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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 7) - As Víboras

    O silêncio depois da enchente era o mais assustador. Cáceres parecia suspensa no tempo — ruas cobertas de lama, postes caídos, janelas quebradas. O rio dormia outra vez, mas o ar ainda tinha gosto de ferro. 
 
    As rádios falavam em tragédia natural. Os sobreviventes, em castigo divino. Mas na Praça Barão, onde o chão ainda fumegava, havia quem soubesse que o fim não era apenas físico. 
 
    Laura caminhava entre os escombros. Os pés afundavam na lama espessa, e sob cada passo, sentia algo se mover — como se a terra respirasse. Ao seu lado, o padre Augusto carregava um crucifixo quebrado, os olhos fundos e febris. 
 
    — A cidade dorme — disse ele. — Mas há algo que ainda não descansou. 
 
    Laura olhou o horizonte. O sol nascia vermelho sobre o rio. 
 
    — A sétima virá com o dia — respondeu. 
 
    O primeiro sibilo veio do cais. Depois, outro, e mais outro. Em minutos, o som das víboras tomou a praça. 
 
    Elas surgiam de todos os lados — do túnel soterrado, das bocas de bueiro, dos galhos das árvores. Eram verdes, negras, amarelas — uma dança hipnótica e silenciosa. Mas não atacavam. Apenas cercavam. 
 
    O padre ajoelhou-se, exausto. 
 
    — Que seja feita a vontade Dele. 
 
    Laura se aproximou, observando o chão rachar sob seus pés. 
 
    E então, do centro da praça, onde antes erguia-se o Marco do Jauru, o solo se abriu. Um clarão branco, quente e pulsante subiu, iluminando tudo. Dentro dele, as silhuetas das sete pragas se ergueram — formigas, abelhas, corvos, gafanhotos, vespões, jacarés e víboras — todas unidas num só corpo, feito de sombra e luz. 
 
    “Vocês construíram sobre ossos. Fizeram da dor um alicerce. Mas nada fica enterrado para sempre.” 
 
    A voz soava dentro da mente deles. Laura caiu de joelhos, lágrimas e terra misturando-se em seu rosto. 
 
    — Quem fala comigo? — gritou. 
 
    “Os que foram esquecidos. Os que o Barão silenciou. Os que guardaram o pacto que agora se desfaz.” 
 
    O padre ergueu o crucifixo partido. 
 
    — Então é o fim. 
 
    “Não. É o recomeço.” 
 
    A luz se expandiu, cobrindo toda a praça. Por um instante, o tempo parou. As víboras se dissolveram no ar, e o clarão se desfez como neblina. 
 
    Quando o dia clareou, a Praça Barão estava vazia. Nem uma cobra, nem um corpo, nem um vestígio das pragas. Somente uma nova estátua erguida no centro — ninguém a vira ser colocada ali. Representava uma mulher segurando um cálice, com o rosto metade humano, metade serpente. Na base, uma inscrição: 
 
    “A terra lembra.” 
 
    Os moradores voltaram aos poucos, tentando reconstruir o que restava. Mas havia um rumor entre os mais antigos — de que, nas madrugadas sem lua, era possível ouvir o sussurro das víboras vindo do rio. E que, às vezes, quem se aproximava demais do cais jurava ver uma mulher de olhos verdes observando da água, em silêncio, guardando o que restou do pacto. 
 
    Seu Adão desapareceu naquela semana. Alguns diziam que foi levado pela enchente, outros que seguiu o curso do rio até desaparecer no Pantanal. Mas Laura sabia: ele fora o último guardião. 
 
    Na parede de seu antigo quarto, ela encontrou um bilhete úmido, escrito à mão: 
 
    “As pragas não vieram para destruir. Vieram para lembrar. Que o que é negado volta. Sempre.” 
 
    E, ao longe, quando o vento soprava sobre as águas do Rio Paraguai, o murmúrio das serpentes ainda ecoava — como uma oração antiga, como um aviso, como o último segredo da Praça Barão. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 8 de novembro de 2025

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 2) - As abelhas

    A semana passou como uma sombra que finge ser luz. Na segunda-feira, a prefeitura anunciou que tudo estava sob controle. “Um surto natural”, disseram. “Fenômeno isolado.” Mas quem passou pela Praça Barão naquela manhã sentiu o ar diferente — como se o vento evitasse tocar o chão. 
 
    Os garis lavaram o piso com jatos de água e cloro. O cheiro de formigas queimadas misturava-se ao perfume das árvores e à lembrança recente dos gritos. Mesmo assim, na sexta-feira seguinte, os bares voltaram a abrir. Porque o medo, quando não tem explicação, logo vira costume. 
 
    Entre as mesas, sentava-se Dra. Laura Nogueira, bióloga da universidade local. Ela observava o movimento enquanto tomava uma cerveja morna. Estava ali por curiosidade científica — ou talvez por inquietação. As amostras das formigas que recolhera não faziam sentido algum: espécies de regiões distintas, impossíveis de coexistirem, agindo como um só organismo. 
 
    Mas o que mais a perturbava era outra coisa. Nas lâminas de microscópio, entre os fragmentos, havia uma substância escura, viscosa — como se fosse sangue fossilizado. 
 
    Laura olhava para o chão da praça e imaginava raízes de carne, veias antigas pulsando sob os paralelepípedos. Ela não sabia explicar, mas sentia que aquilo não era apenas biologia. Era memória. 
 
    Pouco antes do pôr do sol, o padre Augusto se aproximou dela. Um homem alto, olhar cansado, conhecido pelos sermões sobre pecado e esquecimento. 
 
    — A senhora acredita em coincidências, doutora? — perguntou, com a voz rouca. 
 
    — Em ciência, padre, coincidência é apenas o nome que damos ao que ainda não entendemos. 
 
    Ele assentiu. 
 
    — Então a senhora entenderá logo. A segunda praga está a caminho. 
 
    Laura riu, mas o riso morreu antes de nascer. O ar, de repente, ficou espesso. O vento cessou. E um zumbido começou a crescer, distante, metálico — como se o céu estivesse se abrindo. 
 
    De repente, uma nuvem negra cobriu o entardecer. Abelhas. Milhares. Talvez milhões. 
 
    Elas desciam como uma chuva viva, grudando em cabelos, roupas, rostos. O som era ensurdecedor. As pessoas corriam, tropeçavam, batiam nas portas dos bares. O zumbido se tornava grito. 
 
    O padre agarrou Laura pelo braço e a arrastou para dentro da igreja em frente à praça. Fechou as portas. As janelas tremeram sob o impacto das abelhas. De fora, vinham gritos, orações, o som de copos quebrando e motores tentando fugir. 
 
    — Padre, o que é isso? — ela perguntou, apavorada. 
 
    Ele olhou para o crucifixo e respondeu baixo: 
 
    — No Êxodo, as pragas não vinham do céu nem da terra. Vinham da culpa dos homens. 
 
    Lá fora, o céu parecia arder. As abelhas atacavam sem razão, cegas, furiosas, e quando finalmente o vento as dispersou, a praça era um deserto de corpos e asas partidas. 
 
    Mais uma sexta-feira. Mais um selo rompido. 
 
    Na manhã seguinte, os jornais chamavam de “tragédia natural”. Mas Laura, diante de seu microscópio, viu algo novo nas asas das abelhas mortas: símbolos minúsculos, como inscrições queimadas na quitina. Letreiros invisíveis à vista comum. 
 
    Ela anotou no caderno: “Não são apenas insetos. São mensageiros. E o que querem transmitir é mais antigo do que nós.” 
 
    Enquanto isso, no coreto vazio, Seu Adão deixava flores frescas sobre o chão rachado e murmurava: 
 
    — Duas já foram. Cinco ainda dormem. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Os três amigos e a filha do Pastor

    Nos anos 80, Lambari era uma pacata cidade no interior de Mato Grosso, e, conta-se que ali moravam três amigos inseparáveis: Dison, Paulo e Fabinho. Juntos, eles formavam um trio aventureiro que vivia em busca de emoções e desafios naquela cidadezinha aconchegante. Jogavam bola no campinho, tomavam banho na "Pontinha" e ficavam até altas horas conversando na Borracharia Silva. 

