Num futuro próximo, nada de tecnologia absurda ou naves — tudo é estranhamente plausível.
Décadas antes, grandes corporações iniciaram a exploração de um minério raro descoberto sob o solo do Pantanal. Prometia revolucionar energia e baterias. Governos cederam. Povoados desapareceram. O solo foi perfurado.
Então veio a chuva.
Não uma tempestade. Não uma estação.
Uma chuva constante.
Dias. Meses. Anos.
Os rios transbordaram até deixarem de ser rios. A planície virou um único espelho cinza e interminável. Cidades submergiram. Árvores morreram de pé. Estradas sumiram como cicatrizes apagadas.
Ninguém conseguiu explicar se a chuva foi uma reação climática, química… ou algo despertado.
Os sobreviventes não vivem em terra.
Vivem acima dela.
Comunidades inteiras foram erguidas sobre palafitas — labirintos de madeira velha, telhados de zinco, cordas, passarelas escorregadias. Tudo range. Tudo cheira a umidade. Tudo apodrece lentamente.
O som da chuva nunca cessa.
Ela virou o próprio tempo.
As crianças não sabem o que é silêncio.
A água não trouxe apenas destruição.
Trouxe alterações.
Animais expostos às áreas de mineração começaram a sofrer mutações. Peixes com estruturas ósseas externas. Jacarés com deformações grotescas. Aves incapazes de voar.
Mas o pior não foram os animais conhecidos… Foram os que ninguém reconhece.
Coisas que se movem sob a água turva.
Coisas que aprenderam a subir nas palafitas.
Coisas que parecem erradas demais para serem naturais.
Alguns sobreviventes acreditam que as criaturas não são apenas mutações.
Mas metamorfoses.
Como se algo estivesse sendo lentamente reescrito.
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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