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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 6) - Os Jacarés

    Choveu durante sete dias. Chuva espessa, úmida, sem trégua, como se o céu tivesse esquecido o que era parar. O rio Paraguai cresceu em silêncio, transbordando devagar, como um animal que acorda depois de muito sono. 
 
    Na oitava noite, as águas chegaram até a Praça Barão. A fenda aberta pela estátua do Marco do Jauru cuspia vapor quente e lama, e o túnel, antes selado, agora respirava. 
 
    O padre Augusto e Laura estavam lá. Os militares haviam abandonado o local — ninguém queria permanecer por perto. O ar cheirava a ferro e a mofo antigo. Laura iluminou a entrada com uma lanterna. 
 
    — Padre, se há respostas, estão aqui. 
 
    Ele hesitou. 
 
    — E se não houver? 
 
    — Então restará o que sobrar da verdade. 
 
    Desceram. Os degraus eram irregulares, cobertos de limo. As paredes, cheias de símbolos gravados à mão — rostos sem olhos, correntes, inscrições que misturavam latim, português arcaico e rezas africanas. No fundo, um corredor estreito levava a uma grande câmara circular. 
 
    Havia ali o que parecia um altar. E, ao redor, dezenas de ossadas humanas, empilhadas com cuidado ritual. No centro do altar, um cálice de pedra, ainda úmido, como se alguém o tivesse usado há pouco. 
 
    O padre tocou o chão. Estava morno. Laura se ajoelhou diante das ossadas e percebeu algo gravado nos crânios: pequenas marcas, idênticas às formas das pragas — formigas, abelhas, corvos, gafanhotos, vespões… e algo que lembrava escamas. 
 
    — Eles foram selados aqui — sussurrou ela. — Escravizados, sacrificados e depois esquecidos. 
 
    O padre assentiu, com a voz embargada: 
 
    — E o Barão quis transformar a dor em fundação. 
 
    O som do rio começou a aumentar, um rugido grave, próximo. O túnel tremia. Do fundo, veio um estalo — depois outro, depois um rugido. 
 
    Jacarés. Enormes, antigos, vindos das entranhas do rio. Seus olhos brilhavam como brasas sob a luz da lanterna. Não pareciam bestas — pareciam guardiões. 
 
    Eles avançaram lentamente, cercando o altar, mas não atacaram. Pararam diante de Laura e do padre, imóveis, respirando. E então, do interior da parede, uma voz — rouca, profunda, de muitas vozes misturadas — começou a falar: 
 
    “Sete selos. Sete pragas. Aqui dormem os que o Barão calou. O sangue chamou o sangue. E a cidade esqueceu.” 
 
    Laura sentiu o chão pulsar sob os joelhos. O padre ergueu o crucifixo e murmurou uma prece, mas a voz o interrompeu: “Não há absolvição sem lembrança.” 
 
    As águas começaram a subir. O túnel inteiro tremia como um corpo em febre. Os jacarés recuaram, voltando às águas, e o altar se partiu ao meio, revelando uma caixa de ferro incrustada no chão. Laura tentou tocá-la, mas uma descarga percorreu sua mão — uma corrente viva, feita de passado. 
 
    Do lado de fora, o rio invadiu a praça, arrastando carros, árvores e postes. Cáceres se tornava novamente o pântano de onde nascera. 
 
    Laura e o padre subiram com dificuldade, cobertos de lama e medo. Atrás deles, o túnel se fechava, engolido pela água. A estátua do Barão tombou, rachando de cima a baixo, e caiu no rio. 
 
    De longe, Seu Adão observava a enchente com os olhos marejados. 
 
    — Seis já despertaram — murmurou. — Só falta a língua das serpentes pra contar o resto. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 19 de julho de 2023

O homem que encontrou o sentido da vida na poesia

    Conta-se uma história, não posso afirmar se é totalmente verdadeira, que havia um homem de meia idade chamado Alfredo, que um dia se viu abandonado pela esposa e filhos. A dor da rejeição e a solidão o consumiam, deixando-o perdido em um mar de tristeza e perguntas sem resposta. Em busca de refúgio, ele se protegeu em sua pequena casa na periferia da cidade. Ali, entre as paredes vazias e as memórias desvanecidas, ele mergulhou em um mundo de introspecção. Sua mente se tornou um labirinto de simbolismos e múltiplas dimensões, onde ele vagava entre sonhos e pesadelos. A linha entre a realidade e a ilusão se tornou cada vez mais tênue. 

    No silêncio da noite, Alfredo escreveu em seu diário, tentando decifrar os enigmas da existência. Suas palavras fluíam como rios de tinta, carregando consigo suas dúvidas e anseios mais profundos. A poesia se tornou sua companheira fiel, uma ponte entre o mundo exterior e seu interior tumultuado. Em seus pensamentos, ele encontrou conforto na beleza das palavras, na forma como elas puderam capturar a essência da vida e expressar emoções indescritíveis. Ele descobriu que a poesia era sua âncora em meio ao caos, uma ferramenta para explorar as universidades mais profundas de sua alma. 

    À medida que mergulhou mais fundo em sua jornada de autorreflexão, Alfredo sentiu que a resposta para sua busca por significado não estava em encontrar respostas concretas, mas sim em abraçar a conversa e encontrar beleza nas interrogações que a vida apresenta. Através de sua exploração do mundo interno, o homem começou a vislumbrar uma teia invisível que conectava todas as coisas. Ele sentiu que a solidão não era um fardo, mas uma oportunidade de se reconectar consigo mesmo e com o universo ao seu redor. 

    Aos poucos, Alfredo encontrou um equilíbrio entre a luz e a escuridão dentro de si. Ele aprendeu a aceitar suas próprias fraquezas e encontrar força em suas vulnerabilidades. Seus sonhos se transformaram em portais para mundos desconhecidos, onde ele explorava possibilidades infinitas e encontrava respostas em lugares inesperados. Enquanto sua jornada continuou, Alfredo descobriu que a vida não é sobre encontrar todas as respostas, mas sobre abraçar as perguntas e permitir que elas guiem sua jornada. Ele se tornou um mestre da poesia, transmitindo sua visão única do mundo através de versos que tocavam o coração daqueles que os liam. 

    Embora a esposa e os filhos dele nunca tenham retornado, ele descobriu que a verdadeira felicidade não estava em buscar a aprovação externa, mas em encontrar a paz dentro de si mesmo. A solidão não era mais um peso, mas um espaço sagrado onde ele podia se reconectar com sua essência mais profunda. 

    Alfredo, o homem de meia idade abandonado, encontrou um novo propósito em sua jornada. Ele abraçou os mistérios da existência e encontrou um lar nas palavras. Sua história tornou-se um testemunho de que, mesmo nas tristezas da solidão, podemos descobrir uma beleza única que nos liberta e nos conecta com a grandeza do universo. 

    Algumas pessoas procuram os diários de Alfredo e suas anotações tão ricas em detalhes sobre a existência humana e os simbolismos da vida, mas ele deve ter escondido em algum lugar onde as pessoas não encontrem. As lições sobre superação e força de vontade para vencer na vida é o que mais pode ser destacado na história de Alfredo. Todas as pessoas no mundo vão passar por decepções e aflições. Mas o que cada um faz de sua vida é que pode dar sentido na caminhada. Alfredo encontrou esse sentido na poesia. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense