quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A Bicicletaria

    Em Cáceres, nos anos 80, a vida seguia sobre duas rodas. 
 
    A bicicletaria de Carlos era mais do que um comércio: era ponto de encontro, refúgio e espelho de uma cidade que se movia devagar, mas observava tudo. Entre correntes, pneus e silêncios herdados, uma família tenta manter o equilíbrio enquanto forças externas começam a redesenhar o mapa invisível da cidade. 
 
    Gabriela, jovem e luminosa, aprende cedo que beleza também pode ser ameaça. Léo, aprendiz recém-chegado, descobre que amar em lugar pequeno exige coragem maior que força. Eduardo carrega no corpo e na alma marcas de um passado que nunca se aquietou. Isaque observa o mundo com um olhar fraturado, atento ao que os outros preferem não ver. 
 
    Quando a violência rompe o cotidiano e o amor se torna risco, A Bicicletaria revela como escolhas íntimas podem ter consequências irreversíveis. Com uma escrita sensível e sombria, a história mergulha nos limites entre cuidado e controle, silêncio e omissão, destino e acaso. 
 
    Porque, às vezes, não é o tombo que muda tudo — é o instante em que percebemos que o equilíbrio nunca esteve garantido. 
 
Autor: Odair José, Poeta Cacerense 
 
Obs. Lançamento em 2026.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Beleza Cacerense

    Nos anos 1990, em uma Cáceres abafada pelo calor e pela vigilância silenciosa da cidade pequena, Alfredo tenta sustentar o que resta de sua vida: uma loja à beira da falência, um casamento corroído pela desconfiança e uma relação cada vez mais frágil com a filha adolescente. 
 
    Quando rumores começam a circular — alimentados por silêncios, olhares e interpretações —, Alfredo se vê no centro de uma história que afirma não ter vivido, mas da qual não consegue escapar. Nada acontece de forma explícita. Ainda assim, tudo se quebra. 
 
    Narrada em primeira pessoa, esta é uma obra sobre culpa sem crime, condenação sem prova e as consequências reais de falhas invisíveis. Uma história em que o maior conflito não está no que foi feito, mas no que não foi interrompido a tempo. 
 
    Com linguagem íntima e precisa, o livro revela como a memória pessoal entra em choque com a memória coletiva, e como uma cidade pode transformar suspeitas em sentenças. Sem absolvições fáceis, sem vilões óbvios, resta apenas a pergunta que ecoa até o fim: o que permanece quando já não é possível se explicar? 
 
    Uma narrativa densa, humana e perturbadora sobre limites morais, paternidade e o preço do silêncio. 
 
Autor: Odair José, Poeta Cacerense
 
Obs. Lançamento em 2026. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Diamantes ao Sol

    Diamantes ao Sol é uma história sobre o que brilha e fere ao mesmo tempo. 
 
    Ambientada em Lambari D’Oeste, no interior de Mato Grosso, nos anos finais da Guerra Fria, a narrativa acompanha vidas comuns atravessadas por medos extraordinários — alguns globais, outros íntimos, todos reais. Enquanto o mundo ameaça explodir em mapas distantes, uma cidade pequena constrói seus próprios campos de batalha, silenciosos e cotidianos. 
 
    Oseias acredita nos livros como forma de compreender o caos. Luana aprende cedo que amar pode ser um ato de desobediência. Ao redor deles, a ordem se impõe não pela força explícita, mas pelo consenso, pelo olhar coletivo, pelo rumor que condena sem precisar gritar. 
 
    Este não é um romance sobre heróis. É sobre pessoas que sobrevivem ao escolher partir. Sobre cidades que permanecem intactas à custa de esquecimentos bem organizados. Sobre a violência que se disfarça de normalidade e sobre a memória que insiste em não desaparecer. 
 
    Entre nostalgia e tensão, Diamantes ao Sol pergunta: o que acontece quando fugir é a única forma de existir? 
 
    O sol continua se pondo. E nem tudo que brilha aquece. 
 
Autor: Odair José, Poeta Cacerense 
 
Obs. O livro será lançado em 2026.

domingo, 28 de dezembro de 2025

A escrita me permite a dúvida

    Escrevo porque o silêncio pesa mais do que as palavras. Há dias em que sento diante da página como quem encara um espelho rachado: não busco meu reflexo inteiro, apenas a prova de que ainda existo. Escrever não é dom nem escolha — é uma forma precária de permanecer. Enquanto o mundo exige certezas, a escrita me permite a dúvida, e é nela que respiro. 
 
