evitado durante gerações. Daria novamente voz a um morto. O nome dele era Matias de Évora. E sua história começava em 1754. 

Do romance: O Misterioso Vampiro no Marco do Jauru

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