segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A filha da manicure

    A garota era muito linda — dessas belezas que não pedem licença ao mundo. Tinha o rosto delicado, os olhos fundos como se carregassem perguntas antigas, e um sorriso raro, guardado como objeto frágil. Mas não tinha braços. Nunca tivera. E aprendera cedo que o mundo costuma reparar primeiro no que falta antes de enxergar o que existe. 
 
    A mãe, ao contrário, parecia ter braços demais. Braços incansáveis, mãos firmes, dedos precisos. Era manicure — e não uma qualquer. Seu nome corria de boca em boca pelas ruas, pelos salões improvisados nas casas, pelas mulheres que esperavam semanas por um horário. Diziam que ela não apenas pintava unhas, mas devolvia dignidade. Em cada gesto havia cuidado, em cada esmalte, uma promessa de beleza possível mesmo em dias difíceis. 
 
    A garota cresceu sentada ao lado da mesa pequena onde a mãe trabalhava. Observava tudo em silêncio: o algodão embebido em acetona, o alicate brilhando sob a luz fraca, os vidrinhos coloridos alinhados como um exército dócil. Aprendeu os nomes das cores antes mesmo de aprender a escrever. Vermelho paixão. Nude discreto. Azul coragem. 
 
    O desejo nasceu ali — não de ter braços, apenas, mas de ter a disposição da mãe. Aquela força que acordava cedo, que não reclamava, que sustentava a casa com as próprias mãos. A garota queria sentir esse cansaço bom no fim do dia. Queria dizer “trabalhei”. Queria ser necessária. 
 
    Mas o corpo impunha seu silêncio. 
 
    Houve dias em que chorou escondida, mordendo o lábio para não interromper o trabalho da mãe. Dias em que odiou a própria beleza, como se ela fosse um deboche do destino: tão perfeita por fora, tão limitada aos olhos do mundo. O espelho era cruel. Mostrava-lhe tudo o que era — e tudo o que diziam que ela jamais seria. 
 
    A mãe percebia. Sempre percebia. 
 
    — Você tem mãos que o mundo não vê — disse certa vez, enquanto lixava uma unha com paciência infinita. — Mãos que pensam. Mãos que sentem. 
 
    A garota não respondeu. Mas guardou a frase como quem guarda uma semente. 
 
    Com o tempo, começou a ajudar como podia. Organizar horários usando a voz. Escolher cores com precisão quase mágica. Aconselhar clientes que vinham mais pelo desabafo do que pela manicure. Tornou-se parte do ritual. Parte do sucesso. Parte da fama silenciosa da mãe. 
 
    E então algo mudou. 
 
    As clientes começaram a pedir a opinião da garota. Depois, passaram a marcar horário “com as duas”. A mãe fazia as unhas. A filha acolhia. O salão improvisado virou refúgio. Beleza e escuta. Cuidado e palavra. 
 
    A garota nunca teve braços. Nunca teve mãos. Mas descobriu que também existia trabalho feito de presença, de atenção, de sensibilidade. Um trabalho que não sangra os dedos, mas cansa a alma — e ainda assim vale a pena. 
 
    Um dia, ao fechar o último esmalte, a mãe olhou para a filha e sorriu cansada. 
 
    — Você tem mais disposição que eu — disse. 
 
    A garota sorriu de volta. 
 
    E pela primeira vez, sentiu-se inteira. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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