Ah, os diários da juventude…
Aqueles sagrados compêndios de dor insuportável porque alguém não respondeu à carta em três dias.
Manuais do exagero. Relíquias emocionais escritas com a convicção de quem achava que aos 17 já sabia tudo sobre o amor, a morte e o sentido da vida, e ainda assim colocava coraçõezinhos no "i".
E agora, quem os lê?
Ninguém. Nem o autor suporta.
Porque crescer é virar coveiro das próprias palavras.
Aquelas juras eternas? Enterradas.
Aquela poesia sobre o "infinito do olhar dela"? Lápide de vergonha.
A juventude escreve como se fosse morrer no mês seguinte.
O adulto lê como se estivesse lendo um bilhete suicida do próprio ego inflado.
Então rasgamos. Queimamos. Ou escondemos numa caixa com "NÃO ABRIR NUNCA MAIS" escrito em letras tremidas.
Não por medo do passado, mas pelo constrangimento de lembrar que um dia,
em pleno uso da sanidade adolescente,
achamos que rimar "solidão" com "coração" era original.
Pode ser que um dia alguém estude esses diários como fósseis emocionais:
"Veja aqui, o Homo Dramaticus,
espécie comum entre os 13 e os 19 anos,
altamente sensível a olhares vagos e músicas do Legião Urbana."
Mas no fundo, a gente sabe:
As palavras não morreram de velhas.
Foram assassinadas pelo desdém de quem cresceu demais para sentir
e de menos para lembrar como era bom acreditar que cada dor
era a pior do mundo.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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