Há um palco, sempre iluminado demais. Nele sobem vozes que aprenderam a projetar o tom, a modular a indignação, a ensaiar a virtude. Cada frase parece espontânea, mas carrega o peso invisível do roteiro: manchetes, algoritmos, discursos prontos, frases de efeito repetidas até se tornarem reflexos.
Nos bastidores, quase ninguém entra.
O público, sentado na plateia, acredita assistir à verdade. Ri quando mandam rir. Vaia quando o letreiro acende a palavra “escândalo”. Aplaude quando a trilha sonora cresce. E, pouco a pouco, esquece que também é parte da peça. Porque no teatro da opinião, o espectador não é apenas quem observa — ele é figurante. Sua reação sustenta a narrativa.
Há personagens fixos:
o vilão da semana,
o herói provisório,
o traidor inesperado,
a vítima conveniente.
E como toda dramaturgia, a opinião pública precisa de conflito. Precisa de tensão. Precisa de antagonistas claros. A complexidade não vende ingressos; a ambiguidade não enche auditórios. Então simplifica-se o mundo até que ele caiba num slogan.
O problema não é o teatro. O problema é esquecer que se trata de uma encenação.
Quando a opinião pública vira verdade absoluta, a cortina se fecha sobre o pensamento crítico. O julgamento antecede o fato. A emoção precede a análise. O aplauso substitui o argumento.
Mas existe algo curioso: fora do palco, no silêncio dos corredores, a verdade costuma ser mais sussurrada que proclamada. Ela não usa figurino chamativo. Não precisa de plateia. Às vezes, é quase invisível — como um ensaio secreto que nunca estreia.
Talvez maturidade seja isso: sair da plateia por alguns instantes. Caminhar pelos bastidores. Perguntar quem escreveu o roteiro. Perguntar quem lucra com o espetáculo. Perguntar por que certos personagens nunca têm fala.
Em um mundo saturado de aplausos e vaias instantâneas, pensar tornou-se um ato quase subversivo.
E talvez a liberdade comece quando nos recusamos a repetir falas que não escrevemos — quando percebemos que podemos ser autores, e não apenas atores, do drama coletivo.
Porque no fim, o teatro da opinião pública só existe enquanto aceitamos assistir sem questionar.
E a cortina só desce quando alguém decide acender as luzes da plateia.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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