Choveu durante sete dias.
Chuva espessa, úmida, sem trégua, como se o céu tivesse esquecido o que era parar.
O rio Paraguai cresceu em silêncio, transbordando devagar, como um animal que acorda depois de muito sono.
Na oitava noite, as águas chegaram até a Praça Barão.
A fenda aberta pela estátua do Marco do Jauru cuspia vapor quente e lama, e o túnel, antes selado, agora respirava.
O padre Augusto e Laura estavam lá.
Os militares haviam abandonado o local — ninguém queria permanecer por perto.
O ar cheirava a ferro e a mofo antigo.
Laura iluminou a entrada com uma lanterna.
— Padre, se há respostas, estão aqui.
Ele hesitou.
— E se não houver?
— Então restará o que sobrar da verdade.
Desceram.
Os degraus eram irregulares, cobertos de limo.
As paredes, cheias de símbolos gravados à mão — rostos sem olhos, correntes, inscrições que misturavam latim, português arcaico e rezas africanas.
No fundo, um corredor estreito levava a uma grande câmara circular.
Havia ali o que parecia um altar.
E, ao redor, dezenas de ossadas humanas, empilhadas com cuidado ritual.
No centro do altar, um cálice de pedra, ainda úmido, como se alguém o tivesse usado há pouco.
O padre tocou o chão. Estava morno.
Laura se ajoelhou diante das ossadas e percebeu algo gravado nos crânios: pequenas marcas, idênticas às formas das pragas — formigas, abelhas, corvos, gafanhotos, vespões… e algo que lembrava escamas.
— Eles foram selados aqui — sussurrou ela. — Escravizados, sacrificados e depois esquecidos.
O padre assentiu, com a voz embargada:
— E o Barão quis transformar a dor em fundação.
O som do rio começou a aumentar, um rugido grave, próximo.
O túnel tremia.
Do fundo, veio um estalo — depois outro, depois um rugido.
Jacarés.
Enormes, antigos, vindos das entranhas do rio.
Seus olhos brilhavam como brasas sob a luz da lanterna.
Não pareciam bestas — pareciam guardiões.
Eles avançaram lentamente, cercando o altar, mas não atacaram.
Pararam diante de Laura e do padre, imóveis, respirando.
E então, do interior da parede, uma voz — rouca, profunda, de muitas vozes misturadas — começou a falar:
“Sete selos. Sete pragas.
Aqui dormem os que o Barão calou.
O sangue chamou o sangue.
E a cidade esqueceu.”
Laura sentiu o chão pulsar sob os joelhos.
O padre ergueu o crucifixo e murmurou uma prece, mas a voz o interrompeu:
“Não há absolvição sem lembrança.”
As águas começaram a subir.
O túnel inteiro tremia como um corpo em febre.
Os jacarés recuaram, voltando às águas, e o altar se partiu ao meio, revelando uma caixa de ferro incrustada no chão.
Laura tentou tocá-la, mas uma descarga percorreu sua mão — uma corrente viva, feita de passado.
Do lado de fora, o rio invadiu a praça, arrastando carros, árvores e postes.
Cáceres se tornava novamente o pântano de onde nascera.
Laura e o padre subiram com dificuldade, cobertos de lama e medo.
Atrás deles, o túnel se fechava, engolido pela água.
A estátua do Barão tombou, rachando de cima a baixo, e caiu no rio.
De longe, Seu Adão observava a enchente com os olhos marejados.
— Seis já despertaram — murmurou. — Só falta a língua das serpentes pra contar o resto.
Continua...
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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