Eu canto os livros esquecidos sobre as mesas,
canto as bibliotecas silenciosas e as estantes cobertas de poeira,
canto as palavras que permanecem vivas mesmo quando ninguém as procura,
pois sei que nelas ainda pulsa a respiração de gerações inteiras,
e que nenhuma página morre apenas porque deixou de ser tocada.
Vejo a multidão atravessando as avenidas do presente,
vejo os rostos iluminados por luzes breves e inquietas,
vejo homens e mulheres correndo atrás de vozes que desaparecem ao amanhecer,
e pergunto: quem ainda se sentará diante de um livro como diante de um amigo?
Quem ainda ouvirá o murmúrio profundo das histórias e dos pensamentos?
Ó livros, companheiros dos solitários e dos sonhadores!
Vós que carregais reis e camponeses, filósofos e loucos,
mares, desertos, revoluções, amores e despedidas,
vós que transformais uma pequena sala em um universo sem fronteiras,
não sois menores porque poucos vos procuram.
Eu celebro aquele que abre uma página ao cair da tarde,
aquele que interrompe a pressa para conversar com os mortos,
aquele que aceita caminhar por uma estrada de frases e silêncios,
aquele que compreende que a alma também precisa de alimento,
e que nem todo tesouro pode ser contado em moedas ou números.
Pois os livros aguardam, e eu os vejo aguardando,
com a paciência das árvores junto aos rios,
com a serenidade das montanhas diante dos séculos,
sabendo que toda humanidade, mais cedo ou mais tarde,
retorna à sede antiga de compreender a si mesma.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário