terça-feira, 27 de outubro de 2026

O que os apressados abandonam

    Eu desacelero e celebro as pequenas aparições do mundo, celebro a poeira dourada atravessando a janela ao amanhecer, celebro o velho sentado à porta de sua casa, olhando a rua sem urgência, celebro o cão que dorme à sombra da árvore e o vento que percorre os campos, pois todos eles pertencem ao mesmo grande cântico da existência. 
 
    Eu vejo o que os apressados abandonam, vejo as marcas do tempo nas mãos dos trabalhadores, vejo os rios seguindo seus caminhos sem consultar mapas, vejo os rostos anônimos carregando alegrias e tristezas invisíveis, e reconheço em cada um deles uma parte de mim mesmo. 
 
    Ó vida, vasta e contraditória, eu te abraço sem exigir respostas! Tu me ofereces manhãs de luz e tardes de tempestade, ofereces encontros breves e despedidas inevitáveis, e eu caminho entre todas essas coisas como um companheiro atento, não como um conquistador, mas como uma testemunha. 
 
    Quando desacelero, escuto a respiração da terra, escuto os insetos ocultos na relva, os pássaros sobre os fios, escuto o rumor distante das cidades e o silêncio dos campos alagados, e tudo isso entra em meu sangue como uma antiga canção, uma canção que não possui autor nem fim. 
 
    Eu me uno ao movimento dos astros e ao crescimento das árvores, à criança que descobre o mundo e ao ancião que o contempla pela última vez, ao pescador, ao viajante, ao professor, ao sonhador e ao solitário, pois nada está separado, nada vive isolado neste imenso poema do universo, e as coisas que só vejo quando desacelero são as mesmas que sustentam a eternidade. 
 
Pensamentos: Odair José, Poeta Cacerense

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