terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O olho do cavalo

    Ele nunca contou essa história como quem se absolve. Contava como quem revisita uma ferida que não fecha — nem deve. 
 
    Naquele tempo, ele cuidava da fazenda como quem cuida de algo maior que si. Acordava antes do sol, conhecia o humor dos animais pelo som do casco no chão, pelo modo como o vento atravessava o curral. Sabia que bicho também sente medo, e que o medo, quando não encontra saída, vira fúria. 
 
    O cavalo era arisco. Não de agora — sempre fora. Um animal bonito, forte, mas com o olhar inquieto, como se enxergasse perigos onde ninguém mais via. Meu pai tentava separá-lo dos outros. Voz firme, passos medidos. Mas havia dias em que a paciência não alcança o corpo. Há dias em que o gesto vem antes do pensamento. 
 
    O cavalo avançou. Um segundo apenas. Meu pai pegou o que estava à mão — um pedaço de pau — e lançou. Não para ferir. Não para punir. Para afastar. Mas o mundo não respeita intenções. 
 
    O impacto foi seco. O cavalo relinchou de um jeito que não se esquece. Um som que não pede socorro — acusa. Quando meu pai se aproximou, entendeu tudo sem precisar olhar duas vezes. O olho já não via. Talvez nunca mais visse. 
 
    O tempo parou ali. Não como nos filmes, mas como para quando algo em nós se quebra e não sabemos ainda o nome daquilo. Ele diz que, naquele instante, pensou em tudo. No trabalho. No dono da fazenda. No dinheiro que não tinha. Pensou, sobretudo, na facilidade da mentira. 
 
    Era simples. Bastava dizer que encontrara o cavalo assim. Que alguém antes dele. Que um acidente antigo. O mundo aceitaria. O mundo sempre aceita explicações que aliviam o peso de quem fala. 
 
    Mas a consciência — ele diz — não aceita atalhos. 
 
    Ele ficou ali um tempo, em silêncio, com o cavalo respirando pesado, tentando se equilibrar em um mundo que agora lhe faltava pela metade. Meu pai não sabia explicar o que sentia, só sabia que não conseguiria viver carregando uma mentira tão grande quanto aquele olho apagado. 
 
    Quando contou ao dono, não levantou a voz. Não tentou justificar. Disse apenas o que havia feito. Disse como quem entrega algo que já não é seu: a própria tranquilidade. 
 
    Houve consequências. Houve palavras duras. Houve perdas. Mas não houve fuga. 
 
    Hoje, quando ele conta essa história, não romantiza o erro. Não pede perdão indireto. Ele apenas diz: 
 
    — Eu errei. E paguei. Mas não traí a minha consciência. 
 
    E eu entendo, ouvindo em silêncio, que aquele dia não cegou apenas um cavalo. Aquele dia abriu, em meu pai, um tipo raro de visão — aquela que nos acompanha pelo resto da vida e nos obriga a olhar para nós mesmos sem desviar o rosto. 
 
    Algumas verdades custam caro. Mas mentir para a própria consciência custa a vida inteira. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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