domingo, 11 de outubro de 2026

A Guerra dos Três Reinos do Pantanal - Parte I - O Jacaré, o Tuiuiú e a Capivara

    Era uma vez há muito, muito tempo, quando o Pantanal mato-grossense ainda guardava segredos que nenhum homem havia descoberto, os rios corriam livres entre as matas, os campos se estendiam até onde a vista alcançava e as estrelas pareciam dormir sobre as águas tranquilas. Naquela época, os animais viviam sob as leis da natureza, mas nem todos estavam satisfeitos com o lugar que ocupavam no mundo. 
 
    O Pantanal era uma terra de abundância. Durante as cheias, os rios transbordavam, espalhando vida por toda parte. Na vazante, surgiam praias de areia branca, lagoas escondidas e extensos campos onde os animais encontravam alimento. Era um território tão rico que até os ventos pareciam disputar o privilégio de atravessá-lo. 
 
    Naquele tempo, três animais acreditavam ter nascido para governar aquela imensidão: o Jacaré, o Tuiuiú e a Capivara. 
 
    O Jacaré dominava as águas profundas. Forte, silencioso e temido, passava longas horas imóvel, com os olhos acima da superfície, observando tudo o que acontecia ao redor. Considerava-se o verdadeiro senhor dos rios. 
 
    — Sem mim — costumava dizer —, ninguém estaria seguro nas águas do Pantanal. Sou o mais forte, o mais antigo e aquele que conhece os segredos mais profundos deste lugar. Portanto, o Pantanal me pertence por direito. 
 
    O Tuiuiú, por sua vez, reinava nos céus. Com suas enormes asas abertas, sobrevoava campos, rios e florestas, enxergando de longe aquilo que os outros animais sequer imaginavam existir. Orgulhava-se de sua liberdade e acreditava que a capacidade de observar toda a região o tornava superior aos demais. 
 
    — O Jacaré conhece apenas o que está debaixo de seu focinho — dizia, enquanto planava sobre as lagoas. — A Capivara mal consegue enxergar além das margens. Eu, porém, vejo o Pantanal inteiro. Quem enxerga tudo deve governar tudo! 
 
    A Capivara não possuía as garras do Jacaré nem as asas do Tuiuiú. Contudo, conhecia os caminhos entre os campos, sabia onde a água permanecia durante a seca e reconhecia os lugares seguros para alimentar seus filhotes. Vivia em grupos numerosos e mantinha relações de confiança com muitos outros animais. 
 
    — De que adianta dominar o céu ou as águas — argumentava — se não houver quem conheça a terra onde todos precisam viver? O Pantanal não é apenas rio nem apenas céu. É também o chão que sustenta a vida. 
 
    Apesar das diferenças, durante muitos anos os três conviveram em relativa paz. O Jacaré ficava com os remansos profundos, o Tuiuiú construía seu ninho nas árvores altas e a Capivara ocupava as margens tranquilas, onde a vegetação crescia em abundância. 
 

    Em Breve a Parte II 
 
    Conto: Odair José, Poeta Cacerense

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