    Escrevo como quem caminha à noite por estradas de terra, guiado por um farol fraco, sabendo que o escuro nunca se dissipa por completo. Cada frase nasce torta, carregando o pó da memória, o calor do tempo e as vozes que ficaram pelo caminho. Não escrevo para explicar a vida, porque ela não se explica; escrevo para suportá-la. A palavra não salva, mas adia o afogamento. 
 
    Há uma solidão inevitável nesse ofício: sentar-se consigo mesmo e aceitar que nada é definitivo. A página em branco não pede beleza, pede coragem. E eu escrevo mesmo falhando, porque falhar é mais honesto do que calar. No fundo, escrever é isso: organizar o caos por alguns instantes, fingir que o mundo cabe numa frase e, quando ela termina, aceitar que tudo continua incompleto. 
 
    No fim, sigo escrevendo não para ser lido, nem para deixar legado. Escrevo porque, enquanto a palavra respira, eu também respiro. E talvez seja apenas isso que nos mantém vivos: a insistência frágil de dizer “estou aqui”, mesmo sabendo que o tempo, um dia, apagará todas as páginas. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 27 de dezembro de 2025

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 5) - Os vespões

    A cidade já não dormia. Depois da chuva de gafanhotos, Cáceres virou uma ferida aberta. Postes queimados, telhados furados, casas em silêncio. A Praça Barão permanecia interditada, mas o interdito, ali, já não servia de nada. 
 
    Mesmo assim, naquele domingo, o padre Augusto decidiu manter a procissão. Disse que era preciso rezar — ou pelo menos fingir coragem. Carregaram o andor de Nossa Senhora pelas ruas, entre velas e murmúrios, até a borda da praça. Mas quando o cortejo se aproximou do Marco do Jauru, o ar mudou de densidade. 
 
    Um som grave, como trovão debaixo da terra, ecoou. As velas se apagaram todas de uma vez. E então o zumbido começou. 
 
    Primeiro baixo, depois ensurdecedor. Do alto das árvores, do interior das rachaduras e das bocas de bueiro, saíram criaturas enormes — vespões, pretos e amarelos, do tamanho de punhos. Suas asas batiam com violência, cortando o ar. 
 
    O primeiro ataque veio como um raio. As pessoas caíam, cobertas por enxames que pareciam pensar, escolher os alvos, mirar os rostos que rezavam mais alto. O caos dominou as ruas. O som das orações virou grito, o cheiro de incenso virou medo. 
 
    Laura e o padre correram para dentro da igreja. Do lado de fora, os sinos batiam sozinhos, e os vespões rodeavam o campanário como se quisessem entrar. No altar, uma imagem da santa começou a rachar, do peito até o véu. 
 
    — Padre — disse Laura, com voz trêmula —, eles estão respondendo. 
 
    — Respondendo a quê? 
 
    Ela olhou para o chão. 
 
    — Ao que foi esquecido. 
 
    O teto tremeu. Um pedaço do vitral caiu, cortando o ombro do padre. Sangue escorreu sobre o mármore e caiu em gotas no piso da igreja. Quando a última gota tocou o chão, o zumbido cessou. 
 
    Do lado de fora, silêncio. Um silêncio absoluto. 
 
    Laura saiu devagar e viu que os vespões haviam recuado — pairavam sobre a praça, imóveis, formando uma espiral. No centro, o Marco do Jauru começava a rachar. As pedras estalavam como dentes quebrando. O peito da escultura se abriu, revelando um buraco escuro — um túnel. 
 
    Soldados chegaram em seguida, tentando conter a multidão. Um deles, curioso, desceu com uma lanterna. Dez segundos depois, o som de seu grito subiu pelas fendas, seco e breve. 
 
    Os outros tentaram descer. Voltaram pálidos, mudos. Nenhum soube explicar o que havia lá embaixo, apenas repetiam as mesmas palavras, entre tremores: “Correntes… e vozes… muitas vozes…” 
 
    Laura aproximou-se e viu, nas bordas do túnel, inscrições gravadas em pedra. Mistura de latim e iorubá: Memoria in carne. Dor clama por lembrança
 
    O padre fez o sinal da cruz. 
 
    — Foi aqui que o Barão selou o que não quis confessar. 
 
