A paz começou a desaparecer quando uma grande seca atingiu o Pantanal.
As chuvas demoraram a chegar. Os rios baixaram, as lagoas diminuíram e os campos ficaram amarelados. Onde antes havia água em abundância, restaram pequenas poças cercadas de barro rachado. Os animais começaram a percorrer distâncias cada vez maiores em busca de alimento e água.
Foi então que o Jacaré descobriu uma lagoa profunda que resistia à estiagem. Alimentada por uma nascente escondida, ela permanecia cheia, cercada por vegetação verde e árvores que ofereciam sombra.
Imediatamente, tomou posse daquele lugar.
— A lagoa é minha! — anunciou, exibindo os dentes. — Ninguém beberá desta água sem minha autorização.
A notícia espalhou-se rapidamente.
O Tuiuiú chegou no dia seguinte, pousando sobre uma árvore próxima.
— Estás enganado, Jacaré. A lagoa pertence ao Pantanal, e o Pantanal deve ser governado por quem consegue protegê-lo por inteiro. Sou eu quem conhece a localização dos últimos pontos de água. Deverias reconhecer minha autoridade.
O Jacaré soltou uma gargalhada áspera.
— Autoridade? Experimenta entrar nesta lagoa e descobrirás o significado dessa palavra!
A Capivara chegou ao entardecer, acompanhada de seus filhotes e de outros membros de seu grupo. Cansados e sedentos, aproximaram-se da margem.
— Precisamos apenas de água — disse ela. — Não viemos tomar tua lagoa.
— Todos dizem isso antes de tentar tomar aquilo que é meu — respondeu o Jacaré.
A Capivara olhou para os filhotes, que mal conseguiam caminhar. Depois, encarou o adversário.
— A água não foi criada para pertencer a um único animal. Sem ela, nenhum de nós sobreviverá.
O Jacaré não respondeu. Apenas afundou lentamente na lagoa, deixando à mostra os olhos imóveis.
Naquela noite, os três decidiram que não haveria mais espaço para acordos. A disputa pela lagoa transformou-se numa guerra pela hegemonia de todo o Pantanal.
Continua!
Conto: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário