domingo, 14 de maio de 2023

O Sonhador

    "Se um sonho cair e se quebrar em mil partes, não tenha medo de pegar uma delas e começar novamente.” -- Flavia Weedn 

    Quando pequeno pensava que era muito sonhador. Ficava horas e horas imaginando coisas. Viajando pelo mundo e sonhando de olhos abertos. Porque deixamos que os sonhos se vão. Por que não lutamos por ele? As perguntas continuam a martelar minha mente confusa ultimamente. Não posso deixar que destruam a minha felicidade. Preciso resistir e viver. A vida é uma sucessão de erros e acertos. No entanto, quando queremos acertar, notamos que erramos feio... 

    A caminhada exige muito esforço e não podemos parar por alguma coisa que nos impeça de continuar a jornada. Um dos meus sonhos acaba de cair e quebrar... 

    No entanto, dos pedaços que recolhi devo continuar minha caminhada. E é isso que estou fazendo de cabeça erguida! Acordamos no meio da noite e compreendemos que o sonho acabou. A realidade é mais dolorida que o sonho. É preciso coragem para seguir o caminho que apresenta-nos nesse dia. Ergo-me das cinzas, sacudo a poeira e sigo em frente. E, então, percebo que a realidade é outra. O sonho que tinha estava na direção errada. 

    A realidade é bem mais fascinante. E eu queria ter continuado a sonhar. Recomeço. Novas experiências. Novas aventuras. Novos sonhos. Tudo novo. Fascinante! O que nos mata é o medo da mudança. 

    Depois que perdemos esse medo, notamos que as coisas novas são sempre mais saborosas, mais delicadas, mais encantadoras. Além disso, temos experiências e não vamos errar da mesma forma que a primeira vez. 

    O caminho é longo. Desconhecido. No entanto, só de pensar na força de seus olhos, sinto minhas forças se renovarem. Quero apenas viver! 

Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 10 de maio de 2023

A Ponte Branca

    Lembro vagamente do que aconteceu naquela tarde noite de um dia qualquer do ano de 1987. O que lembro e aqui passo a detalhar sem ter a preocupação se vão ou não acreditar na minha história aconteceu nesse tempo. O que lembro bem era que morava em Lambari, uma pequena vila a cerca de 100 Km de Cáceres e que minha avó morava nessa cidade. Vim com algum conhecido do meu pai ou da minha mãe, não tenho certeza, para passar uns dias com a minha avó. 
 
    O fato é que, em primeiro lugar, eu era ainda bem jovem na época e não era, também, muito esperto, portanto, não se assustem com as minhas gafes da época. Por outro lado, lembro-me bem que a casa da minha avó era próxima da Avenida São Luiz e não sei, porque carga dáguas, o indivíduo que me trouxe precisou me levar para o outro lado da cidade. Naquela época a região do Córrego Sangradouro estava cheio de mato e alagado, acho que era época de chuvas. Fato é que, antes de chegarmos perto da região onde se localizava a Ponte Branca o indivíduo falou: 
 
    - Aqui é assombrado! - Em tom bem sombrio e voz embargada acrescentou - Dizem que uma mulher de branco aparece para quem passa aqui sozinho. 
 
    Alguém que estava no carro resmungou: 
 
    - Por que? Como assim aparece uma mulher de branco? 
 
    - É uma noiva que se jogou da ponte porque foi abandonada no dia do casamento. 
 
    - História para boi dormir. Não acredito nessas coisas. 
 
    Na minha infância ouvia muitos casos de aparições, fantasmas, coisas desse tipo. Nunca tive muito medo apesar de, em alguns casos, sentir o corpo todo arrepiar. Fato é que essa história ficou na minha mente. O problema foi mais tarde. O camarada disse que havia perdido a localização da casa da minha avó e não poderia voltar lá para me deixar e que eu teria que ir sozinho. 
 
    - É só seguir reto aqui - Disse ele apontando a rua - Você vai caminhar bastante, mas vai dar direto na Avenida São Luiz. Ai é só dobrar a esquerda e você chega na casa da sua avó. 
 
    O problema não era esse. Eu já havia andando muitos kilômetros a pé. O problema era que o infeliz tinha me sacaneado e agora me deixava em uma fria. O sol já havia se escondido no horizonte e a noite chegava de mansinho quando comeceu a minha jornada. Estava escuro quando avistei a ponte branca e não posso ter certeza de que era real o que avistei. Havia uma mulher de branco caminhando próximo da ponte. Ela chorava e caminhava por entre a vegetação. Meu coração disparou. Pensei em voltar. Mas, e se fosse apenas a minha imaginação? Eu levaria uma bronca do camarada e um esculhacho de minha avó. Resolvi continuar. 
 
    Quanto mais me aproximava da ponte, mais perto me via da mulher. Por um instante pude até ver a sua face chorosa olhando para mim. Trêmulo como uma vara verde passei pela ponte e caminhei apressadamente. Mais ou menos uns 5 Km é a distância que percorri naquela noite e nem vi como fiz isso. Quando dei por mim estava chegando na Avenida São Luiz. 
 
    A mulher de branco que aparecia aos transeuntes da Ponte Branca deve estar muito triste com a destruição que fizeram com essa lendária Ponte e fica apenas a saudade de um tempo que não volta mais. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 22 de abril de 2023

O pedido de casamento

    José Carlos viu Rodrigo se aproximando. Tinha um semblante preocupado e ansioso. Não sabia o que dizer para ele. Como iria contar?
 
    Helen tinha saído de sua cidade natal há pouco mais de dois meses. Sem muita estrutura familiar e perspectiva no lugar onde nascera, resolveu atender ao pedido do irmão, Hélio, para que viesse morar com ele na cidade grande. Tinha a promessa de trabalhar em um Supermercado cujo dono era conhecido de Hélio e, na visão deste, os dois poderiam acabar se casando. Helen, nos seus 18 anos, carregava em si a beleza da juventude. Era uma morena esbelta de sorriso tímido e lindos olhos cor de mel. Mas, sua maior virtude era o jeito gentil de tratar as pessoas. E foi justamente esse jeitinho meigo que atraiu a atenção de Rodrigo.
 
    Com pouco mais de um mês que ela tinha vindo morar com o irmão na cidade, aconteceu uma tragédia. Dois ladrões invadiram a casa onde eles estavam morando e Hélio foi atingido por um disparo de arma de fogo de um dos ladrões. Eles levaram todo o dinheiro que o rapaz tinha guardado durante alguns anos para comprar uma casa nova. Helen nem sabia que ele escondia o dinheiro em casa. Talvez não confiasse em bancos. No entanto, para desespero dela, os ladrões levaram todo o dinheiro e ainda deixaram-no sem vida. 

    Rodrigo trabalhava com José Carlos na construção de novas vilas. José Carlos, um sargento reformado do exército investia suas economias em vilas e, em uma delas é que Hélio morava e a Helen veio morar com ele. 

    Um dia à tarde Helen ouviu bater na porta e foi atender. Era Rodrigo. 

    - Boa tarde, moça. 

    - Boa tarde. 

    - O Sr. Zé Carlos me mandou vir aqui para resolver o problema do cachorrinho. 

    Helen olhou assustada. 

    - O Pequeno Lula? 

    - É esse o nome dele? 

    - Sim. 

    - Então... – Fez uma pausa. Parecia constrangido. – Os vizinhos reclamaram que ele faz muito barulho. 

    - Sim. Ele late bastante. 

    Houve um silêncio. 

    - Ele era do meu irmão. 

    - Eu sei. 

    - O que vai fazer? - Posso levar ele para um local onde eles cuidam de animais abandonados. Tem um lugar desses no outro bairro aqui perto. 

    Rodrigo pegou Pequeno Lula e acariciou seus pelos. Despediu-se da moça e foi embora. 

    Dois dias depois Helen procurou Rodrigo. 

    - Preciso de um favor. 

    - Sim. 

    - Não sei como vou fazer para pagar o aluguel. Todo o dinheiro que meu irmão tinha foi levado pelos ladrões. O emprego que teria no Supermercado não deu certo. 

    - Por que não deu certo? 

    - O dono disse-me que tinha um trato com meu irmão. Iria arrumar o emprego se eu me casasse com ele. Eu não quis. 

