Eu desacelero e celebro as pequenas aparições do mundo,
celebro a poeira dourada atravessando a janela ao amanhecer,
celebro o velho sentado à porta de sua casa, olhando a rua sem urgência,
celebro o cão que dorme à sombra da árvore e o vento que percorre os campos,
pois todos eles pertencem ao mesmo grande cântico da existência.
Eu vejo o que os apressados abandonam,
vejo as marcas do tempo nas mãos dos trabalhadores,
vejo os rios seguindo seus caminhos sem consultar mapas,
vejo os rostos anônimos carregando alegrias e tristezas invisíveis,
e reconheço em cada um deles uma parte de mim mesmo.
Ó vida, vasta e contraditória, eu te abraço sem exigir respostas!
Tu me ofereces manhãs de luz e tardes de tempestade,
ofereces encontros breves e despedidas inevitáveis,
e eu caminho entre todas essas coisas como um companheiro atento,
não como um conquistador, mas como uma testemunha.
Quando desacelero, escuto a respiração da terra,
escuto os insetos ocultos na relva, os pássaros sobre os fios,
escuto o rumor distante das cidades e o silêncio dos campos alagados,
e tudo isso entra em meu sangue como uma antiga canção,
uma canção que não possui autor nem fim.
Eu me uno ao movimento dos astros e ao crescimento das árvores,
à criança que descobre o mundo e ao ancião que o contempla pela última vez,
ao pescador, ao viajante, ao professor, ao sonhador e ao solitário,
pois nada está separado, nada vive isolado neste imenso poema do universo,
e as coisas que só vejo quando desacelero são as mesmas que sustentam a eternidade.
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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