terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ela cruzou a calçada

    A saia era curta, quase um desafio às convenções daquela rua estreita onde a tarde parecia engasgar no calor. As pernas à mostra se moviam com a confiança de quem conhece bem o próprio corpo, mas sabe que a verdadeira força mora no invisível. 
 
    Ela sorria de dentro de si mesma — não era um sorriso para o mundo, para os curiosos ou para os olhares que se acumulavam nos postes e vitrines. Era um sorriso íntimo, secreto, como quem se lembra de uma promessa feita na véspera ou de um plano prestes a desabrochar. 
 
    Bela, sim. Única, também. Mas sobretudo inesquecível. Porque havia nela alguma coisa que não se podia tocar: um perfume de decisão, uma leveza na contradição entre pudor e ousadia. Quem a via passar sentia por um instante que a vida poderia ser mais larga do que os limites impostos pela rotina — como se aquela mulher abrisse uma pequena fresta no tecido do cotidiano. 
 
    No bar da esquina, um homem levantou os olhos do celular e viu nela algo que não conseguia nomear. Talvez fosse o sorriso que não se oferecia a ninguém. Talvez as pernas que não pediam aprovação. Talvez a pura liberdade de existir para si e não para o teatro dos outros. 
 
    Ela cruzou a calçada, pediu um café, e esperou. Não por companhia, não por destino — esperou apenas o café. Sentou-se com a dignidade dos que não precisam negociar presença, e apoiou o queixo na palma da mão, observando o sol mover-se como um leão preguiçoso do outro lado da avenida. 
 
    Por alguns minutos, todas as discussões da cidade — as dívidas, as invejas, os suspiros, os tédios — ficaram suspensas num silêncio cúmplice. Havia algo nela que interrompia a lógica das horas. E foi assim que alguns entenderam, e outros não, que o mundo ainda podia produzir beleza sem pedir licença. 
 
    Terminado o café, levantou-se, ajeitou a saia, e voltou a sorrir — dessa vez um pouco mais por fora, mas apenas o suficiente para deixar curiosidade no ar. 
 
    E partiu. 
 
    Mais tarde, ninguém lembraria o nome que não foi dito, nem o perfume que o vento carregou. Mas todos diriam: “Houve uma mulher hoje. Curtíssima de saia, altíssima de silêncio. E ainda não sabemos ao certo o que ela levou daqui.” 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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