    Rodrigo deixou-se ser surpreendido com um suspiro de alívio. Tentou disfarçar. A moça notou. 

    - Esse mês resolvo para você. Eu pago. 

    - Não sei como agradecer. Mas, assim que conseguir trabalhar eu vou te pagar. 

    Rodrigo sorriu. 

    Era um homem já de meia idade. Tinha em seu rosto as marcas da labuta da vida. Alguns cabelos grisalhos na cabeça e na barba sempre curtinha. Era sempre sério. Dificilmente alguém o via brincando. Sempre trabalhando. 

    Alguns dias depois Rodrigo a procurou. Havia acabado de escurecer quando ele bateu na porta da casa dela. 

    - Boa noite. – Disse ele. 

    - Boa noite. Aconteceu alguma coisa? 

    - Não. 

    Houve um momento de silêncio. Os dois de pé, um em frente do outro. Ele do lado de fora, ela do lado de dentro. 

    - Preciso te falar uma coisa. – Disse ele rompendo aquele silêncio embaraçoso. 

    - Sim. 

    - Então... Nem sei como dizer isso. 

    Ela sorriu. 

    - Sei que você dispensou o rapaz lá do Supermercado. Mas, eu desde que vi você chegando aqui, passei a gostar de você. 

    Helen ficou rubra. Rodrigo tremia. 

    - Eu nunca tive um relacionamento sério. Já trabalho com o Sr. Zé Carlos há quase 15 anos e venho juntando umas economias. Não quero ficar só como ele. Tenho pensado em arrumar uma pessoa para construir juntos um lar e ter filhos. E não quero que pense que estou me aproveitando da situação. Não. Se você não quiser eu vou entender perfeitamente. 

    Helen engolia em seco. 

    - Por isso, vim aqui te pedir em casamento. Você quer casar comigo? 

    Helen estática. Olhos arregalados. 

    - Tudo bem. – Disse ele. – Se você disser não eu vou entender. 

    - Posso pensar? 

    Ele acenou com a cabeça e saiu. 

    Dois dias que se passaram como uma eternidade para Rodrigo. 

    - Eu pensei muito sobre o seu pedido de casamento. E, mesmo você já sendo um homem bem mais velho que eu, consegui ver a sinceridade em suas palavras. Eu aceito o seu pedido. 

    Rodrigo, com o coração batendo forte, procurou José Carlos. 

    - Ela é muito nova para você. 

    Rodrigo começou a preparar as coisas. Foram uma tarde ver uma casa em um bairro próximo. Os dois gostaram da casa. Não falaram muito, mas imaginaram o lar. Imaginaram as crianças correndo pela casa. Sim. Eles seriam felizes. 

    Era tardezinha quando Helen voltava do mercadinho. Ela ouviu uns latidos. 

    - Pequeno Lula? 

    Olhou para um terreno baldio e em meio às folhagens viu o cachorrinho. Acuava alguma coisa no meio do matagal. Foi até lá. 

    - O que você está fazendo aqui? – Disse ao pegá-lo. 

    Dois jovens saíram de dentro do mato. 

    - Por favor! – Pediu Helen desesperada. 

    Já escurecia quando ela gritou por socorro. José Carlos passava na rua ao longe. Não chegou a tempo de salvá-la. Tão jovem. Ainda segurou o corpo quente dela antes de dar o último suspiro. 

    - Rodrigo... 

    José Carlos viu Rodrigo se aproximando. Tinha um semblante preocupado e ansioso. Não sabia o que dizer para ele. Como iria contar? 

Conto: Odair José, o Poeta Cacerense

sexta-feira, 21 de abril de 2023

O amante da amante

    Rildo estava totalmente desolado. O que o amigo acabara de lhe contar era uma tragédia indescritível em sua vida. Como ela fizera isso com ele? Logo ela que sempre lhe jurara fidelidade eterna e sempre declarava que nunca o trocaria por ninguém. Passou alguns dias bem deprimido e quase não saiu de casa. Naquele dia, porém, para atender o seu amigo foi encontrá-lo no Balbino. O amigo havia-lhe confidenciado uma plano para resolver a situação. No caminho foi relembrando como tudo isso acontecera. 

    Ainda na faculdade conhecera Carla, uma morena espetacular. Cabelos cacheados, corpo torneado e sensual e de uma simpatia incomensurável. Não havia ninguém que não a admirava por sua simpatia. Sempre sorridente ela havia cativado a atenção e admiração dele. Contra todos os infortúnios da vida ele havia se aproximado dela e os dois tiveram uma caso de amor muito intenso. Ele ficou apaixonado por ela e queria casar com ela. No entanto, ela não queria casar. 

    Tempos depois ela contou a ele que conhecera um professor da universidade que queria casar com ela. Ele estranhou o fato porque ela havia lhe dito que não queria se casar de forma nenhuma. Como isso era possível? Ela lhe disse que o professor, um cara mais velho e bem sucedido daria a ela a segurança que ela imaginava em um casamento. A estabilidade pesara mais em sua decisão. No entanto, os dois poderiam continuar se vendo, de vez em quando, disse ela, e com bastante cautela. 

    Por uns seis meses os dois ainda tiveram esses encontros às escondidas. Mas, um dia, do nada ela disse-lhe que não poderiam mais se ver. Que ele procurasse esquecê-la ou arrumasse outra pessoa. Ao ouvir tal pedido ele se afastou dela. Provavelmente ela resolvera ser fiel ao seu marido. Sofreu por uns dias e já estava quase superando essa dor, afinal teria que superar esse momento cruel de sua vida, pensava, quando soube do amante que ela havia arrumado. 

    Quase teve um infarto quando soube que ela estava tendo um caso extraconjugal com o famoso Paulão Faixa Preta. O cara era professor de Educação Física, personal trainer, lutador de jiu-jítsu e tinha quase dois metros de altura. Rildo ficou assombrado. Segundo lhe contara a fonte de informação, Carla estava fazendo academia e conhecera Paulão e os dois agora estavam tendo um caso. Não se conformou com isso. Como pode ser tão vadia assim? Ela terminou o caso comigo por causa desse Paulão. Ela não podia ter feito isso comigo. E com esses pensamentos ele chegou ao bar onde o amigo o esperava. 

    - Que cara é essa meu amigo? 

    - Cara de quem não acredita na merda dessa história que acabei de saber. – disse ele ao sentar e pedir uma cerveja. – Como ela pode ser tão baixa a esse ponto? 

    - Isso acontece. Mulheres precisam de carinho e atenção. 

    - Poxa vida! Eu dava carinho, atenção e sempre a tratei super bem. Nem o marido dela dá isso pra ela. Lembra que te contava o que ela me dizia que ele é um cara bom, cuida dela, deu uma casa confortável pra ela morar, mas que não é tão bom na cama com ela? 

    - Lembro sim. 

    - Então... 

    - Vai ver você também não estava conseguindo agradar ela. Olha o tamanho do Paulão... 

    Rildo fez uma cara de desagrado. 

    - Mas qual é a ideia que você tem para me contar? 

    O amigo, então, passou a relatar o plano que havia formulado em sua cabeça. 

    - Ela tem encontro com esse Paulão todas às terças-feiras. Ela mentiu para o marido que após a academia ela tem aulas de zumba, mas, na verdade ela vai fazer “zumba” na casa do Paulão que fica perto da academia. O que você pode fazer é dar essa informação para o marido dela. Ele vai seguir ela e, no mínimo, acabar com a farra do Paulão e você fica livre para reatar com ela. O plano parecia bom. Pensava nele quando voltava para sua casa. O que poderia acontecer? O marido dela poderia matar o Paulão ao flagrar os dois juntos na cama, o Paulão morria, o marido ficaria preso e, Carla, desconsolada, precisaria de um colo amigo e quem poderia ser? Soltou um leve sorriso ao ter esse maquiavélico pensamento. 

    Ele mesmo tratou de tirar uma foto dela entrando na casa do Paulão depois da academia. Por mais ou menos uma hora e meia os dois ficaram no interior da residência dele. Rildo até se contorcia em imaginar o que eles estavam fazendo. Por mais que quisesse não pensar, os pensamentos viam como uma revoada de pássaros na lavoura. E, sempre os pensamentos mais sórdidos. Na saída ela ainda deu um beijo caloroso no gigante e ele deu-lhe um tapinha na bunda. “Te espero na próxima terça, minha deusa fogosa!” – disse Paulão e essas palavras foram como tapas na cara de Rildo. “Você vai ver seu desgraçado, o que te espera na próxima terça” – limitou-se a falar baixinho. 

    Abílio quase teve um desmaio ao ver as fotos que abrira do envelope que alguém tinha deixado para ele no departamento. Além das fotos em que sua esposa estava nos braços de um cara enorme, havia um bilhete com o local dos encontros, dias e horários. E um conselho: “Você pode acabar com essa palhaçada que estão fazendo com você!” 

    Foi a terça-feira mais longa da vida de Rildo. Não dormiu a noite e o dia parecia não passar. Uma ansiedade louca tomava conta dele. Antes do horário ele caminhou para se esconder no terreno baldio que havia próximo a casa de Paulão. Conseguiu um lugar que lhe facilitava uma vista privilegiada. Havia um pé de manga de onde ele havia feito as fotos na terça-feira anterior. De lá ele viu quando Paulão e Carla chegaram entre beijos e afagos e entraram para dentro da casa. Viu também quando Abílio estacionou o carro do outro lado da rua. O coração batia forte. Ia acontecer uma merda ali. Mas, quem mandou esse babaca mexer com a minha mulher? Queria mesmo que o marido dela metesse bala nele. 

    Rildo nem viu direito o que aconteceu porque no primeiro disparo ele escorregou e caiu da árvore. Quando deu por si a tragédia já havia acontecido. Correu para ver e chegou junto com outros curiosos. A cena que viu foi estarrecedora. Na calçada da casa de Paulão estava o corpo estendido de Carla crivado de balas. Seis tiros e uma poça de sangue. Paulão inconformado chorava ao lado dela. Do outro lado da rua, Abílio com o revólver ainda fumegante na mão. 

    Rildo não acreditava que o miserável do marido tenha matado a esposa e deixado o amante vivo. Que espécie de homem faria uma coisa dessas? Em seu desespero não sabia o que fazer. Se abraçava a mulher amada morta no chão, se pulava no pescoço do marido assassino e o estrangulava vivo ou se avançava contra Paulão o amante de sua amante. Acabou não fazendo nenhuma das alternativas que lhe viera na mente. A polícia anunciava a sua chegada com o barulho da sirene e ele resolveu sair do local. 

    No caminho de casa começou a chorar ao lembrar que nunca mais veria o sorriso lindo daquela morena que tanto amava. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 9 de abril de 2023

Ressuscitou

    Que maravilha é sabermos que não servimos um Deus morto, mas um Cristo que ressuscitou e está vivo! 

Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 18 de março de 2023

Isolados

    Antônio Pereira, mais conhecido como Tonho, um senhor de 40 anos, casado e pai de três filhas, empregado de uma empresa de entrega regional, pessoa carismática da sociedade cacerense, liderança inquestionável no bairro onde morou quase a vida toda, um dia qualquer simplesmente desaparece sem deixar rastro. O que pode ter acontecido? 

    Carlos Henrique, mais conhecido como Carlinhos, jovem estudante de Direito, sempre bem visto pela comunidade acadêmica como um promissor profissional da área jurídica, grande esperança da família e sonho das garotas da comunidade evangélica onde ele sempre desenvolveu muitas atividades litúrgicas, um belo dia, simplesmente não sai mais de seu quarto. O que pode ter acontecido? 

    Rafael Antunes, mais conhecido como Rafa, é um homem dinâmico, trabalhador e extrovertido, usa suas habilidades para transportar pessoas, turistas e pescadores, no barco da família pelo extenso Rio Paraguai, pescador de primeira qualidade, em uma de suas viagens nunca mais é visto. O que pode ter acontecido? 

    Se você ficou curioso para saber o final dessa história recomendo que aguarde o novo conto do Poeta Cacerense. Em Breve! ISOLADOS

Texto: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Conhecimento

Não nasci com conhecimento, mas, desde cedo, busquei alcançá-lo. 
Hoje transmito o conhecimento que adquiri. 
Não sou sábio e perfeito. 
Mas, nunca deixarei de buscar! 

 Pensamento: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Percalço

    A história que relato aqui pode soar um tanto estranha para a maioria dos leitores que correm os olhos por essas mal traçadas linhas e, pode, também, ser surpreendente para outros. No entanto, a pessoa que contou autorizou-me a relatar os fatos desde que não revelasse a fonte. Logicamente que nunca faria isso.   
 
    Ele conta que passou alguns dias bem ruins e que até pensou que não sobreviveria de tanta dor que sentia. O coração estava estraçalhado e sentia um misto de raiva e compaixão ao mesmo tempo. Conta ele que tinha uma vida tranquila. Havia economizado um dinheirinho e levava uma vida um tanto monótona. Uma vez por semana ele ligava para uma cafetina e ela lhe apresentava uma garota. Ficava com ela, às vezes no quarto oferecido pela cafetina, outras vezes pagava pela saída da garota e a levava para o seu quarto. Tinha suas vantagens e desvantagens, relata ele. Durante algum tempo viveu nessa rotina. Ganhava razoavelmente e poderia se manter assim por muito tempo.  Mas, como ele mesmo afirma, sempre tem um capeta para atrapalhar. E o “capeta” que ele descreve foi uma garota. 
 
    Era uma sexta-feira e ele queria só tomar uma cerveja e descansar. Aceitou o convite de um amigo e foram para o bar da cafetina. Havia por lá algumas garotas que se refrescavam em uma grande bacia azul, enquanto outras conversavam debaixo de uma sombra. Foi então que ele a viu. Era, com certeza, nova naquele local porque não se lembrava de tê-la visto por ali em outras ocasiões.  Ela saiu do banho, trocou de roupa e andou em sua direção. Havia outras meninas ao lado dele, mas o seu olhar ficou vidrado naquela garota. Ela parecia se exibir diante dele. E foi nesse percalço que eles foram apresentados pela dona do local.  
 
    Gal. Esse era o seu nome fantasia dela. Naquele dia eles não ficaram, mas ela não saia da cabeça dele durante os dias que passaram. Decidiu, então, que iria vê-la no próximo final de semana. Ao chegar no local percebeu que não era o único que estava ali por ela. Tinha outros homens que ele não conhecia e pelo movimento da casa pôde perceber que boa parte deles estavam ali por ela. Sentiu uma ponta de ciúmes. Achou que estava ficando louco. Que droga era aquela? Não conseguia pensar direito. Ela ao vê-lo, esboçou um sorriso. Tinha uma boca linda e os lábios estavam coberto de um batom vermelho que destacava sua sensualidade.  Outras garotas foram até ele, mas não queria ficar com nenhuma. Durante algum tempo observou ela se jogando em outros braços e isso o incomodava muito. Resolveu ir embora. Voltaria outro dia.  
 
    Passou o final de semana sem conseguir dormir. Uma angústia tomava conta de sua alma ao fechar os olhos. Em seus pensamentos aparecia aquela garota. Mas, ao mesmo tempo aparecia os outros homens a abraçando e puxando-a para seus braços. Uma cólera corria pelo seu corpo. Na segunda-feira resolveu procurá-la. Imaginou que por se tratar de um início de semana o ambiente estaria com menor movimento. Quanto a isso ele acertou. Final de tarde procurou a cafetina e ela disse que a garota estava dormindo mas que a chamaria. Pensou em não interromper o sono dela, mas não o fez. Queria vê-la de qualquer jeito. Pouco depois ela apareceu. Parecia que tinha sido atropelada por um caminhão. Estava bem abatida e pouco sorria. Sentou-se com ele e começaram a conversar. Ele falou-lhe de tudo que estava sentindo e ela sugeriu que a levasse dali. Ele pagou a saída dela e a levou para casa. Ele conta que ela estava tão cansada que dormiu a noite toda. No outro dia quando ela acordou os dois conversaram e ele propôs a ela tirá-la daquele lugar. Abriu seu coração e disse o quanto ela o havia conquistado. Ela ainda lhe perguntou se tinha certeza do que estava dizendo e ele disse que sim.  
 
    Relata ele, com os olhos cheios de lágrimas, que viveram bem por quase dois meses. Ela parecia estar bem vivendo ao lado dele. Os dois dormiam juntos, assistiam filmes, conversavam, bebiam vinhos e sorriam. Ele estava muito feliz. Aquela garota simplesmente era a razão da sua felicidade. Mas, um dia a tarde, ao chegar do trabalho encontrou a casa trancada. Sentiu um aperto no coração. Teria acontecido alguma coisa? Abriu a porta e entrou dentro de casa. Logo viu a carta sobre a mesinha na cozinha. Com o coração batendo forte sentou-se e abriu a carta. Nela ele encontrou as palavras que dilacerou seu coração. Ela dizia que agradecia muito por tudo que ele tinha feito por ela, sentia por ele um carinho enorme, mas não conseguiria viver essa vida por muito tempo. "Sinto saudades da bagunça do bar, dos homens me procurando, brigando por mim, das músicas e das bebidas. Não posso ser uma dona de casa. Me perdoe".  
 
    Por um instante ele sentiu seu mundo desabar. A dor no coração era tamanha que seus pés tremiam. Uma vontade louca de correr até aquele bar e matá-la. Que mulher desgraçada! Como pode acabar assim com a minha vida?  Conta ele que durante alguns dias não conseguia nem sair de casa. Uma dor tremenda tomava conta de sua alma. Pensava nela o tempo todo. Em seus pensamentos estava aquela garota. Aquela mulher sensual. Aquela prostituta. Aquela puta!  
 
    Essa história muito me comoveu. Em minhas divagações me pergunto se isso é amor? Tenho acompanhado a sua recuperação e vejo o quanto ele a ama. Vejo o seu sofrimento em saber onde ela está, mas não saber com quem ela está. Espero que ele logo se recupere desse infortúnio e encontre uma pessoa menos problemática para viver ao lado dele. Ele é uma boa pessoa.  
 
Conto: Odair José, Poeta e Escritor Cacerense

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

No Califórnia

    - Vai ser hoje a noite! 
    Marcão chegou correndo e atravessou o portão de madeira que cercava a casa do amigo. 
    - No Califórnia? - Indagou o amigo. 
    - É. 
    O amigo balançou a cabeça negativamente. 
    - Não é muito perigoso? 
    - Que nada! Ela está dando sopa e o marido dela é um bosta! 
    O amigo sabia que Marcão estava falando de Tereza, uma linda morena que conheciam desde solteira. Tereza era muito bonita. Morena de corpo bem torneado fazia a festa nos bailes noturnos da cidade com seu gingado e sedução. Quando ela entrava no salão podia se ouvir um burburinho dos homens e mulheres presentes. Os homens, em sua maioria, por desejo. As mulheres, em sua maioria, por inveja. 
    A jovem tinha casado a algum tempo o que havia tirado o ânimo de alguns de seus pretendentes. Mas não de Marcão. 
    - O cara é policial. - Disse o amigo enquanto Marcão sentava-se no banco na varanda da sua casa. 
    - E o que isso tem a ver comigo? 
    O amigo pensou por um minuto. A fama de Marcão era muito grande na cidade. Não perdoava ninguém. Nunca tivera medo das mulheres. Era um sedutor. Algumas diziam cafajeste mesmo. Em suas aventuras costumava se envolver com mulheres casadas o que já havia lhe causado algum transtorno em diferentes ocasiões. Mas ele, como sempre, se sai bem dessas situações. Era muito popular e jeitoso para driblar as dificuldades. 
    - Tenho um tesão nessa menina desde muito tempo. 
    - Mas e o marido dela? Não vai estar lá? 
    Marcão sorriu com a pergunta do amigo. 
    - Ai é que está - Disse ele eufórico - ele não vai estar porque fiquei sabendo que está em serviço e mesmo que estivesse, eu daria um jeitinho de pegar aquela mulher. Tô louco por ela! 
    - Cara - disse o amigo - Você é meio maluco. Eu teria medo de fazer uma merda dessa. 
    - Por isso você não pega ninguém! 
    Houve um silêncio por alguns minutos e Marcão disse: 
    - Hoje a noite no Califórnia. 