    Tudo corria bem na vida dos três amigos até que uma família se mudou para a cidade. O Pastor da Igreja Evangélica chegou com sua esposa e sua filha, Luciana, uma jovem encantadora e simpática que conquistou todos os moradores com sua beleza e carisma. Dison, Paulo e Fabinho, assim como os demais habitantes da cidade, ficaram fascinados com a chegada daquela família, mas os três amigos sentiram algo a mais ao conhecer Luciana. A jovem tinha uma presença cativante que os fizeram se apaixonar quase instantaneamente. No entanto, o que parecia ser um sentimento inocente acabou se tornando um motivo de tensão entre eles. 

    Enquanto a amizade dos três amigos sempre foi forte, a competição pelo coração de Luciana os colocou em conflito. Cada um dos rapazes buscava se destacar aos olhos da moça, mas ela se mantinha amigável e gentil com todos, sem demonstrar um interesse especial por nenhum deles. Com o passar do tempo, Dison, Paulo e Fabinho perceberam que seus sentimentos por Luciana estavam afetando negativamente sua amizade. Eles começaram a se afastar e a se comportar de forma ciumenta e possessiva em relação à jovem. O que antes era uma parceria inseparável, tornou-se um cenário de rivalidade e disputa. Já não tinha jogo de futebol no campinho, nem banho no riacho e, muito menos, conversa na Borracharia. Apenas um vazio tomava conta dos corações dos jovens amigos. 

    Foi quando eles descobriram que Luciana estava apaixonada por outra pessoa. Seu coração havia sido conquistado por Gabriel, um jovem tímido e simpático, filho de um pequeno proprietário de sítio da região. Gabriel era conhecido por sua devoção à igreja e sua participação ativa nas atividades religiosas. Ao saberem disso, Dison, Paulo e Fabinho se sentiram ainda mais feridos em seu orgulho. Eles não podiam aceitar que Luciana escolhesse alguém que não fosse um deles, principalmente alguém que eles consideravam como rival. 

    Entretanto, com o passar do tempo, os três amigos começaram a enxergar as atitudes de Gabriel com outros olhos. Eles perceberam que sua devoção não era uma forma de competição com eles, mas sim uma expressão genuína de sua fé e valores. Gabriel não buscava ser melhor que ninguém; ele apenas seguia seus princípios com sinceridade. Envergonhados e arrependidos por terem sido injustos com Gabriel, Dison, Paulo e Fabinho decidiram se reaproximar como amigos. Eles perceberam que a amizade verdadeira era mais importante do que qualquer paixão momentânea. Além disso, entenderam que a jovem tinha o direito de escolher quem amar e que não era certo tentar manipular os sentimentos dela. 

    Com o tempo, os três amigos foram aprendendo a aceitar as escolhas e as vontades dos outros, valorizando a amizade que tinham construído ao longo dos anos. Luciana e Gabriel seguiram juntos em um relacionamento saudável, enquanto Dison, Paulo e Fabinho continuaram vivendo suas aventuras, mas agora com o entendimento de que a amizade e o respeito mútuo eram as bases mais sólidas para qualquer relação. Voltou-se a ter o joguinho de bola, os banhos na "Pontinha" e as conversas na Borracharia. 

    A pequena Lambari, cidade de encanto único no interior de Mato Grosso, continuou sendo um lugar aconchegante, mas agora com um grupo de amigos que aprenderam valiosas lições sobre o amor, a amizade e o respeito ao próximo. A história deles serviu como exemplo para os demais moradores, mostrando que o verdadeiro valor das relações está na compreensão, na tolerância e na união entre as pessoas. E assim, a vida seguiu com mais amor e harmonia naquela cidadezinha tranquila e encantadora. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense