Sob a cama, como que por milagre, paira o caos, em linhas sonoras, invisíveis, tecendo a música secreta das coisas esquecidas. Ali, onde a poeira aprende a eternidade, os objetos perdidos conversam com os fantasmas da infância, e cada silêncio guarda o rumor de um mundo que desabou sem fazer barulho.
O velho poeta apenas observa...
Não se curva para recolher os destroços, nem ousa interromper a dança silenciosa das sombras. Aprendeu, com os anos, que há desordens que não pedem conserto, mas contemplação. O caos, afinal, talvez seja apenas a ordem que ainda não encontrou palavras para se explicar.
E ele escuta.
Escuta o ranger da madeira, o soluço dos sapatos abandonados, a respiração das cartas nunca enviadas. Escuta até mesmo aquilo que não existe, porque a velhice lhe ensinou que o invisível também produz ruídos, e que certas verdades só se revelam aos ouvidos de quem já perdeu quase tudo.
Sob a cama, o universo se desarruma em espirais. O tempo se enrosca nos fios de cabelo, os sonhos extraviados disputam espaço com os medos, e pequenas partículas de passado flutuam como estrelas mortas. Tudo parece absurdo, mas há uma beleza quase sagrada nessa confusão: a beleza de não precisar fazer sentido.
O velho poeta sorri.
Quem sabe porque reconheça ali a própria alma: um território de lembranças fora do lugar, desejos adormecidos e perguntas que envelheceram sem encontrar respostas. Também dentro dele existe uma cama invisível, sob a qual repousam os escombros de quem foi e os vestígios de quem jamais conseguiu ser. E, no entanto, nada está inteiramente perdido.
Pois o caos, quando observado com ternura, transforma-se em poesia. Aquilo que parecia ruína começa a cantar. Aquilo que parecia vazio revela uma presença. E o que julgávamos morto retorna, não como corpo, mas como uma vibração tênue, uma nota esquecida que atravessa os corredores da memória.
O velho poeta apenas observa...
Sabe que, um dia, também será poeira sob alguma cama, fragmento de uma história que ninguém contará por inteiro. Talvez alguém encontre seus versos entre objetos esquecidos e, sem compreender a razão, sinta uma saudade imensa de um homem que nunca conheceu.
Até lá, permanece imóvel, escutando as linhas sonoras do invisível.
Porque descobriu, tarde demais para ser jovem e cedo demais para desistir, que o mundo não precisa estar em ordem para ser belo, às vezes, é justamente no desarranjo que o infinito encontra espaço para respirar.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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