    Do coreto, Seu Adão observava tudo. Tirou o chapéu, ajoelhou-se e murmurou: 
 
    — Quatro se foram. 
 
    Depois levantou o olhar para o céu avermelhado e completou: 
 
    — Agora o rio vai falar. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Beleza cacerense - Parte I — O calor que não dorme

    Cáceres nunca dormiu direito. Mesmo à noite, o calor se infiltra pelas frestas da casa como um bicho insistente, desses que não se vê, mas se sente roçando a pele. Nos anos 90, eu ainda acreditava que o calor era o maior dos meus problemas. 
 
    Meu nome é Alfredo. Sou — ou fui — dono de uma pequena loja de materiais elétricos na Avenida Gal. Osório. Nada grande. Nunca foi. Mas durante muito tempo deu para viver. Deu para pagar as contas, manter a casa, comprar o vestido de formatura da escola da Bianca quando ela ainda acreditava que essas coisas importavam. 
 
    Agora, as contas se acumulam na gaveta da mesa da sala, misturadas a panfletos antigos e notas fiscais amareladas. Eu evito abri-las. Finjo que ainda posso escolher o momento certo para encarar a realidade. 
 
    Elisa não tem esse luxo. Ela sai de casa antes do sol nascer e volta quando a noite já perdeu o frescor. Enfermeira. Plantões dobrados no hospital. Às vezes três numa semana. Às vezes quatro. Ela diz que é para ajudar nas despesas, e eu quero acreditar. Quero mesmo. Mas a dúvida cresce como mofo em parede úmida. 
 
    — Hoje eu durmo lá — ela disse certa vez, vestindo o branco já amarrotado. 
 
    — De novo? — perguntei, tentando parecer apenas cansado. 
 
    Ela não respondeu. Apenas amarrou o cabelo e saiu. 
 
    Quando a porta bate, o silêncio da casa se torna ofensivo. 
 
    Bianca quase não fala comigo. Dezessete anos, sempre de fone no ouvido, o quarto fechado, respostas curtas, um olhar que mistura desprezo e cansaço. Não sei em que momento deixei de ser pai para me tornar apenas um móvel antigo da casa. 
 
    — Vou na festa da escola — ela avisou naquela sexta-feira, sem me olhar. 
 
    — Que festa? 
 
    — Festa junina atrasada. Todo mundo vai. 
 
    Elisa estava de plantão. Ou disse que estava. Fui buscar Bianca mais tarde. Não por cuidado. Por hábito. Talvez por medo de ficar sozinho. A escola estava cheia. Música alta, risadas, pais fingindo que ainda entendem os filhos. Foi ali que vi Fernanda. 
 
    Ela estava ao lado de Bianca, rindo alto, gesticulando, ocupando o espaço como quem não pede licença ao mundo. Não era apenas beleza no sentido óbvio. Era, também, presença. Um tipo de luz que me desconcertou. E o que me assustou não foi vê-la. Foi perceber que eu não conseguia desviar o olhar. 
 
    Naquele instante, algo em mim se rompeu — não de forma barulhenta, mas como rachadura em vidro antigo. Pequena. Silenciosa. Irreversível. 
 
    Voltei para casa dirigindo devagar demais, com Bianca em silêncio no banco ao lado, e uma pergunta martelando na cabeça: Quando foi que eu me perdi de mim mesmo? 
 
    O calor daquela noite não me deixou dormir. Mas não foi só o calor. 
 
    Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Pensamentos sobre a escrita

    1. Escrevo como quem atravessa o Pantanal à noite: sem mapas, guiado apenas pelo sonho e pela inspiração. 
 
    2. Ser escritor é carregar um sol dentro do peito e ainda assim viver à sombra. 
 
    3. A palavra nasce torta, como as ruas antigas, como a vida que nunca se encaixa. 
 
    4. Escrever é sentar-se à mesa com a solidão e chamá-la de ofício. 
 
    5. Não busco respostas, coleciono perguntas para não enlouquecer. 
 
    6. A literatura é meu jeito mais honesto de falhar tentando entender o mundo. 
 
    7. O escritor brasileiro escreve com o peso do tempo, da terra, e das vozes que a história tentou calar. 
 
    8. Há dias em que escrever é esperança. Na maioria, é sobrevivência. 
 
    9. Cada texto é um pedido mudo: “não me deixem desaparecer completamente”. 
 
    10. No fim, sigo escrevendo porque o silêncio também mata, e a palavra, mesmo ferida, ainda respira. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 21 de dezembro de 2025

Para uma pessoa especial

    Hoje pensei em você, como tantas vezes faço quando o silêncio me visita com saudade. E nesse momento calmo, vieram à minha mente algumas verdades simples – daquelas que o tempo vai ensinando devagar, como quem sussurra, não como quem grita. 
 
    A vida, meu bem, é breve. Passa como o vento que a gente não vê, mas sente. Por isso escrevo: para que nunca nos esqueçamos de viver com o coração aberto, mesmo quando o mundo parece apertado. 
 
    Aproveite o agora. Não adie abraços, não silencie sentimentos bonitos, nem guarde palavras que aquecem. O tempo não espera. 
 
    Valorize o que não se pode tocar: o riso sincero, o olhar que compreende, a presença que acolhe. É nisso que mora a paz – não nas coisas, mas nas conexões. 
 
    Aceite a mudança, mesmo que ela doa. Tudo passa, e há beleza até nos fins. Cada estação da vida ensina algo – mesmo as mais frias. 
 
    Se puder, escolha sempre o gesto de amor, mesmo que ninguém esteja vendo. Porque o que a gente planta no outro é também o que floresce dentro da gente. 
 
    Cuide da sua alma. Leia, respire fundo, ouça o que vem de dentro. A paz não grita – ela sussurra, e só escuta quem desacelera. 
 
    E se um dia se ferir, tente perdoar. O perdão é leveza. É como sol depois da tempestade. É deixar de carregar o que não é mais seu. 
 
    Por fim, nunca se esqueça: a vida é curta, sim – mas é exatamente isso que a torna tão preciosa. Viva com verdade, com coragem, e com o coração inteiro. Assim, quando o tempo for embora, você saberá que esteve realmente aqui. 
 
    Com carinho eterno, 
 
Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 20 de dezembro de 2025

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 4) - Os gafanhotos

    O vento chegou antes do som. Um sopro quente, vindo do oeste, trazendo consigo o cheiro do rio e algo mais: o farfalhar seco de asas incontáveis. Era como se o céu se desfizesse em poeira viva. 
 
    Laura estava em casa quando as janelas começaram a vibrar. Correu para a varanda e viu a nuvem — não de chuva, mas de corpos. Milhares, milhões de gafanhotos, cobrindo o sol até transformá-lo num círculo avermelhado. 
 
    O rádio estourava com alertas da Defesa Civil. “Permaneçam em casa. Fechem portas e janelas.” Mas a cidade já estava de joelhos. 
 
    Em poucos minutos, os jardins sumiram. As árvores foram devoradas até o osso, o gramado virou lama, e o som — aquele roçar incessante de asas — lembrava uma oração invertida. 
 
    Na Praça Barão, os primeiros que tentaram filmar o fenômeno foram engolidos por uma massa viva que parecia pensar. Os gafanhotos avançavam em redemoinhos, entrando pelas casas, cobrindo muros, arrastando tudo. 
 
    Laura, ofegante, vestiu o jaleco e seguiu para a universidade. Precisava compreender, mesmo que o medo lhe corroesse a razão. No laboratório, acendeu as luzes de emergência e abriu as gavetas antigas do acervo histórico. Entre mapas e documentos de 1800 e poucos, encontrou algo que a fez estremecer: “Planta da antiga Vila Maria do Paraguai — Campo dos Silenciados. Local destinado ao sepultamento dos escravizados mortos em cativeiro.” 
 
    A planta mostrava, com traços pálidos, o mesmo lugar onde hoje estava a Praça Barão. O coração da cidade erguido sobre ossos e esquecimento. 
 
    Laura sentiu um arrepio percorrer o corpo. As pragas não vinham do nada — eram respostas. Respostas da terra, clamando memória. No corredor escuro, o padre Augusto apareceu, encharcado de chuva. 
 
    — Eu sabia que a senhora viria aqui. 
 
    — Padre, o senhor sabia disso? O campo, os sepultamentos? 
 
    Por um pequeno instante ele hesitou. 
 
    — Há registros apagados, nomes riscados nos livros da paróquia. O Barão… o homem que dá nome à praça… foi quem ordenou o silêncio. 
 
    Laura olhou pela janela: o céu agora era uma cortina viva. Os gafanhotos batiam contra o vidro, e, entre as asas, parecia haver palavras desenhadas, padrões que se repetiam. 
 
    — Eles querem ser lembrados — disse ela, quase em transe. — Cada praga é um chamado. 
 
    O padre cruzou os braços. 
 
    — Ou uma contagem regressiva. 
 
    Do lado de fora, a praça desaparecia sob o enxame. Os postes piscavam, a energia falhava, e o chão parecia tremer sob o peso da multidão de asas. 
 
    No meio do caos, Seu Adão andava calmamente, coberto de poeira dourada. Os gafanhotos não o tocavam. Ele parou diante da fenda — agora larga o suficiente para revelar degraus de pedra descendo ao escuro — e começou a cantar. A voz era antiga, rouca, e vinha de outro tempo: um lamento em língua esquecida. 
 
    Enquanto a cidade rezava por luz, a terra abria os olhos. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A jovem leitora encantadora

    A palestra começou como começam todas as coisas que julgamos sob controle: com palavras alinhadas, ideias preparadas, livros empilhados sobre a mesa. Fui apresentado, aplaudido com gentileza acadêmica, e passei a falar da escrita como quem abre uma casa antiga — mostrando cômodos, rachaduras, silêncios. Falava dos meus livros, das obsessões que me conduzem, da leitura como abrigo e abismo. 
 
    À minha frente, um grupo de estudantes de Letras me escutava com atenção rara. Havia olhos curiosos, cadernos abertos, canetas em vigília. Mas, entre todos, um olhar não apenas escutava — permanecia. 
 
    Ela estava sentada algumas fileiras adiante. Não chamava atenção pelo excesso, mas pelo contrário: havia nela uma economia de gestos, uma elegância que não parecia ensaiada. O cabelo em repouso, o corpo atento, o rosto iluminado por uma beleza que não se explicava nos padrões comuns. O mistério estava sobretudo nos olhos: profundos, como se carregassem leituras que ainda não escreveu e silêncios que não pretende contar. 
 
    Enquanto eu falava sobre personagens, narrativas e o perigo de se escrever demais sobre si mesmo, percebi que já não falava apenas para a sala. Cada frase, sem que eu quisesse, buscava aquele ponto exato onde ela estava. Como se a literatura, naquele instante, tivesse escolhido uma leitora específica. 
 
    Houve um momento em que nossos olhares se cruzaram — rápido, quase acidental — e, ainda assim, definitivo. Não houve sorriso, não houve gesto. Apenas o reconhecimento estranho de que algo havia sido lido sem palavras. Continuei a palestra, mas já não era o mesmo. Eu falava, e por dentro revisava cada frase, como se ela pudesse lê-las por dentro também. 
 
    Quando tudo terminou, vieram as perguntas, os agradecimentos, os livros autografados. Ela permaneceu ali, misturada aos outros, até se aproximar, delicadamente, e trocarmos algumas palavras sobre livros e leitura. E talvez por isso mesmo tenha ficado em minha mente o seu encanto, sua delicadeza. Não sei se por impulso ou destino, mas prometi dar-lhe um dos meus livros. 
 
    Desde então, não deixo de pensar nela. Não sei muito sobre ela, seus gostos, sua voz, suas leituras preferidas. Sei apenas do instante suspenso em que fui menos escritor e mais personagem. Há encontros que não pedem continuidade; pedem memória. E essa jovem, surgida entre páginas e cadeiras acadêmicas, tornou-se uma dessas histórias que a vida escreve sem se preocupar com desfechos. 
 
    Talvez seja isso o encanto: não saber. Guardar. Continuar escrevendo com a sensação de que, em algum lugar, alguém lê não apenas o que escrevo — mas o que sou quando escrevo. 
 
Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Uma sombra projetada pelo sol do agora

    A imagem do ontem é uma sombra projetada pelo sol do agora. Está aqui, mas sempre está distante, como um reflexo em água turva. O que chamamos de ontem é o que nunca tocamos, apenas vislumbramos em nossos olhos de memória. Mas é também o que se repete, o que se imortaliza na repetição — o ontem, que nunca é o mesmo, mas sempre parece ser. 
 
    A criação é uma tentativa de capturar o ontem, de torná-lo presente. Escrevemos, pintamos, moldamos, para trazer o que já passou à nossa frente, mas será que conseguimos? Ou estamos apenas criando uma ilusão do que nunca foi? A arte, o pensamento, é uma busca incessante por algo que nos escapa, uma tentativa de fixar o que é efêmero, de tornar visível o invisível. 
 