    A noite de sábado prometia muito. A cidade estava em polvorosa. Uma banda de lambadão e rasqueado vindo da Capital tocava no clube naquela noite. O Califórnia estava em seu auge. No salão de danças o arrasta-pé corria solto. O cheiro de bebidas, cigarros, suor e perfume barato se misturavam e provocavam um odor único no ambiente. Uma fumaça e as luzes coloridas davam o tom nostálgicos das noites cacerenses. Quem tentava conversar tinha que quase gritar devido o som alto das músicas. Nas margens da pista cadeiras dispostas nas mesas e pessoas se acotovelando pelo ambiente interno. Do lado de fora, pessoas entrando e saindo o tempo todo. Dois homens fortes faziam a segurança do local e apenas observavam as pessoas que entravam e saiam. 
    - Lá está ela! - Disse Marcão para o amigo e apontou uma mesa do outro lado de onde eles estavam. 
    Tereza estava deslumbrante. O corpo moreno dentro de um vestido curto e colado ao corpo a deixava ainda mais sensual. 
    - Vou dançar com ela. 
    O amigo ficou só observando. Marcão caminhou até a mulher. Estendeu a mão. Ela sorriu e levantou-se para dançar. As amigas se entreolharam. Tocava um lambadão e os dois dançaram algumas músicas. Quem olhava de fora podia perceber as investidas dele. Ela parecia se esquivar o quanto dava de suas cantadas. Houve uma pausa quando os cantores da banda pediu um tempo para beberem água. Ela voltou para sua mesa e suas amigas enquanto Marcão foi até o balcão e pegou duas cervejas e voltou para sua mesa. 
    - Ela está meio receosa por causa do marido - Disse ao amigo assim que sentou - Mas eu acho que vai rolar. 
    - Cara - Disse o amigo - você é mesmo maluco. 
    - Quem não arrisca não petisca! 
    Ainda olhava para a mulher do outro lado do salão quando foi tocado no ombro por alguém. 
    - Você que é o Marcão? 
    Virou-se e viu o jovem franzino e de cabelos ondulados que o indagara. 
    - Sim. Por quê? 
    - Porque me disseram que você dá uma de comedor. Que pega todas as mulheres e não se importa se são casadas ou não. 
    Marcão tentou se levantar mas foi impedido quando viu o cano da arma apontado para a sua cabeça. 
    - Saiba que essa foi a última vez! 
    O que se viu a seguir foi assustador. Em fração de segundos o corpo de Marcão jazia estirado no chão. A cabeça tinha sido estourada pela bala. Pessoas corriam desesperadas e derrubavam cadeiras para todos os lados. A banda parou de tocar. O amigo de Marcão estarrecido olhava para um jovem com uma arma ainda fumegante na mão. 

Conto: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

A Onça e as Ovelhas

    Depois de tanta labuta para conseguir ter alguma coisa na vida tenho que me deparar com uma coisa dessas. Só Deus sabe o quanto batalhei para conseguir comprar esse sítio e ter umas vaquinhas que me dão o leite e, com ele, um dinheirinho para comprar o alimento. 
 
    Seguindo conselhos de pessoas próximas e experientes decidi comprar umas ovelhas com a poupança que consegui juntar durante anos. Fiquei tão contente ao ver as ovelhas correndo pelo aprisco. Senti uma verdadeira alegria ao imaginar que em breve estaria vendendo lã e comercializando a carne dos animais. Mas notei que de uma hora para outra minhas ovelhas começaram a desaparecer. Procurei saber o que estava acontecendo e descobri que onças estão se alimentando dos meus animais. Até um bezerro que tinha foi vitima do felino em minhas terras. 
 
    O pior de tudo é que sei que não posso matar esses animais. Primeiro porque já é um dos animais ameaçados de extinção e, por isso, protegido pela legislação. Segundo porque sei que, querendo ou não, fomos nós que invadimos o seu habitat e acabamos com a sua alimentação. O que lamento em tudo isso é que como acontece sempre, o menor é sempre o prejudicado. Quem desmatou em larga escala foi o grande fazendeiro. Mas ele tem como proteger a sua propriedade e, mesmo assim, ainda manda matar as onças que se aventurar pelas suas terras. Eu não tenho como me defender. 
 
Conto: Odair José, Poeta Cacerense