1.
A temporalidade do instante não me assusta.
O que me aflige é a mediocridade dos que respiram o agora
como se o futuro fosse um privilégio e não uma sentença.
Ignoram que o destino é imparcial,
e que a morte não exige convites.
2.
Não temo o tempo — ele é apenas o mordomo da eternidade.
O que me fere é a pequenez dos afetos,
a mesquinhez dos que não percebem
que a mesma campainha baterá às nossas portas.
Uns fazem do instante um templo;
outros, um depósito de banalidades.
3.
A transitoriedade do momento é um consolo.
Assusta-me mais a tibieza dos sentimentos,
essa incapacidade de arder, de querer, de sofrer.
Pois a todos é reservado o mesmo fim,
e ainda assim há quem passe pela vida
sem sequer tocar o próprio pulso.
4.
O tempo não me intimida — é só um cobrador paciente.
O que atormenta é a mediocridade emocional
daqueles que fingem sentir
e não percebem que o destino ri de todos,
sem exceção, sem distinção, sem aplausos.
5.
Não é o instante fugidio que me alarma.
É o coração domesticado, raso, conveniente.
Pois se todos marchamos para a mesma escuridão,
que ao menos o caminho seja febril —
o contrário é morrer duas vezes.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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