A reunião de apresentação aos pais terminou como sempre termina: com cadeiras silenciosas, café ralo no fundo da garrafa térmica e uma sensação difusa de que ninguém saiu exatamente satisfeito — nem os pais, nem os professores, nem a escola, esse organismo cansado que finge respirar normal.
Foi então que os três se encontraram na petiscaria próxima da Catedral, como quem busca abrigo depois de uma tempestade que não molhou, mas cansou.
O professor de Matemática pediu um chopp bem gelado, já que, como costumava dizer, não comia frango. Disse, ainda tirando o nó da gravata imaginária, que o problema não eram os alunos, nem os pais — era a expectativa de que tudo fechasse como uma equação perfeita.
— Querem resultado exato num sistema cheio de variáveis invisíveis — resmungou, olhando o copo como se ele pudesse resolver algo.
O professor de História pediu uma porção de frango e batata frita. Disse que já tinha visto aquele discurso antes, em outras décadas, com outras palavras, mas o mesmo tom de cobrança.
— A cada geração, alguém acha que a educação “já foi melhor”. É um clássico — comentou, sorrindo de canto. — Daqui a vinte anos, esses mesmos pais vão dizer a mesma coisa dos filhos deles.
O terceiro, com ar mais reflexivo, já que ensinava História e Filosofia, demorou mais a escolher. Pediu uma porção de frango e batata frita e uma Coca-Cola, mas falou baixo, como se estivesse continuando um pensamento antigo.
— O curioso — disse — é que ninguém pergunta o que a escola é. Só perguntam o que ela entrega. Transformaram formação em produto, e a gente em operário da esperança alheia.
O Matemático riu curto.
— Se ao menos nos dessem as ferramentas certas… — começou.
— Ferramentas não resolvem tudo — interrompeu o Historiador. — Império nenhum caiu por falta de ferramenta. Caiu por excesso de certeza.
Houve um silêncio breve, quebrado pelo barulho de uma criança que corria na brinquedoteca do estabelecimento e caiu próximo a eles. O professor de História e Filosofia tomou um gole da Coca-Cola e concluiu:
— O que mais me espanta é isso: pais querem que os filhos sejam críticos, mas se incomodam quando eles questionam. Querem liberdade com gabarito.
O Matemático fez um risco imaginário na mesa com o dedo.
— No fundo, todo mundo quer controle. Até do futuro.
— E o futuro — disse o Historiador — sempre responde com ironia.
Foi nesse instante que a atendente chegou com a conta que havia sido pedida pelo Matemático.
— O Senhor quer mais um chopp?
— O "Senhor" abençoe a todos nós...
Riram. Não alto, mas daquele riso cansado de quem reconhece a própria fragilidade.
Quando pagaram a conta, já era noite fechada. Voltaram para casa sabendo que no dia seguinte estariam de novo na sala de aula, repetindo explicações, tentando abrir frestas. Não para salvar o mundo — isso eles já tinham aprendido que não dava —, mas para manter acesa a teimosia de ensinar.
E isso, concordaram em silêncio, já era um pequeno ato de resistência. Afinal, ali naquela petiscaria, naquela noite, três lendas haviam debatido e pensado educação e amizade.
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

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