    E a paranoia, onde entra nisso? Talvez seja a sensação de que estamos sendo observados pela própria criação — que, ao tentar capturar o ontem, começamos a ser consumidos por ele. A paranoia não é o medo de algo que está longe, mas o pavor de que algo de longe já está dentro de nós, e de que não podemos escapar de nós mesmos. Talvez a criação seja, então, uma forma de desespero, uma tentativa de lidar com a sensação de que nunca estamos verdadeiramente aqui, mas sempre numa perpetuação do que já foi, numa repetição que nos destrói e nos cria ao mesmo tempo. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

As 7 pragas na Praça Barão (Parte 3) - Os corvos

    A chuva começou antes do amanhecer — uma dessas chuvas pesadas, sem relâmpagos, que caem como se o céu estivesse cansado de segurar tanta lembrança. A Praça Barão estava vazia, cercada por fitas amarelas e silêncio. O coreto, ainda manchado das tragédias anteriores, parecia observar tudo com olhos de pedra. 
 
    Mesmo com o isolamento, ninguém conseguia evitar passar por lá. Era o coração da cidade. E corações, mesmo feridos, insistem em pulsar. 
 
    A bióloga Laura chegou cedo, com um caderno nas mãos e olheiras profundas. As autoridades haviam pedido sua ajuda novamente — mas no fundo, ela sabia que não havia mais nada de racional a investigar. As amostras, as análises, os relatórios… tudo apontava para o impossível. 
 
    Enquanto caminhava entre as poças, ouviu um som rouco, distante. Olhou para o alto. Os fios de energia e as árvores da praça estavam cobertos por corvos. 
 
    Centenas deles. Encharcados, imóveis, com os olhos brilhando como contas de vidro. 
 
    Ela ficou parada, hipnotizada. O padre Augusto apareceu logo depois, trazendo um guarda-chuva e o mesmo semblante abatido. 
 
    — Eu avisei — disse ele, sem ironia. — A terceira chegou. 
 
    — São só aves… — respondeu Laura, embora sua voz tremesse. 
 
    — Nenhuma ave comum olha o homem desse jeito. 
 
    Os dois ficaram ali, observando o estranho silêncio dos corvos. Até que, como se obedecessem a uma ordem invisível, eles começaram a se mover. Primeiro um, depois dois, depois todos. O som das asas rasgou o ar, e o céu se cobriu de preto. 
 
    Os corvos começaram a cair. Não voavam — caíam. Desabavam sobre o chão, sobre os telhados, sobre os carros, como chuva viva. Alguns batiam contra as janelas, outros simplesmente despencavam, mortos. E os que ainda viviam, cambaleavam e atacavam o que encontravam. 
 
    Gritos ecoaram pelas ruas. Pessoas corriam, escorregavam, tropeçavam nos corpos das aves. O chão se tornou uma manta negra de penas e sangue. 
 
    Laura e o padre se abrigaram dentro da igreja novamente. O som dos bicos batendo contra as portas era como o de pedrinhas em um caixão. 
 
    — Eles não estão atacando — disse o padre. — Estão tentando entrar. 
 
    — Entrar pra quê? — perguntou Laura, ofegante. 
 
    Ele fez o sinal da cruz. — Pra confessar. 
 
    Quando o barulho cessou, abriram a porta. A praça estava coberta de silêncio e morte. O cheiro era insuportável. 
 
    Entre os corpos dos corvos, Laura percebeu algo: alguns tinham nas asas o mesmo pó escuro que encontrara nas formigas — uma poeira quase mineral. Tocou com a ponta dos dedos. Era fria, mas pulsava. 
 
    O padre recolheu um dos pássaros e o colocou sobre o altar. 
 
    — Antigamente — disse ele —, quando alguém morria sem confissão, soltavam corvos para carregar a alma. 
 
    Laura olhou para ele. — E se esses não vieram levar, padre… mas devolver? 
 
    O homem ficou em silêncio. 
 
    Do lado de fora, Seu Adão caminhava lentamente pela praça. Chovia de novo. Ele passou entre os corpos dos pássaros, rezando baixo, e parou diante da fenda que agora se alargava como uma boca. Do fundo dela, subia um vapor leve, quente, e um som quase inaudível — como se alguém sussurrasse nomes. 
 
    Ele fechou os olhos e murmurou: 
 
    — Três já clamaram. Quatro ainda sonham. 
 
    — Mas o sonho… o sonho está acordando. 
 
Continua... 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense