Nos anos 90, quando São Paulo ainda parecia um planeta estrangeiro para qualquer jovem do interior, Zé Mosquito desembarcou na metrópole com o mesmo entusiasmo de quem acredita que o mundo é uma extensão natural da própria rua.
Zé Mosquito — apelido herdado sabe-se lá de qual maldade infantil — era um espécime raro em Cáceres. Branco, magro, olhos esverdeados, dono de uma extroversão quase irresponsável. Em uma cidade onde o sol castigava todos por igual, ele destoava como um erro estatístico, uma espécie de importação genética extraviada. Caminhava com a confiança de quem jamais desconfiou da própria insignificância.
São Paulo o atingiu como um caminhão carregado de excesso: prédios demais, gente demais, pressa demais. Mas Zé Mosquito não se intimidava. Para ele, tudo era espetáculo. O barulho era charme. A fumaça era glamour. Até o cinza tinha certo erotismo cosmopolita.
Na segunda noite, já devidamente contaminado pelo espírito urbano, juntou-se a um grupo de conterrâneos improvisados — jovens que compartilhavam o mesmo orçamento curto e as mesmas ambições infladas. Resolveram, como manda o ritual turístico masculino da época, procurar uma casa noturna.
Entraram em um lugar que piscava luzes neon com a convicção de um templo pagão. Lá dentro, o ar era uma mistura de perfume barato, esperança artificial e decisões questionáveis. Zé Mosquito, encantado, sentia-se um personagem de videoclipe.
— Hoje eu viro paulistano — decretou, ajeitando o cabelo com um gesto ensaiado.
Entre uma música eletrônica mal compreendida e outra, ele avistou uma garota. Nada extraordinário, exceto pelo fato de que, naquela atmosfera carregada de pretensão, qualquer rosto feminino adquiria automaticamente a aura de destino inevitável.
Aproximou-se com sua coragem típica — aquela que só os ingênuos possuem.
— Você dança? — perguntou, já dançando antes da resposta.
Ela riu. Dançaram. Conversaram. A noite avançava como sempre avança: prometendo mais do que poderia entregar.
Até que, em meio ao diálogo trivial, Zé Mosquito fez a pergunta clássica, quase burocrática:
— Você é de onde?
A garota respondeu sem hesitar:
— Cáceres.
O mundo parou.
Não metaforicamente. Parou mesmo. Ao menos dentro da cabeça de Zé Mosquito. O neon pareceu falhar. A música virou ruído distante. Ele a encarou como quem vê uma assombração geográfica.
— Cáceres… Mato Grosso? — balbuciou, incrédulo.
— Sim. Nascida no Junco!
Havia algo de cruelmente cômico na situação. Zé Mosquito viajara milhares de quilômetros, atravessara expectativas, vencera o choque cultural, apenas para esbarrar na mais improvável das coincidências: a familiaridade.
Sentiu uma espécie de vertigem existencial. São Paulo, gigante e indiferente, zombava dele. Entre milhões de habitantes, fora justamente encontrar alguém da própria terra.
— Mas… como? — insistiu, como se a moça devesse explicações ao destino.
Ela deu de ombros.
— Peguei um ônibus.
A simplicidade da resposta tinha o peso de uma bofetada filosófica.
Naquele instante, Zé Mosquito compreendeu algo terrível sobre o universo: não importava o tamanho da cidade, o interior é um estado mental impossível de abandonar. Cáceres, aparentemente, possuía tentáculos metafísicos.
O resto da noite transcorreu sob uma estranha melancolia cômica. Já não havia exotismo, mistério ou conquista épica. Apenas dois cacerenses deslocados, unidos pela ironia cósmica, dançando em uma São Paulo que não fazia a menor questão de notar suas crises identitárias.
Ao sair, Zé Mosquito tragou o ar poluído com certa resignação. São Paulo continuava imensa. Mas o mundo, percebeu ele, era pequeno demais para qualquer ilusão de fuga.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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